A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


apfelstrudel


Trecho do romance:

"Começo a contar uma história triste – mas uma história tão triste, tão triste, tão triste que é capaz de sentirmos juntos uma alegria boa no final.

Claro, se eu contar direito.

O contrário, todavia, não é verdade: não posso contar uma história alegre mas tão alegre, tão alegre, que chegue a ficar triste no final.

Se eu tentasse e fosse bom nisso poderia até fazer você rir, rir e rir – mas como um bêbado que no final da noite desaba em lágrimas nas quais se afoga. Essas lágrimas bêbadas não seriam de tristeza mas, sim, do mais completo desespero.

Não me interessa cantar o desespero.

Por quê?

Porque a história que quero contar não tem nada a ver com isso. Ela é triste, confesso desde o início, mas a tristeza, mesmo quando é muita, mesmo quando é forte demais, não deixa de ser uma coisa muito boa.

Complicado? Nem tanto.

Digamos que aquela alegria que nos leva às gargalhadas também quebra a alma em pedacinhos, como uma taça de cristal submetida a um som extremamente agudo.

A tristeza a que me refiro, por outro lado, rearruma a alma toda, como um belo jarro de vidro polido que a vida nunca tivesse trincado.

Ih, complicou mais ainda?

Então é melhor não explicar mais nada: que a história nos mostre."


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