A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


desenho mudo
    

UMA HISTÓRIA FEITA DE SILÊNCIOS

Flávio Carneiro

 

Há livros que falam demais. Roland Barthes comentava, a esse propósito, escrevendo que ''a tagarelice do texto é essa espuma de linguagem que se forma sob o efeito de uma simples necessidade de escritura''. Escrever, portanto, é às vezes um gesto que não vai além do impulso, da vontade, ou necessidade, de contar uma história, e o incauto que se ativer apenas a tal impulso está fadado à tagarelice.

Em Desenho mudo, Gustavo Bernardo nos mostra que escrever é, também, a arte de trabalhar com o silêncio. E não só pelo fato de a história girar em torno de uma menina que não fala, pois é muda de nascença, e de um policial militar que cala dentro de si mesmo tudo o que realmente merecia ser dito. Para além do enredo, a novela se desdobra silenciosa porque vai dizendo sem dizer, criando com palavras todo um mundo de não-palavras, espaço vazio aberto à imaginação do leitor.

A história une dois personagens incomuns. Nina tem cordas vocais em perfeito estado, escuta normalmente, seus eletroencefalogramas e testes psicotécnicos e de estímulo mostraram que é uma pessoa normal, e, no entanto, simplesmente não fala, nunca falou.

Também não é de muitos gestos, pelos menos não os previsíveis; para dizer ''sim'' seus olhos castanhos ficam mais claros, para dizer ''não'' se tornam quase negros - nuance só percebida pela mãe. Afora isso, desenha.

Na outra ponta do enredo está o narrador, um policial que faz as vezes de detetive tentando encontrar os fios soltos de uma trama labiríntica. Ao contrário do que normalmente se espera de quem exerce tal função, o policial é um homem delicado, emotivo, sonhador, com arroubos de personagem romântico que o levam a imaginar-se um cavaleiro medieval, além de chorar de vez em quando (nem sempre escondido).

Como se não bastasse, gosta de ler. Leitor eclético, diga-se de passagem, cujo repertório inclui João Cabral, Simenon, Dalton Trevisan, Sócrates, Aristóteles e, pasmem, o próprio Gustavo Bernardo ou, pelo menos, um de seus livros, não por acaso uma outra novela pautada por não-ditos: Pedro Pedra. E é também poeta diletante, rabiscando seus haicais nas horas de folga.

Se o dia-a-dia de ambos é cercado por um barulho infernal, dentro de cada um deles, e também entre um e outro, ergue-se um mundo silencioso, cuja arquitetura se faz diariamente nos traços delicados do nanquim sobre a brancura do papel ou nos bonsais de palavras cultivados no reduzido espaço de uma quitinete.

As vidas dos dois se cruzam por acaso e vão se tornando cada vez mais uma única história, partilhada aos poucos mediante olhares, perguntas e, quem sabe, uma ou outra promessa.

Desenho mudo deve dar certo trabalho aos bibliotecários mais ortodoxos. Catalogado tecnicamente como novela infanto-juvenil, pode ser lido também como narrativa policial, história de suspense, história de amor (com pitadas de humor), além de manter o tempo todo certo parentesco com a estrutura dramática da tragédia grega - destino, culpa, profecias, revelações e máscaras são elementos que pontuam a narrativa. Ah, claro, ainda tem epígrafe de Nelson Rodrigues.

O cotidiano frenético da cidade grande cria o pano de fundo sobre o qual se desenham as histórias de Nina e do policial, cotidiano que aparece não apenas através de cenas vividas pelo narrador no seu trabalho diário, mas, sobretudo, pelo noticiário do rádio, ligado dia e noite na casa de Nina.

A narrativa é marcada a cada capítulo por um inusitado (e barulhento) refrão: recortes do Cidade alerta, com as notícias de assassinatos, sequestros, guerras de traficantes etc., acompanhadas de previsões meteorológicas, anúncios, programação da TV.

A programação dos filmes da TV, aliás, colocada lado a lado com as notícias, cria uma espécie de fala paralela, que cabe ao leitor decifrar. Os títulos dos filmes funcionam como mensagem codificada, apontando articulações sutis entre o fato noticiado, o fato narrado e uma possível interpretação de ambos, num jogo que chama ao trabalho o leitor-detetive, encarregado de dar uma arrumação naquele caos (apenas aparente) arquitetado pelo autor.

Toda a sofisticação de linguagem que se percebe na construção da escrita de Gustavo Bernardo não sobrecarrega em nada o texto. Pelo contrário. O exercício dá-lhe mais consistência, evitando que a bela fantasia prometida nas primeiras páginas desabe logo em seguida, deixando o leitor na mão.

Escritor experiente, o autor soube articular com habilidade consistência e leveza, como prescreve o mestre Calvino, fazendo de Desenho mudo uma novela em que cada palavra dá a impressão de vir amparada por um generoso silêncio. Parafraseando a letra da canção: esta história é só pra dizer, e diz.

  Jornal do Brasil, 20/04/2002


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