A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


desenho mudo
    

DESENHO MUDO

Marcela Santos Castelli

 

Eu ia enviar um email somente quando terminasse a leitura dos livros de ficção, mas após Desenho Mudo, somado à leitura anterior de Pálpebra, precisei escrever antes sob pena da minha empolgação acumulada comprometer e consumir minha capacidade de imersão em outras viagens literárias!

 
Silêncio faz um barulho insuportável.

 
O silêncio barulhento de Nina com seus rabiscos (e depois desenhos) monocromáticos, que deixaram também seu pai sem cor. Seus desenhos em série que viravam pequenos filmes de uma realidade paralela, onde sua mãe pode ser a mãe que abandona e a mãe que atropela sem querer é identificada. Tantas mães, tantas Marias e seus desencontros... o enigma de como ela sabe não atrai tanto quanto o enigma dela como ser inteiro. Nina é uma musa, pode muito bem ser mítica. Seu mistério permite que tenha um pouco de Tirésias e até – por que não? – de Medeia em sua arte.

Desde o início, vemos Nina pelos olhos de um eu sem nome. Um eu com patente, que poderia não servir como eu, mas serve. Com suas expectativas, com seus haikais, com sua escrita que mesmo quando é prosa, soa como poesia. O eu que ama Nina é aquele que mergulha na sua história.

Nina, um dia, foi menina, o que é antes um eco do que uma rima.

(Me) Nina.

Nina em seu mundo, que pouco mexia com o mundo dos outros até transformar inteiramente o mundo de um homem só e com ele de qualquer um que a (re)conheça.

Você é o tenente, eu sou o tenente. O tenente sem nome é a voz de qualquer um. O professor de piano de Veríssimo é a voz de qualquer um. Todo eu pode ser meu. Suas paixões são do leitor que mergulha e vive, por um breve período, mas vive. O eu literário é o eu de quem não pode ser apenas si próprio. Somos outros para suportarmos a nós mesmos melhor.

E sobre essa identificação...

Hoje mais cedo vi uma publicação na página oficial sobre Henry James no Facebook com uma citação de The Portrait of a Lady. Nos comentários, alguém dizia com muita emoção que ninguém soube ler e retratar a alma de uma mulher como James. Já ouvi isso sobre Chico Buarque e José de Alencar (!). Engraçado isso, “alma de mulher”. Não sei bem o que é, mas o que me surpreende mesmo é a procura por um retrato físico, fidedigno, de si próprio na arte, na ficção, no que, necessariamente, não quer refletir realidade palpável, corpórea, hormonal.

Desconheço uma alma feminina em mim mesma, seja lá o que isso for. Talvez tenha uma alma hermafrodita, pansexual, travestida a cada dia na necessidade de extrapolar minha pequena vida. Mas acho mesmo que alma nenhuma tem etiqueta. Porque não creio que pense ou viva ou sinta em sincronia com todas as outras pessoas do meu gênero e não creio isto possível para quem quer que seja. Quando leio, sou muitas coisas que não sou na vida e isso que me salva, isso que me leva a ler e a escrever. Quem quer fotocópia de si, abre o álbum – ou a pasta – de fotografias. Já amei, desejei, quis matar, matei mesmo, reconheci, humilhei, destrocei, dei colo e fui muita gente na ficção dos outros e até escrevi ecoando desejos e percepções do mundo dessas pessoas (personagens, enfim), não a minha própria. Talvez um pouco minha também no fim do processo. Eu me recuso a ser só eu e a esperar que apenas personagens femininas, com suas almas sei lá de que gênero me "representem". Representariam-me somente as de olhos castanhos ou as outras também servem? O espelho que eu quero é outro. É o que mostra o que eu não sei, o que subverte, transforma. A identificação com as pessoas do papel, o processo da epifania vem pela soma do conhecido, do indizível que há em mim com alguma necessária novidade, uma nova peça que cria um quadro inteiramente novo. E esse quadro torna toda a dureza do que já se passou um pouco mais leve, página virada, página que vira bolinha de papel na lixeira, talvez.

Quem lê Gustavo Bernardo encontra ecos da sua fala na do policial mesmo quando as referências não são claras. Eu já pensava em Pedro Pedra antes mesmo da referência explícita, a qual, é claro, me fez sorrir.

O tenente/detetive/poeta/estudante usa um verbo para falar de seus poemas que já o vi também usar para falar dos seus em Pálpebra: diz que os cometeu. Pois que cometa muitos outros e não só cometa: publique, por favor! Necessários versos em sua primeira edição e mais ainda disfarçados nas gavetas do tenente: me tocam os poemas dos dois, que são poemas do mesmo e em alguns casos os mesmos poemas!

Ele diz:

Poesia, por pior que seja, como a minha, também cria silêncio.

 

Para uma Adriana monocromática, a Sonata é de uma nota só. Pequenos poemas, haikais concisos que trazem em suas poucas palavras o infinito do não dito. Poemas desconsiderados no romance por seu próprio pai-autor, (quem leria os poemas de um tenente?) o qual nem por isso pode deixar de criá-los em profusão. Onde está, pensa no que vai escrever. Escreve porque precisa, porque só assim existe mais um pouco.

Foi um acaso maravilhoso que não pude deixar de perceber e sentir, ter lido os poemas do Pálpebra e, em seguida, Desenho Mudo. O romance reapresenta alguns deles, pelas mãos de outra criação do mesmo autor e por ele justificados, como este, desenterrado pelo impacto do segundo desenho da (Me)Nina. Seus versos casando com os esboços e desenhos sem cor.

 
o grito silva
queria-o espalhado
nas artérias da cultura

 
Quando finalmente se apresenta, não só como narrador, mas como sujeito, o tenente, antes de dizer o que é, deixa claro o que não é: como os detetives de romances policiais e contos de mistério. Ele não se faz fantástico, e anuncia: Minha vida não daria um romance. Diz que mesmo quando resolve, algo resta não resolvido e faz referência a Sócrates, com suas eternas e contínuas perguntas, as perguntas que fazem a vida, não as respostas. Diz que – bom cético que é, como seu autor – suspende seu juízo e opinião pelo máximo de tempo possível para que sua percepção se forme pela procura, não por posicionamentos pré-concebidos.

 
Pedro, por que é que você deixa ele me abraçar assim?


Nessa encarnação – ou encadernação – Pedro e sua Maria (dessa vez não de Cristo ou da Glória, mas José) mudam de classe e encarnam juntos a tragédia. Ela morre, ele mata. Ela sob a cruz, ele atrás das grades. Ele é o não, ela agora é silêncio. E quem será que a abraçava assim? Paulo talvez, num outro sonho, em outras páginas...

Pedro, em sua fúria de negação, nem teve a chance de pedir, como seu reflexo tímido-imperador-em-seu-próprio-mundo, que ela coçasse suas costas uma última vez. Em frente ao Pedro da faca, o tenente vira o Pedro (Pedra) e o silêncio domina, o silêncio da ausência da Maria, dos desenhos de Nina... o silêncio ensurdecedor que o obriga a declarar sua questão: Eu preciso entender.

Pedro-Faca nem pergunta porque, sabendo pouco mais ou pouco menos a resposta da sua não-pergunta e explica sem explicar o que jamais poderia tornar racional: a fúria, a desmedida. O medo e o impulso, a faca, a paixão e o sacrifício: a Maria morta. Aquele ele que a abraçava. E a fúria quase bacante chega ao ápice no canto, é claro:

CAI CAI BALÃO, CAI CAI BALÃO, AQUI NA MINHA MÃO, EU NÃO VOU LÁ, EU NÃO VOU LÁ, TENHO MEDO DE APANHAAAR!!!

 

Como as tias de Pedro Velho e Pedro Novo, como a festa junina que não foi e o seu quase que durou por toda a vida, por Talia, pela mãe, por quem já foi e quem nem chegou. Por um pai viúvo tão cinzento quanto o de Nina, pelos livros esquecidos e os mortos convertidos em bibelôs num tabuleiro de xadrez. Pela culpa no evento do pássaro morto na armadilha e pela casa queimada pelo... balão.

 

“Pedro pedra e apedrejado. Sua pedra lascada, uma arma, que usou vinte e sete vezes contra o seu sonho, achando que era o sonho dela. A procura da pedra polida dera em nada.”

 

Nina fala porque enfim alguém falou com ela. Nina usou a voz, os pulmões, a boca porque quem falou não precisou dizer em palavras o que ela sempre esperou. Porque num momento vislumbrou um pedaço do que poderia fazê-la inteira. Aquilo que não dura muito, aquilo que escapa antes que se tenha certeza que existe, mas no momento em que a pergunta ecoou no ar, Nina viu Godot. Não inteiro, mas talvez um pedacinho de sua capa na esquina, ou o topo de seu chapéu coco na multidão. E soube que a espera, que a vida, não era em vão. Ninguém nunca é inteiro, ninguém jamais se completa, só a morte é plena. Só ela é o verdadeiro silêncio, o resto é simulacro e por isso ensurdece. Mas algumas poucas coisas na vida dizem, juram e dão certeza que não somos só concreto, só carbono e água. Essas coisas dizem que existe algo mais, que o sonho é agora e não depois. A esperança do inteiro está em alguns poucos lugares e chegam quase sempre sem querer. Estão na criação que expressa algo indizível de si, no encontro com a criação de outra pessoa que faz com que tudo que não se sabe da própria existência acorde e se veja numa folha de papel, numa tela ou num palco: tangível, vivo. A terceira e última instância é se ver refletido nos olhos do alguém que se ama, do outro necessário, de quem faz imperativa a crença na existência de algo como alma ou como espírito, um nome pro que não se toca com os dedos, mas com o olhar. O encontro. O lugar em meio à carne que acorda com o outro e que na sua partida perde a razão de ser: afoga, mata em vinte e sete facadas.

Nina viu um pouquinho de cada um: seus desenhos, depois os poemas para ela, que não leu, mas intuiu, como intuía tudo que era importante e, enfim, os olhos do tenente, do seu Pedro, pra ela.

E o cinza do mundo cessou.

Muito obrigada por ter publicado os poemas no site! Eles enriqueceram muito minha leitura de Desenho Mudo e mesmo antes já tinha me encantado com eles. Poesia traz pra mim o que não posso dizer nem encontrar em linhas completas. Eu, que nunca consigo parar de escrever e talvez justamente por isso, preciso do que se diz em pequenas - e gigantes - nuvens de sensações humanas.


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