A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


apfelstrudel



O GOSTO DO APFELSTRUDEL

Marcela Castelli

Os almoços em família, os doces e sobremesas que queríamos comer antes mesmo que tivessem esfriado trazem consigo aquela qualidade que talvez somente a música seja capaz de evocar: algumas notas e acordes, uma ou duas mordidas e uma época inteira da vida volta numa sensação pra qual ainda não se criou nome. O tipo de associação que não se pode fazer conscientemente, é apenas que a vida impregna sua essência em alguns fragmentos do mundo tal qual se via em determinado momento. E quando se sente o cheiro da torta de limão ou o gosto do apfelstrudel, volta a família reunida na mesa de jantar, a mãe retirando algo do forno cuidadosamente com uma luva no fim da tarde de 24 de dezembro. Essa talvez seja a única memória real, aquela que não foi revista e reescrita pelo tempo e pela vontade. É a lembrança crua, o único contato possível com outra versão de si.

Acredito que tenha cumprido o que se propôs a alcançar no capítulo I: de tão triste a história traz sim uma felicidade emocionada não só no final, mas ao longo de seus capítulos e lembranças.

É, antes de mais nada, uma homenagem belíssima a sua mãe, seu pai e suas origens através de uma obra de ficção, que torna a história um pouco de quem a lê e com ela se emociona.

 

O mundo é escuro, o quintal é claro.
O mundo é solidão e terror, o quintal é família e panqueca no almoço.
O mundo é alemão ruim, o quintal é brasileiro e alemão bom – era o que ele pensava, sem jamais expressar em voz alta.

 

Esta leitura evocou o meu próprio medo do mundo, minhas próprias limitações entre a vontade de ser adulta e o medo de abdicar da segurança de não o ser por inteiro. Às vezes mais, às vezes menos. Lembro sempre de Shaw quando vem o impulso de enterrar a cabeça  na areia:

 

Quem do destino tem medo
Nunca será vencedor;
Ou tudo ou nada é o segredo
De todo bom jogador.

 

Desafiada, escolho o tudo, o que vem depois do portão, sabendo que o mundo e sua realidade é uma questão de percepção e que viver não me impede de sonhar.

Um lar confortável demais e uma imaginação muito pronunciada oferecem tanto a uma criança, tantas realidades, mundos, pessoas, que mais tarde a rotina dos dias que nascem e morrem, noites que evoluem e batem retirada parecem oferecer menos, insuficientes 24 horas. O remédio é, talvez, aprender a não opor, não comparar: viver plenamente unindo sonho e matéria-prima pra sonhar. “A realidade é boa, o realismo é que não presta pra nada.” Se Machado disse, certamente foi por experiência própria de que viver vale sempre a pena.

É praticamente a única coisa que ele pede, a única atenção que demanda. No mais do tempo, o jovem H não dá trabalho, não chama a atenção, não incomoda e não perturba ninguém. Para os padrões da sua época, ele é uma criança-modelo. Diverte-se em geral sozinho, passeando no quintal e falando consigo mesmo, ou fazendo contas de cabeça para depois conferir no papel se acertou.

Talvez seja característica dos filhos únicos, desenvolver desde bem cedo suas armas pra vencer a solidão e torná-la abrigo, não caverna: quando nela, habita um mundo só seu. O fantástico mundo de Bob. A ficção, os sonhos, brincadeiras que não requeiram mais de um: gangorra, não. Balanço sim. Desenhar sempre (depois escrever),  pique-esconde só na escola. E um universo só acaba sendo universo de um só habitante pra sempre, mesmo quando na vida se deixa outras pessoas entrarem. É difícil explicar as regras de um mundo imaginário e deixar que os outros entrem quebra a ilusão. Essa eterna dupla-pátria universal dá vontade de criar no papel outros mundos, outras pessoas, pessoas de sonhos, brincadeiras e devaneios e, pelo menos assim, compartilhá-las um pouco com o mundo de cá.

O trecho sobre a verossimilhança, como pode imaginar, novamente evocou para mim suas primeiras aulas. É a sorte de quem entrou na universidade no semestre exato para poder dizer com orgulho que é ao mesmo tempo aluna e leitora. Eternamente aluna porque cada nova leitura me leva a refletir e reanalisar, descobrir uma verdade nova. E que não haja nunca uma verdade só, tirana e absoluta.

De quem quer que pretenda retê-la, a verdade escapa entre os dedos como se fosse água. É preciso capturá-la nos sonhos, nos livros e quiçá nos estados terminais como o de H, que lhe permite reconstruir a sua casa materna sem se preocupar com o olhar do outro – nem mesmo o meu olhar, ele não sabe que me encontro pendurado no seu ombro para ler o livro que ele lê.

Posso dizer que a história sobre a bondade silenciosa como um vento muito suave pode até não ser um tema que dê ibope, mas me encantou. Ela me fez revisitar minha própria memória. Ouvir músicas de outro tempo e pedir pra minha mãe assar uma torta de limão. Quer pela habilidade do escritor, que se tornou definitivamente um dos meus favoritos, quer pela beleza de uma história sem vilões a não ser a finitude da vida em si. O início e o fim são as certezas que temos todos em comum. Acredito que exista, pelo menos em dose proporcional à necessidade pelo que há de violento e sombrio, a busca persistente pela bondade como do livro, de casa, da infância no quintal, da mesa de jantar, do apfelstrudel. Se não der pra encontrar sempre esse alvorecer, que a vida seja pelo menos de uma penumbra estrelada.


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