A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Conversas

CONVERSAS COM UM PROFESSOR DE LITERATURA
Nicole Ayres Luz

 

 
Ler ficção é uma delícia. E, para os verdadeiros amantes da literatura, ler sobre ficção pode ser igualmente delicioso, além de produtivo. Ainda mais quando se trata de textos leves e agradáveis, como em Conversas com um professor de literatura, de Gustavo Bernardo. O título já adianta o teor do conteúdo: são textos curtos, quase informais, sem termos técnicos e vocabulário rebuscado, sobre temas relacionados à literatura enquanto arte e objeto de estudo.

Gustavo Bernardo, diga-se de passagem, contém literatura pulsando nas veias. Ele é professor-pesquisador do setor de teoria da literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, já lecionou português, redação e literatura brasileira nas redes pública e privada de ensino e, para completar, é também escritor e ensaísta. Portanto, alguém que compreende o tema na teoria e na prática, e resolveu compartilhar suas experiências e opiniões neste singelo livro.

Ele divide os capítulos em quatro seções: educação, redação, literatura e filosofia. Na primeira parte, discute sobre assuntos como as cotas, a cola e o ensino objetivista. Apesar de ser contra o sistema de cotas, por defender a igualdade de condições, o professor é, de certa forma, também a favor de sua existência, por acreditar que as cotas levantam uma discussão interessante sobre a qualidade do ensino, e rebate argumentos falaciosos de que alunos cotistas diminuem o nível de notas da instituição.

Quanto ao sistema de ensino em geral, Gustavo aponta que a fragmentação das disciplinas sobrecarrega o aluno, que não consegue absorver tantas informações ao mesmo tempo e acaba se sentindo inseguro, recorrendo, por exemplo, à cola. Se, por um lado, a escola reprime a cola, por outro, ela estimula essa prática, pela compartimentação de conhecimentos. Contradizendo o ditado infame “Quem cola não sai da escola”, o autor rebate, afirmando que “[...] quem cola é que não sai mesmo da escola – porque fica preso numa postura infantil e subalterna, sempre dependente do conhecimento alheio”.

E a literatura? Onde entra nisso tudo? Aí vem uma questão interessante, proposta pelo escritor. Por que as aulas de literatura não ensinam a produzir literatura, como as aulas de música ensinam a tocar um instrumento ou as de arte a desenhar, etc.? Em vez de ser reconhecida como arte, a literatura tornou-se mais uma disciplina conteudista, em que se aprendem os estilos de época e os principais autores e obras, sem incitar o pensamento crítico e a produção criativa. Basta notar como ela é mal cobrada no vestibular, de maneira geral, quando chega a ser lembrada, em detrimento das regras gramaticais e dos conteúdos linguísticos.

Na segunda parte, relativa à redação, o professor enfatiza a importância do erro, como caminho para o acerto, e questiona a supervalorização da tal opinião pessoal. Para posicionar-se criticamente em relação a determinado assunto, é preciso saber argumentar, defendendo o ponto de vista de forma inteligente e convincente, não apenas cair em clichês, acreditando que aquela é a sua opinião própria e devem aceitá-la. Aliás, o clichê pode ser reinventado ou usado ironicamente, dependendo do contexto, deixando, de certa forma, de ser um clichê, em seu sentido negativo. Mesmo a tão condenada utilização do “eu” em textos dissertativos é relativa, se o pronome for bem usado, fugindo das banalizações. Podemos mesmo refletir sobre o porquê da exigência de redações em estilo dissertativo nos vestibulares e provas de concursos, estimulando a padronização e não a criatividade.

Na terceira parte, entramos no mérito da literatura em si. Gustavo já começa discutindo a obrigatoriedade da leitura nas escolas. Ele defende que sim, a leitura deve ser obrigatória, pois é dever das instituições de ensino estimularem o hábito saudável de ler e indicar referências importantes. Porém, isso não significa que a literatura deva ser trabalhada de maneira mecânica, excluindo o prazer da obrigação.

O professor, por sua vez, deve provocar e incitar o aluno a reflexões sobre as obras, sendo ele mesmo um grande leitor, visto que se aprende efetivamente pelo exemplo. O autor é absolutamente contra a leitura de resumos ou de versões adaptadas, por meio das quais muito se perde. Ele chega a chamar as adaptações de mediocrizações, numa postura um tanto radical. O principal problema é o aluno ter a impressão de que já leu a obra, quando na verdade leu apenas a adaptação, que, de fato, jamais substitui o original em sua essência. No entanto, acredito que existem adaptações bastante criativas, que podem ser um caminho para a compreensão e leitura dos clássicos para jovens leitores inexperientes, por exemplo.

Gustavo Bernardo aborda, ainda nesta seção, maneiras de ler e interpretar bem um texto literário, simplificando teorias e discutindo algumas questões. Novamente com uma postura tradicional, o professor critica o Big Brother Brasil como grande vilão da contemporaneidade, antieducativo e amoral. De fato, a inutilidade do reality show se mostra cada vez mais evidente, a cada edição. Mas tenho as minhas dúvidas se o programa poderia estar “roubando” possíveis leitores. Conheço pessoas que assistem ao BBB e são bons leitores. Uma coisa não necessariamente anula a outra, quando a distinção é feita de forma adequada.

Ainda no ramo das polêmicas, o autor comenta sobre o escritor Paulo Coelho. Ele admite que não se interessa por sua literatura nem a considera de muita qualidade. Entretanto, reconhece Paulo Coelho como um homem inteligente, que soube vender seu peixe, criar seu marketing, e não é contra quem lê seus livros, contanto que o faça de modo crítico ou como ponte para leituras mais profundas. Nos capítulos finais dessa parte, Gustavo assume um espírito quixotesco ao defender o personagem Dom Quixote como um louco corajoso e obstinado, apoiando que devemos, na medida do possível, sonhar sonhos impossíveis e lutar contra moinhos de vento, com a literatura como escudo.

A última seção é dedicada à filosofia, que pode servir de suporte para os estudos literários, e são discutidas as relações entre conceitos como ficção e religião. Lembrando que cético, em sua origem, não é exatamente aquele que não acredita em nada, mas sim aquele que duvida de tudo, o professor defende que os textos religiosos são um tipo de literatura e que a literatura não deixa de ser um tipo de religião. A necessidade de um suporte metafísico pode ser sublimada pela arte, para além da crença religiosa.


In Homoliteratus.com, 20/02/2014

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