A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


apfelstrudel



UM ROMANCE DE RECUPERAÇÕES
Giselle Maria

 

O gosto do apfelstrudel
, para mim, é uma história cantada.

Não é uma história encantada, com suas fadas e faunos, ou a história de alguém que se encantou, para usar a expressão de nosso Rosa: é a história cantada de uma vida, como a música que o som do mar faz batendo de leve nas pedras da praia, espumando, de leve, a areia. Um cântico que, como afirma seu narrador, não é o cantar de um desespero, agudo e estridente. É a música de uma espécie de escolha, ou melhor, de um tipo de contrariedade. É a música de um personagem que, a despeito de estar preso a fios, instrumentos e maquinário, é extremamente livre. Música de um narrador que, a despeito de ser livre, se mantém preso à bondade da personagem, com seus fios, instrumentos e maquinários, e à necessidade de narrar, cantar essa bondade. Autor que, a despeito de ter abertas diante de si inúmeras portas da imaginação, opta pelo sempre perigoso caminho de contar uma história que é sua, nem mera semelhança nem mera coincidência. Escritor que do nada que é ele próprio, deixa partir o tudo que é a literatura.

Ao ler a dedicatória do romance e a continuação deste (e aí já temos, senão uma inovação, ao menos uma alternativa diferente, porque a dedicatória, neste caso, deixa de ser parte acessória da obra para ser parte integrante, até essencial à sua compreensão), entendemos que sim, a orelha do livro não mente, trata-se da história de um homem bom, história que intensifica nossa própria concepção de viver e estar no mundo. Mas não, o livro não se reduz a isso: trata-se também de uma recuperação, de uma reconstrução, como diz o narrador, uma recuperação de afeto, como também de memória, de imagens, de sons, de gostos, de lembranças de outras histórias contadas – e cantadas –, de sensações.

Resgatar sensações.

Sensações como as da personagem H, um octagenário que ante à proximidade da morte busca na lembrança, agora novamente recuperada com o fim das nuvens, o gosto da infância, do amor, do riso, das descobertas primeiras. Nuvens que podem se referir tanto a certas doenças que a idade trás e que apagam a memória, como um mal de Alzheimer, quanto, num plano mais abrangente, aos deveres de um chefe de família comum com o peso das contas a pagar, dos filhos a criar, dos cidadãos a formar, deveres que às vezes embotam a alma e enrijecem as emoções. Nesse sentido, a consciência do fim pode significar uma destruição que opera uma reconstrução, uma abertura:


Surpreso, H percebe sua mente sem nuvens. Aquelas nuvens o faziam esquecer nomes, coisas e palavras de maneira muito irritante. Aquelas nuvens o faziam esquecer até que devia ficar irritado com elas. No entanto, as nuvens se abriram (p. 13).


Com o abrir das nuvens, o sol aparece “dentro da cabeça desse homem” (p.16), diz o narrador. Abre-se-lhe novamente a audição, abrem-se-lhe os olhos, ainda que fechados: olhos da percepção. Assim, H “percebe” que “todos  estão juntos na sala de espera, aguardando a sucessão dos acontecimentos” (p.17). O patriarca é observado pelos quatro filhos, ambos designados pelas iniciais apenas, como ele mesmo e a esposa, artifício que o narrador utiliza para apagar as marcas de subjetividade que o texto quase autobiográfico traz. Mas que, num plano maior, aponta para uma ampliação: num livro de recuperações, no qual a personagem principal tem desfeitas as nuvens que o impediam de saber, o nome, a palavra que nomeia não é recuperada, mas esquecida, propositalmente apagada. O apagamento mantém o mistério e amplia seu significado.

Mistério do narrador, um narrador espectador e leitor, que vê com H, “como se assistisse a um cinejornal em preto e branco” (p.19), a história de... H; que lê com H “o livro que ele lê” (p.60), isto é, a história de... H. O narrador bernardiano se esconde também, ele mesmo “pendurado no ombro” de H (p.60). E a personagem que tudo vê e ouve, não enxerga o seu narrador, o seu “contador”, por ser este o espelho de si mesmo, sombra de uma existência que se reconstrói no silêncio.

Recuperar a casa da infância, o carinho da infância nas palavras alemães do pai, no afago dos sonhos de futuro da mãe, o medo da infância na lembrança da guerra e dos alemães, no primeiro contato com o outro, este negro, pobre e feminino. Leontina, a empregada, prefigura todas as inseguranças do menino H frente ao mundo e novamente expõe aquilo que me parece uma constante, quase uma obsessão na escrita de seu autor: o elemento negro – e mais ainda o elemento negro e feminino – como desestabilizador da  falsa ordem existente, que aparece tanto no romance Lúcia, quanto em A Filha do Escritor e Monte Verità. Ao engrandecer a personagem Leontina – posto que esta deixa de ser apenas “a empregada mais nova” na casa do pequeno H, para se tornar “uma mulher importante para sua história pessoal”, para tornar H “o homem que foi até hoje” (p.50) –, o autor constrói uma crítica à situação do negro tido tantas vezes como o outro inferior, digno de caridade e piedade:


Só agora, neste momento de silêncio forçado porém confortável, descubro que a minha inspiração para ser quem sempre fui vem em parte da gentileza natural da minha mãe, sim, mas na maior parte eu a tirei da bondade de Leontina. Que me explicou com respeito, com atenção, com carinho, sem ver em mim apenas o filho do branco. (p.55)


Crítica, esta velada, também à religião. No romance a fé religiosa não serve como base para a recuperação da personagem H, mas serve como ponto de contato que une personagem e criador. O Cristo nas costas de Leontina e não na frente, aguardando de braços abertos a seus filhos oprimidos, o Cristo herdado junto com o medo, o Cristo dos brancos opressores que não o tem tatuado em parte alguma do corpo, aponta para o ceticismo de Bernardo e o consequente questionamento da fé cristã.

Todavia, se no romance o cristianismo é posto, sem agressividade, em xeque; se a religião perde o seu valor redentor, visto que a personagem H é desenhado pelo narrador que o lê/vê como não carente de redenção, a religião não perde, no entanto, seu valor etimológico: nas duas possíveis origens da expressão encontra-se o cerne do romance: religare, religar, ligar novamente o H criança ao H adulto, a alma do H menino às almas dos meninos de H; relegere, considerar cuidadosamente, cuidar. Religiosamente, as pontas de sua existência precisam ser unidas, cuidadas, para a vida ser recuperada:


O que importa é que a sua vida também era doce ou devia ser. Os anos não a trariam de volta, mas talvez a condição em que se encontrava trouxesse. (p.24)


Recuperação que se dá pelo caminho da bondade. H, afirma o narrador, é um homem bom. Só isso, um homem bom. Não é um herói, um santo, um atleta, é só aquele que “cumpriu o seu dever de homem, o seu dever na vida” (p.18), dando “uma vida boa para sua mulher e para seus filhos” (p.72). Parece pouco, mas é muito, ainda mais se levamos em conta o mundo em que hoje vivemos, com tantos amantes e tão poucos amados; com tantos pais com filhos e tão poucos filhos com pais...

Bondade que se expressa em choro. H é um homem que chora. Com a vitória do time, com o nascer dos filhos, com a emoção transmitida pelo sorriso da mulher. Com a lembrança de um doce, um doce da infância, sempre, como nos diz Lispector, prateada de brinquedos mesmo na falta destes. Prateada pela lembrança que tudo amaina, aplaina, nivela.

Disse no início que O gosto do apfelstrudel não é uma história encantada, e não o é.

Mas é uma história que encanta. Ficamos encantados com o encanto do menino H diante do prato cheio do doce que só a mãe podia preparar. Para o homem, mais que para a mulher, as lembranças relacionadas à alimentação sempre têm um sentido de acolhida, de ternura, de afago. Sentimos então com H o afago do rosto vermelho da mãe com o elogio do pai, o creme de baunilha a escorrer pela boca da criança. Com H recuperamos aquela lembrança que é dele, mas também nossa, o poder que a literatura tem de nos fazer projetar nela – e comemos com ele o doce de abóbora com coco feito pela avó, a gelatina de morango boiando no creme de leite que só minha mãe fazia igual, o mingau de maisena...

Até que chega o último momento, a hora que a história fica tão triste, tão triste, que sentimos juntos uma alegria no final, como nos alerta de início o narrador. É o momento da recuperação total. Não, não é a saúde que se reestabelece, tampouco o coração desafia a todos e volta à força. É o momento em que escutamos “a risada forte e cristalina de Z, tão bela e tão solar quanto ela” (p.87) e em meio à tristeza dela, e nossa, ficamos alegres. Ouvimos a risada de Z com H, lemos com H, agora nós, novos narradores/cantadores é que cantamos o seu encanto, enquanto nós mesmos também choramos.

Eu não sou de chorar. Assim como os filhos de H, G e G, herdaram do pai a capacidade de “chorar aos borbotões”, molhados por dentro, segui o caminho paterno na secura, na falta do choro, mesmo diante das perdas. Não chorar, principalmente na frente dos outros, não admitir ser consolada, mesmo que a dor seja enorme. Chorar, para mim e para meu pai, de quem herdei o gênio, sempre foi sinal de fraqueza.

Mas com O gosto do apfelstrudel aprendi uma lição nova. Às vezes vale a pena chorar. Vale a pena chorar, mesmo que seja com o choro “pra dentro” de H, mesmo que seja com o choro sorridente de Z, mesmo que não se alcance o choro soluçante de G. Vale a pena chorar quando o choro não é de fraqueza, mas de saudade, uma saudade que nos amplia, reconstrói, rearruma. Uma saudade que nos recupera.

Um narrador certa vez afirmou que da morte pode nascer fruto e flor. Digo que da morte pode nascer também um belíssimo romance, como esse, com gosto de apfelstrudel. Com gosto de saudade.



e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com