A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


apfelstrudel



O GOSTO DO APFELSTRUDEL

Adilson de Oliveira

 

“Não há nada tão belo e legítimo quanto ser um homem de forma boa e adequada, nem conhecimento tão difícil de adquirir quanto o conhecimento de como viver essa vida bem e com naturalidade; e a mais bárbara de nossas doenças é desprezar o nosso ser.”

Michel de Montaigne

 

As palavras do filósofo do século XVI revelam uma conclusão e, ao mesmo tempo, um alerta que quase sempre perdemos de vista no decorrer da nossa luta cotidiana. O que, de fato, é o mais importante na vida? Desejamos coisas. Mas o que desejamos obter em última instância? A felicidade é o único estado, penso, que se pode resumir como sendo um fim em si mesmo; ou seja, uma condição última, por assim dizer. Almejamos a felicidade pelo  que ela é intrinsicamente e não pelo que pode proporcionar ou acrescentar, visto que a própria satisfação experimentada, que preenche o nosso ser, nada mais é do que uma condição da existência da própria felicidade.

Podemos desejar qualquer coisa na vida. O nosso desejo – que nunca será satisfeito, posto que é infinito, sendo finita a nossa capacidade de realização – será sempre extrair a maior dose de satisfação, que resultará em felicidade, ainda que incompleta. Alcançar essa valiosa e escorregadia condição, porém, não se resume a um vale tudo. Afinal, as pessoas que vivem ao nosso redor também esperam realizar seus desejos de felicidade, e assim como pretendemos contar com elas, também elas contam conosco para alcançar o mesmo intento.

Isso nos leva aos dilemas morais que nos impedem – ou pelo menos deveriam impedir – a obtenção de qualquer coisa a qualquer preço. O que nos permite uma definição do nosso papel na sociedade como a de agentes morais e principais construtores da realidade para propiciar um mundo melhor. Um lugar no qual todas as pessoas têm as mesmas chances de realização e chegam, de fato, a estados de felicidade plena. Sabemos que essa não é a realidade (a própria ideia de plenitude é uma utopia), tamanho o sofrimento e a desigualdade que há no mundo, impostos pela nossa própria desumanidade, muitas vezes. Resultado quase sempre da adoção de qualquer coisa a qualquer preço, não importando as consequências.

Podemos desejar ardentemente viver uma vida virtuosa, em detrimento dos vícios, buscando o caminho da moderação e da serenidade para o seu desenvolvimento – que envolvem o pensamento correto, a ação adequada e o exercício da regra do ouro. Por princípio, fazer às pessoas aquilo que desejamos que elas nos façam. Portanto, as nuances do crescimento pessoal para uma vida gratificante passam necessariamente pelo relacionamento com as pessoas e começam, como não poderia deixar de ser, pelos laços familiares.

 

Surpreso, H percebe sua mente sem nuvens. Aquelas nuvens o faziam esquecer nomes, coisas e palavras de maneira muito irritante. Aquelas nuvens o faziam esquecer até que devia ficar irritado com elas.

 

Uma manifestação de desejo é o primeiro de uma série de pensamentos de H, que acabou de ter a sua consciência despertada. O desejo de ter se despedido de sua família, já que ele sabe que não voltará a interagir com ela, e, em seguida, o desejo de ter o prazer de uma última refeição: um doce, com certeza. Assim é que Gustavo Bernardo começa a contar a história do personagem do seu romance – através da manifestação de seus desejos.

O gosto do Apfelstrudel nos apresenta um homem vencido pela doença, na reta final de sua vida, em fase terminal e em um estado de coma induzido. Esse é o seu quadro, após várias intervenções para prolongar a sua vida, agora precariamente sustentada pelos aparelhos que ainda permitem a sobrevida de seu corpo arruinado. A família sabe que nada mais pode ser feito e está ciente do estado de inconsciência e não retorno do seu patriarca.

Desafiando, contudo, os livros de medicina e tudo o que a ciência pode saber sobre pacientes em seu estado, H está consciente e lúcido. Não sente nada, e o seu corpo não dá sinais de atividade física ou mental. Mas apesar de não expressar nem sentir nenhum estímulo externo, H vive toda uma gama de estímulos internos. Na iminência da morte, H nunca teve uma mente tão esclarecida quanto agora. Ele, que antes de ir para o hospital, pouco ou nada ouvia, agora escuta tudo: as piadas dos enfermeiros, as palavras do médico para a sua família e as conversas no corredor. Sua memória está clara como nunca e ele começa a repassar a sua vida, o seu casamento e a criação dos filhos. Ele passa em revista sua história até aquele momento.

 

Nessas horas a frase que lhe chega à cabeça é a do seu trocadilho infame preferido, aquele que chama de trocadilho poliglota e de que os seus filhos nem fingem mais que estão rindo: “everything is all right, mas com creme de abacaite”…

 

Gustavo Bernardo coloca-se como um espectador, e a nós com ele, que acompanhamos H nessa jornada. Mas o autor não é um espectador passivo e, sim, em contemplativa reflexão. Em sua condição de acompanhante (que é também a nossa), oculta de seu personagem, ele nos convida a enxergar o que vê por sobre os ombros de H, nos conduzindo por questões que fazem repassar a nossa própria vida e a indagar coisas, como as que H indaga sem resposta.

 

Com que idade ficam as almas? A idade do corpo que morreu? Ou jovens, como gostariam de ter sido sempre? Ou com as formas de uma criança eterna?

 

A beleza do romance está na simplicidade com que o autor nos conduz nesse processo, tratando, despretensiosamente, de questões sobre o sentido da vida e a certeza da morte, sem lançar seu personagem na armadilha da inversão de valores – como acontece com aqueles que não deram valor ao que realmente lhes importa na vida, mergulhando em arrependimento pela descoberta tardia. Seu personagem, pelo contrário e como veremos, soube levar bem a sua, e em dado momento, prefere até aproveitar o tempo que lhe resta para rememorar a sua infância. Ele viaja ao passado e reproduz as cenas do seio familiar. Procura os indícios das circunstâncias que o definiram, ao mesmo tempo em que, inconscientemente, parece estar em busca de realizar o seu último desejo, manifesto logo no início, no seu despertar.

E é assim que, em poucas páginas, o autor consegue traçar o perfil de um homem que vamos descobrindo ser como aquele que Montaigne sugeriu em sua conclusão de como viver bem. E demonstra, na força de sua história e nas pérolas de sabedoria que ela carrega, que a vida inteira de uma pessoa é como uma obra em constante evolução, e que o mais importante na nossa história não é como ela começou, mas como ela vai terminar.

 

Em http://www.icultgen.com.br/author/adilsondeoliveira,  22/04/2013


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