A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


A alma do urso



A ALMA DO URSO

Marcela Castelli

 

Já na capa e apresentação, a explicação da simbologia do urso polar e a ligação com seu nome me deixou ainda mais entusiasmada com a leitura desse livro e a espera por Nanook. E enfim compreendi a imagem do urso polar na home do seu site!

 
“Tanto essa imagem me conta.”

 
A história toda tem uma aura de sonho, creio que não só pelo tema, poesia, pela maresia e constelações do céu noturno: creio que vem do fato dela ter se originado como história que embalava seu filho pro sono, como contou no seu comentário biográfico e simpático, fez com que, após escrita e publicada, mantivesse uma sensação de quase-sonho, quase-alucinação ou devaneio.

 
Deixamos o porto de Palos ‘no dia três de agosto do ano da graça do Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quatrocentos e noventa e dois’, ou pelo menos assim mesmo deveria estar escrito no diário de bordo do italiano.

 
O real, o físico da penúria no navio, os mortos, tudo só tinha abrigo na lembrança de tempos melhores, com as belas índias, as descobertas. Mas o passado feliz por vezes torna o presente árido ainda mais intragável. Eis que surge o urso, alvo, enorme, rei de sua pequena parcela de água congelada. Não era carne e não era fera. Menos ainda o monstro branco que viera da curva do fim do mundo. Na fome e na sede, a esperança era branca. A vida não era mais fácil, a morte não deixou de ceifar o seu quinhão. Mas aquele navio, em seu silêncio, ventos e velas, tinha agora também alma de urso.

Ora, a alma, uma alma verdadeira, não tem bem nem mal ela é apenas a cor dos acontecimentos, ela é apenas o que tem de ser – foi o que aprendi, nestes anos, contigo e com o frio.

No fim, o urso é o grande e único amigo, amável, o que ficou até a partida, o que pôde escutar e resistir. O que tornou o fim tolerável, a despedida da vida do marinheiro uma bela canção de ninar.


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