A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


apfelstrudel



A BONDADE COMO SUBVERSÃO

Jason Manuel Carreiro

 

Na última vez em que resenhei um romance de Gustavo Bernardo (o premiado A filha do escritor, de 2008), eu antecipei que o indizível acabaria mostrando a sua face. Mais cedo este ano, quando escrevi uma carta aberta sobre o seu novo livro teórico O livro da metaficção, eu expliquei o que escrevi nos idos de 2008: lendo tanto a ficção quanto os ensaios do autor, sempre ficava comigo uma ligeira sensação de que ele queria escrever sobre a morte.

Qual não foi a minha surpresa com este O gosto do apfelstrudel! A começar pelo título, que incomoda, que possui uma palavra em alemão! Depois, por se tratar mesmo de um livro sobre a morte! Mas primeiro, gostaria de falar um pouco sobre o título difícil.

Quem está habituado a ler as ficções ou os ensaios de Gustavo Bernardo, sabe que ele sempre apresenta muitas palavras em diversas línguas diferentes. Suspeito que sua intenção seja instigar o leitor atento e convidá-lo a desfrutar da beleza de se dizer de modo diferente diversas coisas iguais. Talvez seja um convite para nos espantarmos com a arbitrariedade da linguagem. O fato é que a arbitrariedade da linguagem acaba sendo também signo da arbitrariedade da própria existência: afinal, que sentido podemos inferir ao vivermos uma vida apenas para… morrer?

Pois além de apontar para a arbitrariedade de se dizer apfelstrudel com pronúncia em português, além de nos fazer invocar o gosto do folhado de maçã, o pequeno romance do escritor carioca (segundo ele mesmo me disse, o seu livro mais difícil) é um livro sobre a morte e, consequentemente, sobre a vida.

Fosse um romance filosófico sobre o movimento entre vida, morte, literatura, linguagem, impossibilidade, como tão bem fizeram autores como Maurice Blanchot ou Pierre Klossowski, que foram extensivamente explorados por diversos autores contemporâneos, poderíamos dizer que o novo livrinho de Gustavo Bernardo seria mais um produto desta linhagem. Mas o livro é maior que isso.

Pra começar, o livro foge às peripécias e firulas linguísticas tão caras a um certo movimento ao qual eu mesmo aderi. Ao contrário dos livros desta tradição (vou me esquivar de dar nome a ela, porque ela ainda não se esgotou para que possamos encarcerá-la num conceito, num nome, e analisá-la), o livro de Gustavo é narrado de forma simples, direta, bonita. Chega a ser um livro ainda mais belo porque despretensioso sob o ponto de vista formal.

O livro narra a história de H, um homem de idade avançada, diabete, câncer, depois ainda outro câncer. Após diversos tratamentos, H está em coma, mas ouve o que os seus filhos G e G, e ainda W e W, e sua esposa Z dizem ao seu redor. Graças ao poder da invenção mais sensacional de todos os tempos (diga-se: a ficção), H pode estar em dois lugares ao mesmo tempo: ele retorna à infância e relembra momentos da sua vida ao mesmo tempo em que permanece um homem à beira da morte, ouvindo o que a esposa e os filhos dizem ao seu redor.

A história de H não tem moralismos, não tem lições, não tem melodrama. A história de H não tem vampiros, escolas para bruxos, lobisomens. A história de H não é trágica, não “dá ibope”, não é nem nunca será manchete de tablóide. A história de H é altamente subversiva, porque é a história da vida e da morte de um homem bom. E é pelo simples fato de não ser uma história cheia de sangue, violência, grandes eventos bombásticos, que a história de H é uma história que merece ser contada. É a história de um outsider – um homem que estoicamente nunca se lamentava, nunca se preocupava. Descobriu a beleza de saber deixar a vida acontecer e mantinha a calma e a sabedoria de entender que poderia enfrentar o que quer que fosse com o que tinha à mão.

A bondade de H não é a bondade do caridoso que prepotentemente doa – é a bondade silenciosa de um homem que não seduz ninguém, que não pontifica, não emite certezas ou ordens. Preferia perguntar, sugerir, pedir. Era contemplativo, digno e suave. Num mundo rápido e competitivo onde, como diz o Millôr numa reviravolta bem sacada, “o lobo é o homem do lobo”, a história de H é a história de um homem sereno que sabia quem era, como no poema de Borges: “Chego a meu centro, a minha álgebra e minha chave, a meu espelho. Breve saberei quem sou”. E consuma a sua sabedoria relembrando, no último instante, o sabor da sua sobremesa favorita, como Rémy, no filme As invasões bárbaras, cujo último pensamento é a lembrança de uma atriz erguendo a saia para entrar no rio.

Em suma, O gosto do apfelstrudel é mais um belo livro do autor carioca. É repleto de elementos que “arrumam” a nossa alma e nos motivam a valorizar este dom misterioso que nos é dado de graça: a vida. O livro celebra a vida de modo geral e particular: celebra também a vida de H, este outsider do bem.

Ah, quase esqueço de me dizer: H é Hayrton, pai de Gustavo Bernardo.
 

Revista Aguarrás, http://aguarras.com.br, 22/9/2010


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