A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


A alma do urso



NOSSOS AMIGOS URSOS

Ana Cristina de Rezende Chiara

 

A imagem é pregnante: um enorme urso branco equilibra-se num mínimo bloco de gelo em meio à imensidão gelada do Oceano Ártico. E subitamente lá estamos nós também – os leitores – pousados no difícil (mas estimulante) equilíbrio entre o peso de nossa imensa carência afetiva e a leveza de nossa liberdade. O urso nos olha e nos obriga a nos olharmos, devolvendo nossas perguntas sobre sua desmesurada solidão à origem primordial da nossa própria solidão.

Nietzsche, através de Zarathustra, já nos advertira para a incontestável verdade de que: “no amigo deve vislumbrar-se o melhor inimigo”. O livro de Gustavo Bernardo, A Alma do Urso, nos põe frente a frente com alguns desdobramentos desse aforismo. Um deles, talvez o mais sério, é de que o amigo pode nos fazer vislumbrar o inimigo que habita no mais recôndito de nós mesmos. Ou seja, o amigo pode nos fazer vislumbrar com seu gelado silêncio a nossa ineludível solidão. Mas longe de ser melancólico, A Alma do Urso nos instiga a pensar os modos de depurar a solidão e de convertê-la em um modo de liberdade. Retirados os grilhões da dependência do outro, podemos tornar ao convívio com o outro mais forte e melhor. Nesse sentido, o livro é iniciático.

Premiado este ano pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil com a láurea “O Melhor para o Jovem” dos lançamentos de 1999, A Alma do Urso não se limita à fixidez de uma faixa etária, nem aos contornos do que se resolveu denominar, um pouco por imposição do mercado de livros outro tanto por preocupação pedagógica, de literatura infanto-juvenil. Trata-se de um livro de Literatura e dos muito bons, já que prevê um leitor sensível e inteligente tratando-o com seriedade, respeito e confiança, assim como um pai amoroso conversa com seu filho de igual para igual. Aliás essa conversa seria a origem do livro de Gustavo Bernardo, segundo depoimento do autor: “Na verdade, eu contei essa história antes de escrevê-la , oralmente, para o meu filho dormir, quando ele era menor (hoje ele já é maior do que eu). Como me impressionou, talvez mais do que ao menino, acabei escrevendo...”. O tratamento visual e as ilustrações de Ana Raquel seguem o mesmo meio tom dessa conversa, música em surdina. São cores frias e traços delicados que recriam plásticamente a delicadeza da escrita do autor.

Trata-se de um livro de aventuras, no curso de uma longa viagem de deriva. Esse é um outro dado simpático: embora de início se pense em mais uma “aventura de descobrimentos” em meio ao esforço para se comemorar alguma coisa em torno de 500 anos, Gustavo Bernardo contraria essa expectativa criada pelo que poderia ser uma literatura de viagem de descobrimento de terras & gentes, propondo uma viagem de “perdição e achamento” no mais fundo da aventura humana.

Estamos na Espanha de 1492, acompanhando a estranha – para o cabisbaixo mundo contemporâneo – mania de um marinheiro solitário de olhar as estrelas, acompanhar seu traçado no céu. Logo ele se engajará na viagem de Cristóvão Colombo à América, mas sua nau acaba por perder-se no meio da viagem de volta. Sozinhos, ele, mais o severo e implacável capitão Pinzon e seus companheiros, terão que se haver com um enorme urso polar que desliza sobre um iceberg como um surfista deslocado . Trazem-no a bordo, aproveitam o pedaço de gelo como água, e passam a conviver com a estranha e silenciosa companhia.

Os solitários mais que solitários – marinheiro e urso – desenvolvem uma cumplicidade que só a amizade benévola pode acatar. Em outros termos, são amigos sem extremos de devotamento, o que sempre implica escravidão. “Cada um na sua”, compreendem-se no silêncio. Compreendem-se um diferente do outro na aceitação dessa diferença. Não correm o risco de um roubar a alma do outro como temia o capitão. O que funda, portanto, a compreensão mútua é o amor como dádiva, o amor dado de graça, e em segredo. Em outro belo e delicado livro, Me Nina (1989), Gustavo Bernardo já expressara essa convicção quase zen budista: “Porque um gesto de amor só pode sê-lo em segredo”.

Livro quase silencioso, A Alma do Urso é, no entanto, o desfiar de uma conversa entre o marinheiro e o urso (entre o pai e seu menino? do eu consigo mesmo?). Embora o interlocutor permaneça no silêncio (na sombra, no sentido junguiano do termo), pode-se sentir que o marinheiro segura a atenção e a compreensão do amigo. Cria-se entre os dois elementos a possibilidade do entendimento. O marinheiro sabe que o “urso” o ouve e o acata no seu silêncio. Ele (o urso) ajuda o amigo a manter acesa a chama da vida só com o fato de estar ali, pronto para escutar a mesma história quantas vezes for necessário até que o velho marinheiro se sinta preparado para enfrentar seu mais secreto e temível monstro.

Como já dissemos, o marinheiro sonhador vivia com o olhar perdido no espaço infinito do céu do qual só podia obter, por oposição, a constatação da pequenez humana no cosmos. A presença próxima do desmesurado urso polar força-o a ver o que sempre lhe escapara: os também desmesurados monstros das profundezas ou de suas profundezas: “...me sentava no meu posto e encostava num mastro, dobrava o pescoço e ficava olhando o passeio das estrelas (tem razão: pode ser que os monstros nadassem lá embaixo, sob a superfície encrespada das ondas, suas barbatanas roçando o casco do barco, e eu nada via, olhando a maior parte do tempo para cima).”

Livro de espaços amplos (céu & mar), de dimensões proteiformes (monstros marinhos, urso polar), A Alma do Urso nos adverte para a delícia de se olhar as estrelas, mas para o perigo de não se baixar os olhos e olhar a profundeza de nosso mar tenebroso – afinal foi por isso que às páginas tantas “a nau capitânia bateu em recifes submersos (Cristóbal também sempre olhava para cima e para longe, recusando-se a olhar para baixo) e naufragou.” E, de um modo não categórico, mas delicado e sutil, nos faz pensar que os verdadeiros amigos são aqueles que nos permitem a independência na proximidade (como também disse Zarathustra: “Pode aproximar-se do seu amigo sem passar para o seu grupo?”) assim como urso e marinheiro mantêm-se achegados, mas diferentes.

Amigos são os que nos ajudam a olhar de frente nossos próprios monstros sem temê-los, e não aqueles que fazem com que nos sintamos uns monstros. Estes são apenas nossos amigos ursos.

 Jornal do Brasil, 16/09/2000.


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