A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


A Dúvida


FICÇÕES FILOSÓFICAS DE FLUSSER

Mariano Gazzineu David

 

A aproximação entre filosofia e ficção foi uma das marcas do filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser, que nasceu em Praga mas viveu no Brasil por 32 anos. Fugindo da perseguição aos judeus durante a segunda guerra, Flusser aqui chegou em 1940, aos 20 anos de idade, e radicou-se em São Paulo. Autodidata, impôs-se como intelectual criativo e polêmico, deu aulas em universidades paulistas, foi colaborador em jornais de grande circulação e marcou o meio intelectual brasileiro, até emigrar de volta para a Europa em 1972. Ao morrer, em 1991, deixou uma obra filosófica instigante, que vem despertando interesse crescente em todo o mundo, mas que, paradoxalmente, ainda é pouco conhecida por aqui.

O livro do professor e escritor Gustavo Bernardo, A dúvida de Flusser: filosofia e literatura, juntamente com as novas edições de dois importantes livros de Flusser, A dúvida, em 1999, e Filosofia da caixa preta: ensaios para uma filosofia da fotografia, em 2002, vêm resgatar para o público brasileiro a originalidade e a força de um pensamento insubordinado. O livro de Gustavo Bernardo investe em múltiplas frentes, sem perder a consistência. Além de ensaiar rápida biografia intelectual de Flusser, de introduzir o leitor nas correntes filosóficas que o influenciaram e nas questões centrais de seu pensamento, examina ainda os desdobramentos de conceitos flusserianos nos campos da filosofia da ciência, da ética e da estética - particularmente em aspectos da teoria da literatura.

Vilém Flusser fez convergir em seu pensamento a ironia do ceticismo, a intencionalidade do olhar fenomenológico (de Husserl) e as concepções lógicas e paradoxais da filosofia da linguagem (de Wittgenstein). Tudo isso incrementado com os temperamentos tcheco e brasileiro, porém guarnecido com conceitos heideggerianos. A questão central de sua obra situa-se na busca de condições para o pensamento autêntico, para a ''grande conversação'' ocidental. Trata-se de escapar da ''conversa fiada'' que submete a civilização ao dogmatismo de um conhecimento técnico-científico autodestrutivo. A chave para salvar a conversação residiria na dúvida: a suspensão dos juízos possibilitaria reconhecer o limite do intelecto e preservar a dinâmica do pensamento.

Se a dúvida pode salvar a conversação autêntica, a poesia é responsável pela ''expansão do intelecto'', criando os nomes próprios e os mitos e, por isso, expandindo a língua. O primeiro livro de Flusser, escrito e publicado no Brasil em 1963, Língua e realidade, afirma, desdobrando o Tratactus de Wittgenstein, que a língua cria e propaga a realidade. Assim, constata Gustavo Bernardo, a poesia define a situação ''de fronteira'' do intelecto. E completa: ''Para se permitir conversar, o intelecto precisa antes versar: o verso é a maneira como o intelecto se precipita sobre o caos, o verso é a própria situação-limítrofe da língua.'' A função da poesia aparece na frase de Flusser, destacada em epígrafe no livro de Bernardo: ''A poesia aumenta o território do pensável, mas não diminui o território do impensável.''

Uma vez que toda teoria surge como modelo, ou seja, como ficção, é preciso assumir o caráter ficcional das teorias. O que não significa que não haja distinção entre discurso teórico e ficcional, mas que ''a tensa fratura'' que os separa é também, paradoxalmente, o que os conecta. Ingênua é a fé de que o pensamento lógico coincida com a realidade, pois a vivência a desmente a todo momento. Flusser criou ''ficções filosóficas'' em que os campos teórico e ficcional aparecem imbricados, extraindo da trama efeitos estéticos e sentidos conceituais.

Poliglota por necessidade mas também por método de trabalho, Flusser escreveu a maioria de seus textos sistematicamente em quatro idiomas: o português, o alemão, o tcheco e o inglês. Além dos textos citados, o filósofo publicou Fenomenologia do brasileiro, A história do diabo, Natural:mente e Ficções filosóficas, dentre outros.

O livro de Gustavo Bernardo discute as concepções de Flusser por meio de articulações férteis, fazendo emergir a imagem de um filósofo vigoroso e surpreendentemente claro. Faz jus ao pensamento flusseriano ao apresentá-lo também numa linguagem leve e límpida, mas principalmente por não se ater à simples apresentação. As questões são abordadas, com espírito cético, sob diferentes perspectivas e levadas além da problematização que encontram originalmente em Flusser.

Gustavo Bernardo publicou tanto ensaios sobre teoria da literatura quanto romances, como Lúcia, A alma do urso e Desenho mudo. Não são apenas as qualidades técnicas que convidam à leitura de A dúvida de Flusser, mas - coisa rara em textos teóricos - mas também o prazer que se tira da leitura.
 

Jornal do Brasil, 03/05/2003.


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