A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


desenho mudo
    

AS PALAVRAS E OS SILÊNCIOS

Maria Angélica Alves

 

"Desenho Mudo" me chegou como um presente, num envelope branco, impessoal e inesperado. Bela surpresa. Sua leitura me pegou em cheio, numa manhã outonal, quente e azul. Livro feito de silêncios, agora, quer-se fazer entretecer por outras palavras. Leio e, em seguida, ensaio a escrita de novos traços em preto-e-branco a se juntarem ao seu riscado.

Seu autor, Gustavo Bernardo, declara que, quando escreve, não distingue os leitores: “criança, adolescente, adulto, todo mundo é adulto, é responsável e é bobo, tudo ao mesmo tempo”. “Desenho Mudo” é um exemplo perfeito dessa teoria. Consigo vislumbrar o interesse e a curiosidade de adolescentes e jovens, em geral, por sua leitura. No entanto, me rendi, plenamente —- adulta, responsável e boba que sou — a seus encantos.

E não são poucos os seus encantos. A narrativa que se estrutura a partir dos elementos comuns aos enredos convencionais de uma história policial, afirma-se, justamente, no esforço de negação, por parte do narrador, da utilização desses mesmos elementos: “Não sou delegado nem detetive particular, como nos romances de ação, revólver e carro, assim como não creio que esta novela seja exatamente policial”.

Em pauta, a narrativa e o ato de escrever

Abre-se, portanto, no livro, a partir das reflexões do narrador, o espaço possível para a discussão sobre a configuração da narrativa, da escrita e do próprio ato de escrever: “Por que me iludo? Porque escrevo. Escrevo uma linha depois da outra, um verso depois do outro. Já que penso como escrevo, penso então que o que escrevo — Isto depois Daquilo — é a realidade. Mas a realidade é uma palavra, não percebe?”.

Estaria centrada na figura do narrador a tensão crucial da narrativa em “Desenho Mudo”? Como caracterizá-lo, situando, a partir daí, a influência de sua figura no desenrolar da trama? Um narrador ensimesmado? Amoroso, delicado, honesto, apaixonado? Um irremediável sedutor? Como não se enternecer, enfim, por esse narrador de múltiplas faces, por sua timidez declarada e sua necessidade de confessar a consciência irrestrita de que as palavras, por serem equívocas, afastam pessoas, ou de que até mesmo um poema cuidadosamente escrito com três versos precisos pode se tornar excessivo?

Ou, ainda, de que uma história, como se fosse um mero rascunho, poderia narrar e narrar-se como uma eterna procura, a escrita de uma persistente busca da palavra exata, uma história feita, sem pudor, por perguntas “dolorosamente sem resposta”?

À hora tardia de desfecho anunciado, quando já foram oferecidas todas as chances de explicação para os fatos e seus enigmas, o autor do poema, narrador dessa história, dirige-se à Nina, sua maior certeza — a feminina — e arrisca, timidamente, o pedido inevitável: “Você desenha o final?”. Na intriga, Nina surge como um capítulo à parte, sendo representada, simultaneamente, como enigma e decifração e revelando-se como permanente procura, ensaiada e confessada nas narrativas dos livros anteriores do autor, ao surgir como Maria ou Lúcia, e, mesmo, Nina, seu poema inacabado, desenho mudo, amor impossível, palavra exata, silêncio quase insuportável.

Vontade de pegar a pena, o nanquim, o papel de textura mais fina, semelhante à pele, película, um papel-rosto, para nele traçar, com dedos leves de mão pequena e forte, um carinho quase impossível, uma resposta definitiva para as perguntas que teimam em permanecer sem resposta.

Delírios de uma cidade sempre aberta

Vontade de traçar, delicadamente, os contornos da resposta de um possível final para essa história e, desse modo, manter permanente a procura, escrevendo algo como “Sim, já experimentei ligar e desligar de uma vez todos os aparelhos e máquinas espalhados pela cidade, e ainda vejo pardais sobrevoando os prédios no alvoroço das manhãs, a revolta do carcereiros, os rotineiros suicídios e assassinatos, a solidão desmesurada dos bebês abandonados, as mãos de suas mães retorcendo-se nos panos em frangalhos, os atropelamentos, as fugas, as freadas, as buzinas, os rádios, as máscaras, os absurdos da vida espelhados nos livros, os delírios da cidade sempre alerta”.

Vontade de dizer. Também de calar. Essa vontade de entretecer com palavras em preto-e-branco todas as histórias feitas de silêncios insuportáveis. Se, como sugere Nelson Rodrigues, na epígrafe constante do livro de Gustavo Bernardo, “são as palavras que separam”, é possível, de outro modo, acreditar que certas palavras ou certos livros tendem a aproximar as pessoas. Esse é o caso de “Desenho Mudo”. Um presente inesperado, numa manhã azul. Uma história silenciosa, escrita em preto-e-branco. Bela surpresa.
 

 O GLOBO, 18/05/2002


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