A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Conversas

O PROFESSOR-URSO

 Odete Firmino

 

No dia e hora marcados, era preciso se dirigir ao local de aula. Nessa época todos íamos com as próprias pernas, mas não com as próprias cabeças. Logo, ao chegar, imaginem meu espanto: meu professor era um urso!

Eu o olhava com desconfiança: seria ele mesmo um diferente? Parecia ser do meu tamanho, mas tinha uma peculiaridade. Quando falava ele crescia. Sim, ele ia crescendo até não caber mais dentro de si. E ficava tão grande que ao final de cada aula abraçava a todos os seus alunos com seus dois braços enormes.

Por causa das aulas do professor-urso começou a faltar espaço. Espremíamo-nos a sua volta para ouvir suas mãos e olhar seus lábios. Eu nunca soube dizer se faltava espaço porque ele crescia ou se era porque a gente crescia junto.

Na verdade, eu nunca entendi completamente porque ele despertava o melhor de nós. “Deve ser porque ele é urso como a gente”, diziam alguns, “porque sente a gente”. Com ele nos sentíamos grandes, enormes, assustadores. E assim, começamos a trazer nossas cabeças junto com as pernas. Éramos tão fortes que podíamos até sermos Deuses e criar um professor-urso!

Um dia ele nos disse que ia virar ficção. Eu o vi por dentro e perguntei: – como vir a ser o que já é? Ele me olhou e sorriu. Nesse dia, descobri que ele crescia porque aprendia com a gente também. Soube, então, que nada haveria de mudar entre nós.


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