A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


versão brasileira                                  versão alemã


PREFÁCIO

Rodrigo Duarte

A biografia de um “homem sem chão” jamais poderia ser o simples relato sobre uma vida humana, no qual, via de regra, constam dados sobre o nascimento, a infância, o amor, o trabalho e – finalmente – a morte. Provavelmente todos nós já experimentamos alguma vez em nossas vidas a sensação de ausência de chão – Bodenlosigkeit -, mas isso é muito diferente da situação de alguém, a quem, no início da fase adulta, se arrancou com violência o tapete de sob os pés, ocasionando uma reflexão sobre a existência sem fundamento que terá durado até o fim dos seus dias e que produziu uma obra filosófica das mais criativas e instigantes do século XX.

Certamente a consciência da absoluta singularidade do biografado imbuiu o projeto de Gustavo Bernardo e Rainer Guldin do desejo de ofertar ao público um livro que, na medida em que revela meandros da complexa personalidade de Vilém Flusser, o faz de um modo que, sob vários aspectos, se relaciona com peculiaridades de sua obra e de sua postura existencial e filosófica. E isso de um modo congenial à própria situação dos biógrafos, pois, refletindo a bipolaridade geográfica e linguística do próprio Flusser – Brasil e Europa como loci vitais, português e alemão como línguas filosóficas preferenciais –, Gustavo Bernardo é um escritor brasileiro muito bem (e criativamente) ancorado na língua portuguesa e Rainer Guldin um pensador suíço, nativo do idioma alemão (apesar de, como bom helvético, dominar muitas línguas).

A já antiga colaboração intelectual de ambos os autores garante ao livro uma unidade na diversidade; pois, mesmo  que desde o seu início se explicite que a parte relativa à vida de Flusser na então Tchecoslováquia e sua continuidade em terras brasileiras seja de responsabilidade de Gustavo Bernardo e que a relativa ao retorno à Europa em 1972 até a sua morte, em 1991, esteja a cargo de Rainer Guldin, e que, além disso, para leitores-admiradores dos autores da biografia, seja possível reconhecer em cada parte os seus inconfundíveis estilos pessoais, há muita convergência e harmonia nos enfoques.

Apenas para dar um exemplo: Bernardo e Guldin assumem inteiramente o preceito hebraico, que veio a se tornar um lema para o próprio Flusser, de que sobrevivemos na memória dos outros. Aliás, uma variante desse preceito, segundo a qual “A verdadeira homenagem devida aos mortos é assumi-los como se fossem vivos”, serve de epígrafe ao livro. Essa assunção leva a uma peculiaridade na linguagem da obra, do início ao fim: mesmo em se tratando de uma narrativa em grande parte ocorrida no passado, o tempo verbal usado para a descrição dos acontecimentos é sempre o presente. Desse modo, durante toda a leitura do livro, tem-se a impressão de se familiarizar com eventos que estão ocorrendo agora.

Outra característica decorrente da adesão dos autores ao mencionado preceito judaico é o fato de a biografia não terminar com a morte do biografado, mas ainda se estender por um longo capítulo que se inicia logo após o falecimento de Flusser e parece nem mesmo se encerrar, evocando a ideia de que, até o último segundo antes de o manuscrito entrar na gráfica, ainda haverá tempo para se acrescentar mais algum dado sobre a “história dos efeitos” (Wirkungsgeschichte), para usar o termo popularizado por Gadamer, do nosso querido Vilém. Ou, para usar um termo que lhe é caro: sua “pós-história”.

É óbvio que não passa pela cabeça do autor desta apresentação fazer uma “resenha” do livro. Mas eu gostaria apenas de destacar, para além de todas as enormes qualidades que ele possui, dois elementos que me impressionaram muito na sua leitura, de responsabilidade de cada um dos dois autores da obra. No que tange à parte redigida por Gustavo Bernardo, chama a atenção o impactante resgate histórico sobre a cidade natal de Flusser e do que é hoje a República Tcheca, desde a Idade Média até a época contemporânea, com destaque para a instável situação da comunidade judaica e para a condição não menos complexa dos grupos com ascendência germânica, a qual veio à tona principalmente na crise que atingiu os alemães dos Sudetos, após a Segunda Guerra Mundial. Mas o que isso tem a ver com a biografia de Flusser? Principalmente – dentre outras coisas – o fato de que a situação, descrita por ele em Bodenlos, de invejável harmonia entre as comunidades tcheca, judaica e alemã na Praga anterior à invasão nazista de 1940, se é que não terá sido um pouco romanceada, pelo menos terá sido fruto de um tumultuado processo, que durou séculos, com capítulos de violência e perseguição, nos quais, de um modo geral, os judeus eram sempre as vítimas preferenciais.

Nessa recuperação histórica, chama também a atenção a ênfase dada por Gustavo Bernardo ao fato de que, na virada do século XIX para o XX, a região natal de Flusser havia se tornado a grande força industrial do então ainda existente Império Austro-Húngaro, além de ostentar índices de alfabetização próximos de cem por cento. Essa situação explica, em parte, a atitude de Flusser, de, a partir de sua experiência de infância e adolescência, estar imbuído da sensação de ter vivido em um dos centros mais importantes da civilização europeia.

O outro elemento do livro que me impressionou muito, agora oriundo da parte redigida por Rainer Guldin, é o exaustivo trabalho feito por ele, enfocando a correspondência de Flusser com amigos europeus, bem como com outras fontes, tais como agendas, depoimentos pessoais de seus interlocutores e escritos menos conhecidos do filósofo. Desse trecho do livro ressaltam detalhes de amizades muito intensas – e nem sempre muito pacíficas – com Abraham Moles, Fred Forest, Alexandre Bonnier, Jeanne Gatard,  Louis Bec, Felix Ingold, Andreas Müller-Pohle e Stefan Bollmann, dentre outros. Nessa parte, Flusser se revela como demasiado humano: muito cioso do sucesso que faz nos anos 1980 em países de língua alemã e, ao mesmo tempo, muito ansioso para publicar e produzir cada vez mais. Mas não se pense que, ao mostrar os bastidores do sucesso editorial e acadêmico de Flusser no período mencionado, Guldin proceda de modo desrespeitoso com o autor que tanto o tem inspirado nas últimas décadas: a imagem que se forma é a do ser humano por detrás do mito, esse entendido como ser fantasioso e etéreo, parecendo desprovido de carne e osso.

Por tudo isso, cumpre dizer que O homem sem chão é uma biografia de Flusser que veio para ocupar um lugar até então vago e, ao que tudo indica, cada vez mais se tornará uma obra referencial no tocante  à carreira filosófica e à vida desse importante pensador.


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