A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


apfelstrudel



SABOR DE LEMBRANÇA NO LEITO DE MORTE

Rafael Martini

 

Uma das mais desafiadoras missões da literatura é mostrar a complexidade de uma situação limite. E para a humanidade, o limite é o fim. A morte.

A Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) de um hospital pode ser o cenário para que a fria dama mostre sua inevitabilidade ao paciente. Mas também pode ser o local para se preparar o momento final, relembrando o que foi construído durante a vida.

Por isso, talvez, é que O Gosto do Apfelstrudel, novo livro do escritor Gustavo Bernardo, consiga um feito. Trata da mortalidade, porém é de modo algum banal, nem apela para lugares comuns ou clichês. De leitura rápida, a obra teria como público alvo o juvenil. Mas não é bem assim: não há nada de imaturo nessas linhas, que vão impressionar leitores de qualquer faixa etária.

No leito do hospital, cercado por sua família, o personagem chamado simplesmente H está em coma induzido. No entanto, tem consciência. Escuta tudo o que ocorre ao seu redor: a cada hora diminui as chances de esse velho homem sobreviver.

A idade avançada enfraqueceu o corpo de H. Isso sem contar as doenças. Diabético, teve duas batalhas contra o câncer. A quimio e a radioterapia acabaram com o seu intestino.

E o coração? Várias safenas, o marca-passo, o stent, o stent dentro do stent, dois ou três cateterismos. Mas enquanto a mulher, filhos e netos sofrem nestes instantes de despedida, H está alegre – uma alegria que na verdade não é fruto da felicidade ou do bem estar, mas da satisfação. Pela viagem que, como diz o livro, “é como um belo jarro de vidro polido que a vida nunca tivesse trincado”.

H realiza uma viagem ao passado, à infância. Aliás, a infância que nos faz quem somos, e que ainda tem a capacidade de intrigar um velho homem.

Filho de alemão, o personagem convive com diferentes mundos – o mundo da guerra, que assombra os europeus que estão longe da terra natal; o Brasil ainda rural, caminhando preguiçosamente ao futuro; o o seu mundo interior, que ainda luta para se encontrar em meio aos conflitos domésticos, de classe, ou até de raça.

O menino passeava pelo quintal de casa com medo da “selva” do mundo exterior. Ouvia as notícias da guerra pelo rádio, enquanto seu pai praguejava uma misteriosa palavra, Dummheit. Enternecedor é ver que a conexão do velho moribundo à felicidade tem é o gosto de um doce da culinária alemã que comia quando garoto – o Apfelstrudel (torta de maçã), que dá nome ao romance, fazendo-o parecer mais infanto-juvenil do que de fato é.

Gustavo Bernardo consegue um feito: não precisou criar uma vida extraordinária. Nem para o protagonista, e nem para os personagens coadjuvantes de seu O Gosto do Apfelstrudel.

A situação aqui vivida – que tem muito de autobiográfica – é a mesma que tantas famílias brasileiras já passaram. H vai-se como tantos homens, dos mais simples e anônimos, já se foram. Mas nenhum deles deixa de ser um herói, como essa bela publicação comprova.

Diário Catarinense, 16/11/2009


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