A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


A Dúvida


OBRA JOGA LUZ SOBRE VILÉM FLUSSER

Henri Carrières

 

Contraditoriamente, uma importante contribuição que o Brasil deu à cultura do século 20 é fruto da inteligência de um tcheco.

Vilém Flusser (1920-1991) nasceu em Praga e chegou ao Brasil em 1940. Emigrou acompanhado de Edith Barth, sua mulher, companheira de toda a vida. Os dois fugiam do terror nazista que em 1942 vitimaria a mãe e a irmã mais nova de Flusser, prisioneiras em Auschwitz.

Foram 32 anos no Brasil, durante os quais Flusser, autodidata, desenvolveu intensa atividade filosófica.

Desde que Flusser morreu, em 1991, em acidente de carro na sua Praga natal, já foram realizados 10 congressos internacionais sobre seu pensamento. "A Filosofia da Caixa-Preta", sua obra mais famosa, está traduzida em 15 idiomas.

Apesar da sólida reputação alcançada no exterior, ele permanece pouco conhecido no país em que viveu a maior parte da vida. Com a publicação de "A Dúvida de Flusser: Filosofia e Literatura", primeiro estudo de fôlego sobre o filósofo, Gustavo Bernardo, professor de teoria literária da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), deu aquilo que pode ser o primeiro sinal para resgatá-lo do esquecimento.

Apesar de ter lido Flusser pela primeira vez em 1979 (o filósofo regressara à Europa sete anos antes), a decisão de estudá-lo veio apenas em 1991, ano de sua morte.

Após entrar em contato com a viúva de Flusser em 1996, Bernardo viajou a Barbados, arquipélago do Caribe onde a filha do filósofo, Dinah, servia como embaixadora. Voltou com duas malas abarrotadas de datiloscritos fotocopiados.

Flusser, autor de 36 livros e incontáveis artigos, muitos ainda inéditos, nunca se separava de sua máquina de escrever mecânica. Ele costumava redigir seus textos quatro vezes, em alemão, português, inglês e francês (nessa ordem). Só não usava precisamente a língua materna, o tcheco, por considerá-la "adocicada" demais.

A abundância do material reunido por Bernardo em sua viagem lhe permitiu abordar aspectos até então pouco explorados do pensamento de Flusser.  "Já saíram algumas coisas sobre ele na Europa (tem muito pouca gente estudando Flusser no Brasil) e sempre sobre a última parte da filosofia dele, a parte européia, sobre a teoria dos "media". Mas o mais fascinante é o início, que é a parte de filosofia da linguagem e da existência", diz.

A própria personalidade de Flusser contribuiu para que se criasse resistência a ele no meio intelectual brasileiro. Sua forma de dialogar era voluntariamente agressiva, ele mesmo o reconhecia, embora pedisse a seus interlocutores igual tratamento para si.

De início, a falta de titulação adequada barrou o acesso de Flusser à universidade. Durante muitos anos, ele ganhou a vida como negociante de rádios e componentes eletrônicos.

A aproximação com o meio acadêmico aconteceu no início dos anos 60, por intermédio de Vicente Ferreira da Silva, que o levou para o Instituto Brasileiro de Filosofia, e Milton Vargas, professor de física da Universidade de São Paulo, de onde se tornou professor. Mas suas críticas acerbas à esquerda lhe valeram, na USP, a pecha de direitista. "Ele ficava magoadíssimo com isso", afirma Bernardo.

Folha de São Paulo 14/01/2003
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