A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


A Dúvida


IRMÃS EM CONFLITO

Rainer Guldin

Tradução de Gisele de Carvalho
do original inglês: Unequal sisters

 

Filósofo da língua? Teórico dos novos media? Pensador “digital”? Autor de fábulas filosóficas? Escritor de ensaios fenomenológicos? Filósofo ensaísta? Escritor-filósofo?

A obra do pensador brasileiro Vilém Flusser, nascido em 1920, em Praga, e morto num acidente de carro próximo à fronteira entre a República Tcheca e a Alemanha em 1991, ainda permanece difícil de ser classificada, desafiando tanto os teóricos da comunicação e das ciências dos media quanto os filósofos clássicos. Flusser estava consciente das fragilidades teóricas inerentes a seu estilo nômade de pensar movendo-se livremente entre línguas e formas de discurso: a possível falta de consistência terminológica e a ausência de um sistema global de referência estabilizado.

Estas duas razões poderiam explicar porque nenhuma escola flusseriana se tenha formado, até agora, em volta da sua filosofia. Mas Flusser sabia também que seu objetivo principal como escritor, um diálogo aberto com o leitor transformado em participante ativo do processo do pensamento, somente poderia ser atingido por sistemática desestabilização. Seus textos escapam de categorias bem delimitadas, constantemente alternando perspectivas e sempre provocando, com a ajuda de exageros desafiadores, analogias surpreendentes e contradições insolúveis. Isso explica, talvez, sua crescente popularidade entre escritores, fotógrafos e vídeo-artistas.

Busca de ficção filosófica e de ensaios ficcionais

“Sempre tentei fazer ficção filosófica”, escreve Vilém Flusser em carta à sua amiga Maria Lília Leão, “e meus ensaios na realidade se querem ficcionais”. É aqui, na fronteira entre ficção e realidade, literatura e filosofia, neste território escolhido pelo próprio Flusser para a sua reflexão filosófica, que o novo livro de Gustavo Bernardo se insere. Gustavo Bernardo, professor de teoria da literatura na Uerj e autor de vários outros ensaios e romances, tem feito muito para divulgar a obra de Vilém Flusser dentro e fora do Brasil. Em 1998 ele editou a primeira versão brasileira do livro de Flusser, “Fenomenologia do brasileiro”, escrito no final dos anos 70. Em abril de 1999 organizou um seminário internacional dedicado à presença de Flusser no Brasil. O seminário foi realizado em São Paulo e no Rio de Janeiro e gerou a publicação de “Vilém Flusser no Brasil” (Relume Dumará, 2000). Em 2001 apresentou sua reflexão sobre o filósofo em um Congresso na Alemanha e no Simpósio Flusser que organizamos, na Suíça.

Com a publicação do seu “A dúvida de Flusser”, uma lacuna fundamental está finalmente preenchida: trata-se, até o momento, do primeiro estudo completo e minucioso dedicado à totalidade da obra e da vida de Vilém Flusser. Tentativas anteriores concentraram-se em aspectos específicos do seu pensamento — especialmente a teoria dos media, como em muitas publicações alemãs — e por causa disso se vem perdendo o restante do conjunto. O rigoroso livro de Gustavo Bernardo — e esta é uma entre muitas outras razões que fazem dele uma contribuição provocante — escolheu mostrar-nos nada menos do que todo o pensamento de Flusser em toda a sua riqueza e complexidade. De fato, não terá sido um esforço simples.

Gustavo Bernardo analisa o método do pensamento de Flusser, seu uso de “doses moderadas de ceticismo e ironia”, como ele coloca, e sua constante mudança de perspectiva conduzindo a uma concepção de filosofia como ficção, o que fragmenta qualquer privilegiado ponto de vista em uma miríade de diferentes pontos de vista, todos equivalentes uns aos outros. Sua escola de relativismo e hibridizações produtivas não deve ser confundida com o fácil pluralismo do “vale tudo”. Para além de alternativas equivocadas de niilismo apocalíptico e de pluralista falta de interesse, há um caminho que conduz ao cerne mesmo da filosofia de Flusser. Movendo-se de ponto de vista em ponto de vista, saltando de universo a universo e de língua para língua, o momento da escolha se torna fundamental, mostrando-se como o instante da responsabilidade, isto é, da verdadeira liberdade. Esse momento, entretanto, não é jamais um ato privado e solipsístico, mas sim um coletivo Sinngebung, uma atribuição coletiva de sentido resultante do diálogo de sujeitos entrelaçados na rede da conversação geral.

Encontros com o cético, o exilado e o escritor

Os doze capítulos do livro nos conduzem através do matagal da imaginação de Flusser. Nós encontramos o cético, o filósofo irônico da língua, autor de “Língua e realidade” (1963), o portador de muitas máscaras, o fenomenólogo, o existencialista, o escritor, o exilado cuja família foi morta nos campos de concentração alemães, o bem-sucedido crítico dos media, o professor brasileiro de filosofia da comunicação, e o viajante entre continentes e culturas. Os títulos curtos de cada capítulo tecem uma rede cerrada de associações que sustenta o denso conglomerado de temas heterogêneos e reconstitui os passos principais da jornada intelectual e existencial de Flusser. Cada capítulo pode ser lido separadamente, revelando sempre novas facetas do pensamento multifacetado de Flusser e fazendo, da leitura, uma verdadeira viagem de descoberta.

 O Globo, 04/01/2003.


  

UNEQUAL SISTERS

 Rainer Guldin

 

Philosopher of language? Writer of media-theory? ‘Digital’ thinker? Author of philosophical fables? Writer of phenomenological essays? Essayistic philosopher? Philosophical writer?

The work of the Brazilian thinker Vilém Flusser who was born in Prague in 1920 and died in a car accident near the Czech-German border in November 1991 still remains difficult to be classified, a challenge both to theorists of communication and media sciences as well as to classical philosophers. Flusser was aware of the theoretical weaknesses inherent in his nomadic style of thought freely moving between languages – Portuguese, German, English and French – and forms of discourse: the possible lack of consistency in his terminology and the absence of a stable overall system of reference. These two reasons might explain why no Flusser-school has yet formed around his philosophy. But Flusser knew as well that his main aim as a writer, an open dialogue with the reader turned into an active participant in the thinking process, could only be achieved by systematic destabilization. His texts avoid clear-cut categories constantly shifting pitch and always provoking with the help of defying exaggerations, surprising analogies and unsolvable contradictions. This explains perhaps his growing popularity among writers, photographers and video artists.

“Sempre tentei fazer ficção filosófica”, writes Vilém Flusser in a letter to his friend Maria Lilia Leão, “e meus ensaios na realidade se querem ficcionais.” It is here at the border between fiction and reality, literature and philosophy, the very territory Flusser himself had chosen for his philosophical reflection that Gustavo Bernardo Krause’s new book sets in. Gustavo Bernardo who is professor of theory of literature at UERJ and author of several other essays and novels has done much to divulge the work of Vilém Flusser in Brazil and abroad. In 1998 he edited a first Portuguese version of Flusser’s "Fenomenologia do brasileiro" written in the early 70’s and in April 1999 he organized an international seminar dedicated to Flusser’s presence in Brazil and held in the two cities of São Paulo and Rio de Janeiro which led to the publication of the book “Vilém Flusser no Brasil" (Rio de Janeiro 2000).

With the publication of his "A dúvida de Flusser" a major gap has finally been filled: it is the first thorough study in book-length so far to be dedicated to the entirety of Flusser’s work and life. Previous attempts have concentrated on single aspects of his thinking – especially the media-theory, as in some German publications – and because of this have missed the rest of the picture. Gustavo Bernardo’s uncompromising book – and this is one among several other reasons that make it a precious thought provoking contribution – has chosen to present us nothing less than the whole of Flusser’s thought in all its richness and complexity. No easy attempt indeed.

Gustavo Bernardo analyses Flusser’s method of thinking, his use of “doses moderadas de ceticismo e ironia” as he puts it, and his constant shift of perspective leading to a view of philosophy as a fiction that breaks up any privileged one sided viewpoint into a myriad of different points of view all equivalent to each other. This school of relativism and productive hybridizations is not to be confused with the easy going pluralistic attitude of ‘anything goes’. Beyond the wrong alternatives of apocalyptical nihilism and pluralistic lack of concern there is a way out that leads to the very core of Flusser’s philosophy. Moving from point of view to point of view, jumping from universe to universe and from language to language the moment of choice becomes essential, presenting itself as the moment of responsibility, that is, of true freedom. This moment, however, is never a private solipsistic one, but a collective Sinngebung, a giving of sense, resulting from the dialogue of subjects entwined in the net of general conversation.

The richly illustrated book arranged in 12 chapters leads us through the thicket of Flusser’s imagination. We meet the skeptic, the ironic philosopher of language, author of "Lingua e realidade" (1963), the wearer of many masks, the phenomenologist, the existentialist, the writer, the exile whose family was murdered in the German concentration camps, the successful media-critic, the Brazilian professor of communication sciences and the traveler between continents and cultures. The short titles of the single chapters weave a tight net of associations holding the dense conglomerate of heterogeneous themes together and retracing the main steps of Flusser’s intellectual and existential journey. Each chapter of the book can be read by itself always revealing new facets of Flusser’s multi-layered thinking and making the reading of this book a true voyage of discovery.


e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com