A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


desenho mudo
    

Trecho:

Em casa, o pai que chegava e logo se detinha a olhar a janela do apartamento (somente Nina sabia que ele olhava a janela, e não pela janela).

Do lado de fora, o crepúsculo. A luz de mercúrio da rua. A pressa com que os poucos pardais se recolhiam e alguns morcegos trocavam de árvore ou fresta de telhado. A mãe que não saía e carregava para cima e para baixo uma toalha de mão, torcendo-a entre as mãos.

O irmão alto e forte e agressivo, que pela menor contrariedade gritava com os pais, com os móveis, chutando estes para não bater naqueles. Só não gritava com a irmã – como se ela fosse surda, e portanto não adiantaria e ele se sentiria bobo. Procurava sequer olhar a irmã – como se ela não existisse.

O pai trabalhava o dia inteiro numa empresa de transportes do outro lado da cidade. A mãe era professora mas lecionara muito pouco tempo – até nascer o irmão da menina. Ele cresceu, sete anos se passaram, ela prestou um concurso público, passou nas últimas colocações (mas passou), ia dar aula em uma escola noturna perto do trabalho do marido, mas engravidou de Nina e não assumiu a vaga.

O problema da filha – era mesmo um problema? – prendeu-a mais fortemente à casa e aos médicos e às filas nos laboratórios e nos hospitais públicos. Ganhavam pouco mas sobreviviam sem grandes queixas, fora a cruz que supunham carregar. O garoto sim, se queixava, porque não tinha o jogo ou o tênis ou a camisa ou o relógio ou a guitarra ou a motoneta que achava que precisava ter. Mas com as queixas dele se acostumaram, compensando-as através do silêncio da irmã – “pelo menos essa não fala”. Moravam em apartamento próprio, ainda que precisassem pagar prestações a perder de vista – ou até o resto da vida.

O apartamento ficava em um conjunto habitacional de dezesseis blocos, à beira da grande avenida por onde se entrava na cidade. Tinham as facilidades do transporte público, portanto, embora esse transporte não fosse fácil. Moravam no quarto e último andar do prédio do meio que, como os demais, não tinha elevador. Toda a área comum, entre os prédios, era meio cimentada e meio baldia. Havia poucas árvores, mirradas, fracas, nas calçadas: amendoeiras sem frutos (um vizinho dizia que eram árvores machas).

No último censo, responderam negra no quesito “cor” de cada membro da família. Na verdade, o pai era mulato mais claro e a mãe mulata bem mais escura, os olhos de ambos quase castanhos. O menino puxara à mãe, pele mais escura ainda do que a dela, enquanto a menina puxara ao pai, pele mais clara, um pouco, do que a dele. Os olhos, os mesmos – e, talvez, o medo da janela.

Aquela janela, na sala, permanecia fechada. Viam-se as janelas próximas do bloco vizinho, mas através do vidro sempre limpo.

Nina não falava, não estudava, não lia. Há muito tinham desistido de escola. Ela olhava e desenhava, desenhava e olhava. Sempre entendia o que lhe falavam, mas não respondia, retrucava ou conversava (a não ser com os olhos – isso, se olhassem para os seus olhos, o que muito pouco faziam). Se pediam que arrumasse o seu quarto, passava a arrumar o seu quarto sozinha. Na mesa, se ordenavam que se servisse sozinha, passava a se servir sozinha.

Presentes de aniversário ou Natal, sequer desembrulhava. Houve, nesse caso, uma única exceção. Certo natal seu pai, que nunca trazia nada, lhe trouxe um presente. Aquele ela abriu, e era apenas um vidrinho de tinta nanquim e uma comprida pena. Nina então sentou-se à mesa da sala, segurando na mão direita a pena, na mão esquerdo o vidrinho de tinta; olhava para uma folha de papel em branco. Ficou olhando para aquela folha de papel em branco por muitas horas; apenas no ano seguinte experimentou, ao lado do lápis, traços (fragmentos mínimos) de nanquim.

Naquele momento, o pai sentiu uma das maiores alegrias da sua vida – mas, como de praxe, ficou (ele também) em silêncio.

Nina comia bem, nem muito nem pouco. Como não a entendiam, como parecia não sofrer de dor física, como não falava e nada solicitava, aos poucos largavam-na no seu canto, deixando-a como um animal quase sem estima – peixinho escuro em aquário redondo – que se alimentasse de sopa de legumes, papel e lápis (depois, nanquim e pena), sobrevivendo muito além do que se esperaria.

Por isso, não percebiam que ela se tornava uma menina, e depois uma moça: bonita (é quase indecente admitir que, considerando a sua condição, senão deficiente, diferente, eu a achasse bonita, mas que posso fazer: ela me perturbava quando me olhava, e eu chamo essa perturbação de beleza).

Longos parênteses. Os seus olhos castanhos que mudavam de tonalidade conforme quisesse dizer sim ou não eram tão fortes que baixavam os olhos das outras pessoas – elas então viam as pernas grossas, o quadril largo (poderíamos dizer, desenhado), no vestido sempre branco ou preto, ou preto e branco, e sempre limpo. Os seios eram quase grandes, empurrando o vestido e os olhos da gente novamente para cima: sua boca fina, quase um traço, no rosto pardo, o nariz arrebitado e: aqueles olhos, é preciso desviar deles e olhar novamente a janela.

Ou desenhá-la. Quando nenhum psicólogo mais estudava os fragmentos, Nina aos poucos sofisticava o seu desenho. De um traço no papel evoluía para algumas formas, como, por exemplo: uma linha inclinada na parte superior direita do papel, uma longa e irregular reta tomando toda a parte de baixo e duas curvas esboçadas no meio da folha, começando mais grossas e terminando mais finas. Os traços continuavam, no entanto, a não se conectar, assim como o branco permanecia dominando seus trabalhos.

Enquanto isso, escutava o rádio, ligado na cozinha. Para a mãe e para o irmão, o som do rádio era uma espécie de barulho necessário para não ouvirem o silêncio dela, mas não prestavam a menor atenção nas notícias, de resto uma parecida com a outra, intercambiando personagens e ambientes, mortos, feridos e culpados. Nina, no entanto, embora parecesse surda, escutava. Escutava muito bem.

Por exemplo:

Justiça inglesa proíbe preso de morrer de fome. Um famoso assassino de crianças e adolescentes, preso há trinta e cinco anos, começou uma greve de fome sem qualquer reivindicação, apenas com o objetivo de se suicidar pela fome. Tribunal de Liverpool, na Grã-Bretanha, todavia, deliberou que ele fosse alimentado à força, para não morrer.

Essa notícia, tão distante, também me impressionara. Creio que esse assassino já foi personagem de um filme ou de um seriado de televisão. Lembro-me vagamente da história. As pessoas na casa escutavam a notícia e, se prestavam alguma atenção a ela, diziam: “que coisa”. Se não prestavam, também diziam: “que coisa”. Nina, porém, parava o lápis no ar e se agitava (por dentro: leve taquicardia, suor na palma da mão). Logo desenhava com mais força uma forma mais escura.

Vejamos outro exemplo.

Bebê é atropelado na Perimetral. Depois de ser abandonado na rua enrolado num lençol, um bebê recém-nascido, do sexo feminino, foi atropelado e morreu, agora há pouco, na Avenida Perimetral. O motorista, ainda não identificado, não deve ter visto a criança ou então a confundiu com o monte de pano. De qualquer maneira, testemunhas afirmam que, ao perceber a gritaria dos outros pedestres, ele teria fugido a toda velocidade. A Polícia Militar está procurando o motorista e a mãe do bebê, que supostamente o abandonou na rua.

 Que coisa. Nina, a pena parada no ar. Eu ainda não a conhecia nesta época, mas a imagino, no momento em que escutara a notícia do bebê abandonado no asfalto da avenida, com a pena parada no ar.

Eu mesmo não podia ficar parado, se me coube investigar a ocorrência.


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