A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Conversas

CONVERSA COM O PROFESSOR

Marcela Santos Castelli

 

Li e reli nos últimos dias O problema do realismo de Machado de Assis, Redação Inquieta e Conversas com um professor de literatura. As aulas e provas se encerraram na semana do dia 8, mas desde então tenho lido e analisado seus livros e outros tantos a partir deles de forma que meus dias de férias ou recesso tem sido preenchidos com perguntas e procuras muito animadoras.

Vou começar, dessa vez, discordando de algo que você diz no texto “Literatura é religião?” sobre epifania.

“Em arte, a epifania corresponde à súbita sensação de compreensão da essência de algo, como se encontrássemos a última peça do quebra-cabeça da vida. Essa sensação súbita não acontece quando assistimos a uma aula ou lemos um ensaio como este, mas sim quando assistimos a um filme ou lemos um romance. É como se “tudo” ficasse claro e fizesse sentido de repente. Não mais do que de repente, os fragmentos incoerentes do mundo se arrumam e os impulsos contraditórios da alma se harmonizam.”

Provo através da minha própria experiência minha ideia contrária e ao mesmo tempo comprovo um outro ponto defendido por você. Acredito que podemos (e não quero soar pretensiosa usando plural tendo como argumento apenas minha experiência particular e limitada. O faço porque creio que em determinado enfoque e abordagem, esse efeito seria comum a qualquer pessoa) sim chegar a epifania através de uma aula ou da leitura de algo que se equivale a uma boa aula, como os ensaios que eu li até agora.

Minha experiência de epifania a qual me refiro está diretamente relacionada a esse ponto que confirma a questão levantada: o ofício de ensinar e a aula como arte, o professor como artista. O conceito de arte se modificou (aliás, foi modificado) de acordo com o interesse da classe dominante de cada época e na era da burguesia capitalista financeira, existe uma aparente reverência a arte - que na verdade é reverência mais à vaidade - e à chamada “classe artística” que se separam em dois nichos dominantes:

a)     Quem aparece na televisão, no cinema (mas tem que ser em Hollywood), na ilha de Caras e nos comerciais de desodorante e tira-manchas é artista porque faz dinheiro. Não importa se é ex-BBB ou apresentador de programa de auditório. Esse primeiro conceito iguala fama e dinheiro a arte.

b)     A outra ideia de classe artística envolve justamente um desprezo pela ideia de arte mainstream (que às vezes é legal, às vezes é só entretenimento disfarçado) não pelo aspecto limitador, mas por elitismo. E por elitismo, é elitismo mesmo, elitismo nível cancela limitando o acesso a rua. Inclua aqui frequentadores de mostras de fotografia ultra chic, ultra restritas, atores de peças ultra avant-garde, ultra alternativos, ultra underground, ultra "conheço as galerias do Brooklin como a palma da minha mão" e já fotografei metade das prostitutas de Camden Town e fiz uma exposição depois, sou excêntrico. O que incomoda não é o que se faz, é a pretensão e a necessidade de se colocar como “público selecionado” do que se pretende avaliar como “arte verdadeira”. Todo mundo é um pouco ator, um pouco DJ, veia de fotógrafo, artista expressionista, fez Tablado, agora faz CAL e ainda é modelo de site de camisetas, e produtor cultural nas horas vagas. Ufa!

Eu sempre vi arte como uma forma de escapar do que sufoca. Exercício do que precisa existir em algum lugar. Seja uma realidade difícil em casa, ou uma dificuldade (ou desinteresse) de se encaixar no grupo social que te cerca.

Minha epifania foi não só me descobrir professora, mas descobrir o que o ofício significa pra mim através das suas palavras nos livros, seu exemplo nas aulas e a necessidade de recuperar o sentido real de usar a voz e o pensamento para mudar a vida, entrar no universo do outro.

Sempre me abriguei, de fato, nos filmes, livros e peças que me faziam me sentir mais pertencente ao mundo. Sempre tirei notas altas na escola, menos por real interesse do que por vontade de sair dali o mais rápido possível. As matérias que eu não gostava eram ruins justamente por falta de identificação e pouco incentivo. “É difícil mesmo, já vai sabendo que é difícil e chato.” E as que eu gostava eram piores, porque eu via o que eu adorava sendo pasteurizado na minha frente. Já contei da professora que idolatrava Alencar. Minha vida escolar pode ser resumida como uma pilha de regras ridículas (Não, você vai estar voltando pra casa com uma advertência porque só pode meia branca, não meia branca com borda azul) e listas a serem copiadas, nomes e datas a serem decorados, uma prova toda segunda, uma semana com duas ou três provas por dia no fim de cada bimestre e um simulado no topo de tudo. "Marcela, posso sentar atrás- de você na prova", as mesmas festas que eu nunca ia, e ano que vem a mesma coisa. Eu creio que não possa culpar meus professores por caírem em estereótipos designados para eles.

Eu estudava, no ensino médio, num colégio particular onde tudo que importava era receber as mensalidades em dia e depois aprovar o maior número possível de alunos no vestibular. Eles seguiam esse sistema. Tampouco posso culpar alguns dos meus colegas por seguirem seus próprios esteriótipos, ainda por cima crendo-se originais. Quando eu tinha 13, 14 anos, tudo que eu queria era ser o Lou Reed. É interessante que eu nem sofria nenhum tipo de bullying por isso. Eles só tentavam me  trazer de volta ao que consideravam mais normal. Eu tinha empatia, apenas nenhuma vontade de ser aquelas coisas. E olha, as coisas podiam sim, ter sido bem piores, mas penso que poderiam também ter sido melhores. É aqui que eu chego ao ponto central.

Se meus professores, se pelo menos um, pudesse ter sido meu professor herói, como você diz, as coisas não poderiam talvez ter sido bem diferentes, não só para mim mas para os outros? Eu defendo sim, que o professor é um artista e cada aula uma potencial obra de arte particular. De uma boa aula lembramos para sempre. Tive um professor de teatro que morou por quase 30 anos em Nova York e não gostou muito de voltar, odiava Nelson Rodrigues e Plinio Marcos, então suas citações eram quase sempre em inglês. Falava muito em “the craft of acting”. Já que minha habilitação ainda é inglês/literaturas, falo hoje em “the craft of teaching”.

Quando li o que você disse sobre o trabalho do professor como arte, tive a epifania. Por que razão já se aprende que física e química são difíceis antes mesmo de se conhecer os princípios de cada uma? Por que matemática e português são colocados como opostos? Por que diabos todo mundo tem que decorar o nome do texto de Monteiro Lobato criticando a Anita Malfatti pra responder certinho na prova de Literatura, mas os textos dele e a arte dela se resumem a uma ilustração da Emília e “A estudante”? Por que a experiência na escola não vai além da apostila e por que, por que razão, há tantas escolas sem bibliotecas?

Por que eu não pude ter um Gustavo Bernardo no ensino médio? Eu não veria a escola como rival, mesmo que o sistema continuasse perverso, eu vislumbraria um pouquinho de esperança e minha vontade de mudar começaria ali. Mas tudo que eu via era opressão atrás de opressão e no final só contava os dias para terminar. Todo meu estudo que me agradava eu fazia sozinha, fora de lá.

Por que eu não estudei nem um pouco de Marx, por exemplo, em história? Não o nome e data, mas a ideologia. Só caberia em filosofia? Aliás, a inclusão de filosofia e sociologia no currículo não mudam muita coisa se são pasteurizadas como todas as outras. Só tive as duas no terceiro ano e a professora de sociologia “tirava ponto” de quem esquecia a apostila, que era separada das outras. Eu só lembro disso nas aulas dela, a histeria por causa das apostilas. Eu não acho que seja à toa. O sistema do nosso tempo nos tenta ensinar, desde cedo, a amá-lo e protegê-lo. Qualquer alternativa é retrocesso. Estudei sempre em escolas particulares e aprendia ali que o que mais deveria temer era um colégio público. Os professores sempre tinham uma história de terror sobre “a época em que eu lecionava no município”. Os alunos? Praticamente umas feras. E que a melhor coisa do mundo é um colégio particular com dois aparelhos de ar condicionado na potência máxima, nos afastando do calor carioca e daqueles garotinhos negros de uniforme laranja (era na época, agora acho que a cor mudou), aliás, o horário de saída de vocês vai ser alterado para não coincidir com o deles! Devem morar no Borel, na Formiga ou no Salgueiro. A propósito, o capitalismo é a melhor coisa que existe. Chegamos ao ápice da existência humana. Somos todos livres, somos todos bem alimentados e qualquer um pode ficar milionário. Se não o está, é por falta de esforço. Mas nem precisa ser milionário. Moramos todos pela Tijuca, somos tijucanos, olha que beleza, tem até adjetivo e isso basta. O comunismo é ensinado sempre apenas como algo violento e impossível em poucas linhas sangrentas. Mas usar camiseta com estampa do Che ta valendo, viu? Descoladíssimo.

O que eu aprendia na escola era que as coisas eram assim e nada poderia mudá-las. E eu odiava as coisas como eram. Odiava o ridículo da tijuca. Odiava o shopping, o maldito shopping onde no fim de semana via todas as mesmas pessoas da escola mas ia mesmo assim. Minha válvula de escape era não ser só eu. Eu era o Lou, era Peter Doherty, Ringo Starr, Tom Chaplin. Eu não vivia só no Rio e ia pra escola. Eu estava em todos os lugares, em todos os tempos, desde que fechasse os olhos e ouvisse. Desde que tocasse, com minhas próprias mãos e calos, as músicas que me libertavam no meu violão. Desde que soubesse tudo sobre eles. Desde que sonhasse como uma realidade que não fosse a minha, tão genérica, tão... tijucana. Desde que escrevesse muito, escrevesse contos pra resolver através de outras histórias a minha própria. Desde que eu mesma fosse outros, fosse Holden Caulfield, Harry Potter, Joseph K, Elizabeth Bennett ou mesmo Mr. Darcy, o misto de orgulho/timidez exacerbada sempre me representou melhor, principalmente na adolescência. Hoje que sei mais pela experiência e consequentemente, sei que não sei absolutamente nada, sou bem menos orgulho, muito mais timidez.

Dispenso todas as zilhares de definições que por certo existem, não procurarei nenhuma agora. A arte, pra mim é a necessidade de escapar do que não presta, do que não serve. Se não serve, a gente inventa. Se inventa bem, se torna mais real e mais forte do que o que parece de fato existir e não prestar. Todos os meus autores favoritos fizeram isso. Superaram suas próprias realidades através dos seus personagens que espelhavam o real de forma mais viva que a vida em si. De Tennessee Williams a Rilke. De Rimbaud a J.K. Rowling (a quem sou muito grata por, tão cedo na minha vida, me apresentar um universo inteirinho pra onde escapar).

E se a arte é refúgio para despatriados na vida e não sua versão desfigurada que serve mais como pódio de vaidade do que como procura, não vejo artista mais necessário, mais primordial que o professor.

Um dos meus textos favoritos de Edgar Allan Poe é justamente um ensaio sobre a composição de “The Raven”. Ele desmistifica a obra do poeta usando justamente o ofício de professor. Explica porque um corvo, conta que pensou em um papagaio primeiro, diz porque tal número de versos e estrofes, de onde vem o pesar. Tudo. Acredito que todo escritor tenha um professor dentro de si, às vezes reprimido, às vezes grandioso e verdadeiro. Creio que um bom escritor - um escritor genuíno e não o midiático - o escritor que vem da inquietude tem sempre um professor que o complementa. Não o professor que fala das gerações do modernismo no Brasil, mas o professor que toca seus alunos pelo exemplo, usando outro argumento seu.

Pra me encontrar, não inteira, porque isso não existe, mas pra encontrar um pedacinho de mim, alguns grãos de areia da explicação da minha inquietude diante da vida, do que eu posso ansiar, eu precisei me perder muitas vezes, sofrer de verdade e me sentir sozinha de verdade. Literalmente tentativa e erro.

Eu não tive um professor herói, embora goste de muitos dos meus professores oprimidos pelo sistema que eles têm que carregar nas costas. Mas eu não tive exemplo. Todos os meus exemplos do que eu queria ser estavam mortos há muitos séculos ou viviam em outros países, eu nunca poderia sonhar em trocar com eles. Quer dizer, sonhar eu sonhava. Dormindo e acordada. Mas não esperava. Tive sempre minha mãe também, que foi sempre mais minha amiga que eu mesma, nunca tentou cortar minhas asas mas me impediu de eu mesma cortá-las várias vezes. Tenho que reconhecer que nesse quesito tive muita, muita sorte, mas e o professor?

Não posso falar pelos outros, só por mim, mas quantos outros colegas meus não tinham também suas inquietudes e conflitos que jamais poderiam ser enfrentados na escola porque nossa relação com ela é de comércio? Num extremo absurdo do que é a realidade numa escola-loja, nosso colégio, como muitos, parou com o uso dos livros didáticos do Cereja e etcéteras para usar as apostilas da Rede no Ensino Médio. Ocorre que o valor das apostilas era acrescido em cada mensalidade e somente as recebíamos quando mudava o bimestre. Bimestre! É uma jogada de marketing genial. A cada dois meses, tínhamos que trocar o volume. Todos os professores trabalhavam com ela. A assistente da diretora nos chamava em sala, nome por nome e nos levava até a secretaria para retirar o volume. Ela chamava somente os nomes que estivessem em dia com a mensalidade. Se os responsáveis de algum aluno atrasassem o pagamento, toda a turma saberia. E é claro que isso aconteceu. Com mais de um aluno. Mais de uma vez. Esse jogo de humilhação chegou um dia a um extremo que eu jamais esqueci. Foi contra um amigo e eu sabia perfeitamente bem a razão da mãe dele não poder manter em dia o pagamento naquela época. Foi uma das violências psicológicas mais bizarras que eu já vi um professor cometer.

Era a professora de redação. Ela estava reclamando que muita gente não levava a apostila. Resolveu ir carteira por carteira pra mandar advertência pra quem não tinha levado. Ao fim de três advertências o aluno era suspenso. Ele não tinha levado a apostila e explicou que não tinha levado pelo simples motivo de não ter apostila e o colégio não permitir uso de Xerox. Ela perguntou por que ele não tinha apostila. Ele respondeu que as mensalidades estavam atrasadas. Ela olhou pra ele, voltou pra frente da classe, subiu no tablado, anotou alguma coisa e enfim, disse: “Se você não tem condições, não deveria estudar aqui. Fala pra sua mãe te botar num colégio público, se ela não está podendo.” E numa instituição que tem tanto nojo de colégios públicos, isso realmente era pra machucar.

Eu estudava ali há três anos. Ele estudou ali a vida toda, assim como seus dois irmãos mais velhos, já formados. Isso não tinha qualquer valor pro colégio. Só o que tinha e tem valor é dinheiro. Nós dois saímos de lá no ano seguinte, sem combinar. Ele saiu porque não pôde renovar a matrícula porque “constavam débitos em aberto”. Eu saí por desgosto. Fomos para o mesmo colégio e por ironia do destino, a mesma turma. Eu não queria ser amestrada pra passar no vestibular, eu queria viver como uma pessoa normal e toda aquela conversa de ENEM me dava uma náusea que se equivalia ao desgosto supramencionado.

Desgosto por isso, desgosto pela instituição, desgosto porque a diretora não gostava dele por causa das notas, porque ela gostava de mim por causa das notas e das redações que a Folha Dirigida publicava naqueles livrinhos. Desgosto porque se eu tirasse menos notas altas, seria a mesma pessoa mas o tratamento seria outro. Desgosto porque fui convidada ao final do ano a integrar algo chamado “classe A” no terceiro ano, onde confinavam os alunos com as maiores médias da Rede. Isso parece normal pra eles. “Classe A”. Com esse nome patético. Fiz questão, implorei pra minha mãe me colocar num colégio que não fosse nem de freiras (trauma do ensino fundamental) nem de obsessão por vestibular (trauma de fim de ginásio e dois anos do ensino médio). E decidi ali que não queria ir pra faculdade jamais.

Porque esse foi o exemplo que eu conheci. Advertências ridículas, padrões idiotas, expectativas cretinas. E imaginava que a vida numa universidade seria apenas uma extensão disso tudo.

Eu valorizo a minha busca e tentativas (e erros) porque acho, aliás, sei que hoje me conheço melhor e tenho mais condições de me encontrar e entender o que realmente eu desejo. Mas penso que se a escola fosse mais como aquela frase feita “a escola é a sua segunda casa” o processo talvez tivesse sido menos murro em ponta de faca e mais tatear no escuro até perceber, com calma, o que servia e o que não.

Olhando pra trás, eu vejo que sempre esteve claro, de uma forma ou de outra, que gostaria de ser professora. Mas somos programados para entender que não se deve querer ser professor.  Que professor sofre, ganha mal, e aquele ditado cretino que você mencionou “Quem sabe faz, quem não sabe ensina”.

De escrever, eu sempre gostei. Diários, contos, cartas (muitas jamais enviadas), enfim. Eu sou introvertida, mas sempre gostei de situações de apresentação de trabalho diante da turma. Eu gostava de explicar, gostava de responder perguntas (mesmo não havendo muitas, em geral quem assiste o colega apresentando trabalho acha isso um saco), gostava de compartilhar o meu entendimento de alguma coisa e ver como isso atingia o outro, se o jeito que eu tentava passar aquele tópico era interessante.

Mesmo na CAL, que eu idealizava muito e depois tomei um banho de realidade e me decepcionei muito com o aspecto ultra capitalista que move uma “casa das artes” e desfigura o que seria uma casa de teatro com alunos que não gostam de ler peças e professores que já nem mais esperam que eles gostem. Mas estou fugindo ao ponto. Eu achava que gostaria de ser atriz porque absorvia com muita intensidade os personagens das histórias que lia. Me apegava e tornava eles um pouco reais na minha vida. Muitas das pessoas que mais me inspiraram e inspiram jamais existiram fora das páginas de seus romances e da tela do cinema. Na realidade o trabalho do ator é outro. Aliás, já ouvi tantas explicações mega-definitivas sobre o que é o trabalho do ator que nem sei mais. Só o que eu sabia era que meus momentos mais felizes ali eram dois: ler e reler as peças que eu amava e conhecer outras. Meu primeiro professor de interpretação sempre tentava remar contra a corrente e pedia que a cada autor que ele abordava, antes de apresentarmos as cenas pedidas, alguns alunos fizessem pesquisas sobre o dramaturgo em questão e o seu tempo e apresentasse diante da turma. Eu adorava esses momentos e ansiava por eles. A professora estava ali, eu só não sabia ainda.

Eu saí de lá pra procurar outra coisa porque sentia que tinha sempre uma parede de vidro intransponível que me impedia de viver plenamente, de alcançar alguma coisa sobre mim que eu quase lembrava o que era, mas não conseguia realmente identificar.

Essa identificação só veio nas suas aulas. Nos seus livros. Nas formas de observar e abordar o que chamamos de realidade e de ficção com olhares diversos. Discordo que não há epifania na leitura de ensaios ou em salas de aula. Se só há epifania na ficção, o discurso e exemplo do personagem Gustavo Bernardo naqueles ensaios-conversas me fazem ver uma parcela da minha própria realidade que estava trancada a sete chaves. Se isso não é epifania, não sei o que é. Ainda estou nesse turbilhão de pensamentos, emoções e idéias advindos do recém-descoberto. Queria que não passasse nunca. Felizmente, ainda tenho muitos livros seus, muitos livros que você indica e outros que estes outros indicam também e minha busca segue, agora com mais uma parte do quebra cabeça completa.

Lendo esses três livros, tive o enorme prazer de ver argumentos interessantíssimos defendendo ideias com as quais concordo, descobri outras ideias que não tinha vislumbrado até então, mas agora as abraço também. Seja como for, é um discurso que faz pensar, rever, voltar, progredir. Trocaria todas as minhas apostilas e livros didáticos por essa tríade. 

Conversas com um professor de literatura tem o título mais honesto da história! Também agradeço por compartilhar, logo no início, a história da sua primeira aula. Pra quem esteve na sua última dá uma sensação de todo, de ciclo, de ser parte de algo muito maior. Aliás, finalmente me sinto parte de alguma coisa. Sempre fui a outsider e de alguma forma consigo me conectar a uma determinada forma de existir, de enxergar a vida: a eterna busca. A certeza única que nada é certo e que eu não preciso ser uma só, posso e devo ser muitas, como o rio onde não se pode banhar duas vezes.

Mais algumas considerações sobre trechos específicos.

Considero muito doente essa idéia de que não se pode falar em primeira pessoa em textos argumentativos. Já me chamaram a atenção por isso esse semestre e eu perguntei: mas por que não pode? Porque não se deve usar esse tipo de discurso em textos acadêmicos. É muita pretensão falar no plural, assumindo que o que você propõe é tão maravilhoso, que antes mesmo o leitor já faz parte desse “nós”, já concorda só de ler o título. Eu não quero escrever assim, porque acho meio desonesto. E como evitar? Eu sinceramente ainda não sei. Determinados professores não vão aceitar e ponto. Não há diálogo. Nesses pontos vejo de novo o padrão da escola e dá um certo desânimo, mas enquanto eu puder vou lutar pelo que eu acredito certo. Meu texto, minha voz, minha defesa, assumo que existo, afinal de contas não sou ficção realista pra negar minha natureza... luto pra conquistar um mínimo de honestidade intelectual (novamente te citando).

Também creio que talvez não para todos, devido às particularidades de personalidade e gosto, mas para alguns a escola pode sim se tornar um lugar natural de prazer, como a faculdade está se tornando, a cada dia mais, pra mim.

Não que precise de liberdade absoluta, mas de outra forma. Se o diálogo se estabelece e não a hierarquia opressora, se há livros, se há troca, pode sim, ser mais prazerosa que uma ida à praia Eu, por sinal, não gosto de praia, mas entendo, é claro, que aqui também cabe qualquer prazer pessoal, seja praia, trilha, cinema ou teatro. Creio que a escola pode ter sim um apelo tão forte quanto. Bastaria não trabalhar como um misto de supermercado e regime totalitário que sufoca tanto professores quanto alunos. Já mencionei a professora que humilhou meu amigo. Pois já vi várias tentativas de se fazer o oposto, sempre com o argumento financeiro, comercial. Uma menina, daquelas metidas a rainha, disse uma vez que o professor, que acabara de repreendê-la por conversar durante uma explicação, não poderia fazê-lo porque ela pagava o salário dele. A educação como comércio gera essas aberrações. Claro que ela foi mandada para a sala da diretora, etcétera, etcétera, blábláblá, advertência. Mas o pensamento doente persiste. A ideia de que o professor era empregado, servo, quase escravo dela e deveria tolerar todos os seus caprichos.

Os conceitos de leitura ingênua, crítica e teoria também foram muito interessantes pra mim, e de fato, percebo que a primeira é as vezes subestimada no meio acadêmico. Sem uma real entrega, sem a experiência de sair de si para se refazer depois a ficção perde muito de sua razão de ser. E a citação do Oscar Wilde, perfeita: “It is the spectator, and not life, that art really mirrors.”

Tantos outros trechos foram importantes pra mim, mas vou encerrar por aqui, já tendo me estendido tanto e falando tanto em termos pessoais. Espero não o entendiar! É que esses livros falaram não só comigo hoje, mas com a Marcela do passado, do colégio, que queria ter lido esse livro lá.

Só gostaria de adicionar que lutarei sempre contra moinhos de vento e que minhas fichas estão todinhas na vizinhança do impossível. Já disse no outro email o quanto você e o Bruno me fizeram ver que o impossível é só outro nome pro sonho, se eu acredito e luto, posso muito bem fazê-lo real.

"Quem nunca encontrou esse tipo de professor sente a falta dele por toda a vida, e quem encontrou sonha em reencontrá-lo de algum modo – por exemplo, tornando-se ele mesmo um mestre, ou seja, o professor que fará a diferença na vida, se não de todos, ao menos de alguns alunos – e já terá valido a pena."

Eu encontrei!


e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com