A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


A alma do urso

Trecho:


NAQUELES DIAS em que eu me encontrava perdido em Palos (como podia “me encontrar” se eu estava perdido?... mas você faz cada pergunta!), acabo mas é perdendo agora o rumo do que dizia. Ah, sim: naqueles dias em que eu me encontrava perdido em Palos, você provavelmente se achava nascendo, filhote de mãe silenciosa e forte. Em volta, o seu mundo era branco, tão branco, enquanto o meu mundo insistia escuro, apenas pontilhado pelas muitas pequenas luzes na caverna do céu.

Se esta Terra é de fato redonda, como queria o italiano (onde ele estará agora?; terá voltado para a Espanha, ou para a sua Itália? — coisas que não se podem mais saber), você nascia bem próximo do Polo Norte, filho quem sabe da própria Ursa Menor, assistido por Perseu, Andrômeda e Cassiopéia. Seus olhos brilhavam assim, estrelas negras e profundas, tantos anos atrás? Não se pode saber, de verdade. Daria metade dos dias que ainda me restam para ver o que se guarda na sua memória — quando nem tenho mais tanta certeza do que guarda a minha própria.

Mas de alguma coisa sempre me lembro.

Lembro-me, por exemplo, do dia em que o italiano chegou a Palos, recrutando a tripulação para a sua viagem, às custas da rainha da Espanha. O que ele pretendia soava um pouco absurdo, mas as pessoas daquele porto — e daquele tempo — não se preocupavam demais com absurdos.

O italiano pretendia buscar uma rota para a Ásia através do Atlântico, isto é, pretendia chegar ao Oriente navegando reto na direção do Ocidente. Toda a gente podia se perguntar como chegar num lugar andando exatamente de costas para ele — mas a maioria das gentes se perguntava é nada. Eu não perguntava nada (ao menos em voz alta). Tratava-se de um trabalho, que prometia ação, companhia, ouro, mulheres (se achássemos as índias) e a cota que eu precisava de solidão, nas noites de vigia sob o céu.

Embarcamos cerca de cem homens, divididos em três barcos. Puseram-me naquele que trazia o nome de Pinta, comandado por um tal de Pinzón. A nau capitânia era comandada pelo próprio italiano, enquanto o terceiro barco recebera o comando de outro Pinzón, acho que irmão mais novo do primeiro.

Deixamos o porto de Palos “no dia três de agosto do ano da graça do Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quatrocentos e noventa e dois”, ou pelo menos assim mesmo deveria estar escrito no diário de bordo do italiano. O que eu teria para contar da viagem? Em geral, tempo bom, bom vento, nenhum monstro, pelo menos que eu tenha visto, e as muitas, tantas estrelas.

As estrelas. Elas formavam desenhos de propósito, para brincar ou para falar com os cá de baixo? Ou os desenhos eram coisa de homens e de vigias insones, feitos por cima dos pontos para lembrar histórias passadas? Não se sabe. As estrelas viviam de fato todas assim juntas, à noite, parecendo tão próximas — ou elas se encontrariam imensamente longe, nos deixando perceber uma luz fugaz, distante? Não se sabe. Talvez as estrelas, aqueles pontos de luz, fossem apenas pontos de luz, e nada mais — porque nem existissem mais, perdidas da luz que teriam lançado no espaço. Talvez. Não se sabe.

Não se sabe coisa demais.

Mas, sabendo ou não sabendo — que importa —, Pégaso continuava galopando, as asas balançando, elegantes, até sair de cena, até sair do céu; Capricórnio e Sagitário invertiam a situação perseguindo Hércules, até que Hércules escapava, e também saía de cena e do céu, coitado; Capricórnio e Sagitário se perdiam um do outro, saíam e voltavam do céu, uma, duas, algumas vezes, até desaparecer, onde quer que estivessem (coitados); o Escorpião ficava sempre na beirinha do céu, se molhando no mar, lá na linha ondulada do horizonte, deixando ver ora a sua cauda, com o temido ferrão, ora a cabeça, com os olhos escuros, escuros.

Como os demais, também chegava o tempo de Escorpião sair do céu, dando lugar a tantas outras estrelas que desenhavam no escuro mais escuro nunca conhecido formas velhas conhecidas, até poder me sentir conhecendo as novas tão velhas estrelas: o Cão Menor, a perigosa Hydra, o Leão rugindo, rugindo seu silêncio a tremer as engrenagens do cabrestante, a ameaçar perder a âncora, a enfunar as velas na calmaria das noites.

Até que chegou no céu sobre os meus olhos aquele conjunto de estrelas que mais me deu medo porque mais se parecia com um sonho, até que apareceu no céu Órion, o gigante caçador, seus braços, sua armadura, aquela cota de malha, aquele capacete invisível. Continuava fugindo da cauda e do ferrão de Escorpião, que Ártemis, a deusa virgem, enviara para matá-lo (uma história que me contaram quando eu era ainda muito pequeno — mas me marcou que não esqueço, como esqueço episódios reais e recentes).

O medo de Órion (o meu medo) se sentia no tremor das estrelas que o compunham: Escorpião decerto se escondia detrás do céu escuro, como debaixo de um lençol, para emboscá-lo quando ele menos esperasse.

Quando eu menos esperasse.

Foi mesmo Órion quem me apontou a terra, de madrugada, quando o Sol corria por trás para afugentá-lo e às outras estrelas do terreno negro-azul que me cobria, insone.

Terra à vista.

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