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QUARTO PROBLEMA DE REDAÇÃO

por Gustavo Bernardo

 

Na eleição para a direção de certa unidade de certa universidade, certa pessoa que vota na chapa A escreve que “o momento pede coração, não egos imensos”, e que “é preciso muito cuidado com as palavras bonitas”.

Depreende-se que o candidato da chapa B tem um ego imenso no lugar do coração. Deduz-se também que ele fala palavras bonitas, o que não é bom. Por que não é bom? Talvez porque a tal pessoa entenda “bonito” como sinônimo de “falso”.

No século retrasado, Nietzsche reconheceu nesse argumento a falácia do ressentimento. O ressentido vê o outro sempre como mau, porque só assim consegue se ver como bom. Para realizar essa proeza, o ressentido transforma as qualidades do outro em defeitos.

Falar palavras bonitas é bom, porque implica acreditar na beleza e nas pessoas. O ressentido, entretanto, só vê falsidade nisso, porque ele não acredita nem na beleza nem nas pessoas.

“Ego imenso” é a metáfora de A para o currículo de B, que traz 11 ensaios e 10 romances publicados. Como o ressentido morre de inveja desse currículo, transforma-o em algo mau. No lugar do currículo, isto é, do ego, defende o “coração”.

Se fôssemos ressentidos, diríamos que “coração” é o clichê preferido daqueles que só conseguem pensar por clichês. Como não somos, entendemos que “coração” também significa “afeto”, o que é bom. Logo, concordamos que o momento pede coração, sim, mas ao lado do ego orgulhoso de si mesmo e da boa palavra, ou seja, da palavra bonita.