A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


A Dúvida


FINA LETRA

Marcus Alexandre Motta

 

Olho mais a região desta "delicada dúvida" de Gustavo Bernardo; e faço, não o querendo fixar nos encerramentos que um livro precisa ter; pois nele também terminam as questões do leitor e todas as derivações potenciais de conflito na leitura. Obra delicada, digo, na medida do próprio título, onde a autoria professa-se através da tênue textura que se reconhece no sutil custeio do diálogo - a escrita.

Dedica-se o autor à tarefa; e nem sei se há mais de Flusser em Gustavo ou se Bernardo é tão mais urbano no discernimento do que poderia ter sido Vilém (pois o trabalho responde a anos de empenho). Nem por menos e nem por mais, o livro acontece aclimatando a interrogação conforme a leitura se debruça na polidez e qualidade do texto. É como se o autor estivesse a recomendar não apenas um encontro nos "ensinamentos" de Flusser, mas o embate com eles e o seu possível retorno no caso de haver escutas.

O que de fato fica deste livro dedicado às "reflexões inquietantes" de Vilém Flusser é a respeitável fé que o autor sustenta, junto ao próprio "personagem", como preces da linguagem. Isto quer dizer: a noção de que, embora as palavras encontrem-se, de certa maneira, em exílio, a esperar como pequenos portais de acesso ao desconhecido, elas são a própria resistência à tentação do ceticismo que se promove apenas sob um risco, a loucura.

Esta confiança faz com que Gustavo Bernardo nem permita deixar Vilém só, nem solicitar um triunfo filosófico de Flusser - o que poderia indicar a vitória sobre o humano. Para o autor, e por que não dizer para o parceiro do seu livro, o que se enfatiza é a tradução do pensar liberto; ou seja: colocar, recolocar, repetir, substituir e nada negar, prontamente, a todo e qualquer momento. Sente-se inclusive quão a dor biográfica de Vilém mantém-se autopresente no texto de Bernardo; pois tal situação do "personagem" no livro configura as necessidades da vida e da arte estarem além daquilo que posso aqui chamar, na falta de outro termo melhor, de juízo moral - em suas infindáveis colorações de controle.

De algum modo, o livro A dúvida de Flusser: filosofia e literatura, segundo sua qualidade indiscutível e valor sem simples mesura, autentica um apelo de leitura que o autor declara com grande delicadeza na escrita, sabendo, de antemão, que o pensamento de Flusser não passa ao longe do modo de agir comum dos homens; o que significa ter a linguagem não como concordância de opiniões, mas formas de vida. É isto: formas de vida, marcação de critérios no que diz respeito a outras formas, num ativo ato de decepção sobre os próprios critérios e a própria linguagem.

Dessa maneira, o belo trato narrativo do livro de Gustavo Bernardo se afeiçoa aos títulos dos capítulos - tons de escrita. Ora, compreender alguém é reconhecer que cada um só tem suas distâncias para dar culto ao próximo. Assim, o ato da compreensão em Gustavo Bernardo evidencia a imediata garantia de que a assinatura Vilém Flusser não é a indicação da pessoa Vilém Flusser, mas desenho aleatório de um domínio de pensamento, linguagem, sob a tutela, em sempre completo risco, de outro domínio, Gustavo Bernardo.

Então, as palavras que nominam cada parte do livro apresentam o clímax que uma forma de vida obtém na sua transfiguração em outra; por fecunda distância. Os títulos dos capítulos - Homem, Ceticismo, Fenômeno, ..., Poesia, Prece e Dúvida - são estaturas que se estabelecem enquanto palavras-valise, numa disjunção que arbitra, por desvios, a gama de trajetos; onde a idéia do livro não conta somente a sua "história", mas a abrangência do "anseio" poético em Flusser: não imaginarás.

Se bem entendo, a posse da linguagem é uma sofisticada forma de vida para Flusser, e algo bastante próximo ao predicado intelectual de Bernardo. O que poderia me permitir, como leitor de gostos e gestos herméticos, que o não imaginarás, recobra a idéia de que pensar uma linguagem significa conceber uma forma modificada de "vida falante", suspendendo por um instante a crença na própria imaginação.

O que de certa maneira faz da literatura e da filosofia em Flusser, algo bastante presente no livro, uma luta contra o enfeitiçamento do intelecto pelos meios da linguagem. Daí, digo ser a necessidade de um excesso de poesia, sempre atuante na escrita de Gustavo Bernardo, o aceno da generosidade do autor em oferecer correspondência às obras de Vilém Flusser como constante início da liberdade.

E se assim o é, as formas de vida, Flusser e Gustavo, só podem confiar o "espírito humano" à linguagem, caso a escrita transfigure-se numa contemplação em fuga. A cada andamento no livro, o leitor participa deste escape; o que significa não formalizar os problemas para não esterilizá-los.

Na contemplação em fuga, a escrita esforça-se para visualizar o não condicionado - tão bem expressa na epígrafe de todo o livro: a poesia aumenta o território do pensável, mas não diminui o território do impensável (Flusser) - exercendo no leitor uma atração que brota do fato de que Gustavo Bernardo estende a sensibilidade da leitura até as exigências do seu próprio âmbito; o que nos permitir olhar além de nós até o abismo de nossos preconceitos. Evidentemente, esta forma de vida, o livro de Gustavo Bernardo, acaba reconhecendo que a tensão psíquica entre sensibilidade e intelecto, tradição kantiana por excelência, é o gesto pelo qual o conflito da linguagem contra ela própria se escamoteia.

Então, o simplesmente literário é improcedente para a escrita de Flusser, como é para Bernardo; ao mesmo tempo em que o reconhecível filosófico o é para qualquer coisa chamada filosofia. O que seria o mesmo que falar que a filosofia e a literatura, entendida nas estaturas de Flusser e Bernardo, são faculdades de responder; o que faz delas um nada que está acontecendo como um todo, não havendo uma narrativa única a ser relatada, cuja importância ficcional, na cultura que descreve, está acontecendo corriqueiramente - sem melodrama.

Por fim gostaria de me ater ao último capítulo, Dúvida, no qual o autor realiza um esforço de síntese. Faço convertendo as idéias de Gustavo Bernardo numa tradução que não cabe bem numa moral de resenha. Mas isso acontece porque tecer elogios ou críticas finais ao trabalho do autor seria ser vítima fácil da auto-ironia.

Sendo assim, passo a buscar um exuberante após a leitura do livro. Devo, de imediato, agradecer a sutileza dos aparatos retóricos que povoam as últimas páginas. A dúvida da procura consagra o autor nas posses de suas distâncias. No sustento da ficção filosófica de Flusser, Bernardo traça a sua angústia num espaço que dispensa o grosseiro otimismo e o pessimismo aceitável. Gustavo permanece nelas como uma forma de "vida falante", traduzido numa outra e mesma língua, que não é aquela que havia adotado ao longo do trabalho.

Está a colher no ambiente das preocupações intelectuais de Vilém Flusser, espasmos poéticos para a própria luta, realizando uma exposição de fé crítica, portanto contraditória nos próprios termos. Mas a ação de Bernardo, o objetivo da batalha, é a insistência nômade na tríade indiscutível das línguas ou realidade, sujeito, objeto e predicado. Se isso tem a ver com Flusser, por demais simplificado se torna. No âmago das distâncias, que são as posses do autor, Gustavo Bernardo subtrai da ficção filosófica de Vilém o clima da interrogação - que agora é seu.

Nestes, o lugar da poesia e da conversação é a distância como choque. Ou seja: na festa-mestre, a língua, talvez algo nos faça outro. Caso esta possibilidade seja crítica, já o é de alguma maneira por ser dita na honestidade intelectual de Bernardo, o turbilhão de diálogos não se faz à beira da fonte; mas na adjacência de uma espantosa abertura - abismo. Muito perto, em vias de nascer, a narrativa de Bernardo para Flusser, cumpre o ditame poético - a coragem.

Claro. A palavra é esta, pois a aventura que é o pensamento impõe a tarefa de sacrifício em não viver a loucura orgulhosa de querer dominar o de tudo diferente com o nosso pensamento. Mas de quê exatamente procede tal imagem, confirmada em todo texto de Gustavo Bernardo? Em que nível opera? Na ambigüidade da superação do dilema da crença e da tautologia, através do poder de uma dupla distância poética nas quais se escreve ou se conversa. Melhor: no ato de jogar, sem a identidade do feliz que vê a vida passar e sem os encantos paradisíacos de nossos confortos de pensamento.

Mas como? Despertando a língua do seu sonho familiar, de maneira que ela viva um quê de dança estranha. Gustavo Bernardo, numa fina letra produz um capítulo de passagem: nada é cedido às falsas certezas do presente, nada é abandonado às duvidosas nostalgias do passado, nada cai em descuido - pois, evita o "sucesso intelectual" - nada se faculta no sacrifício aos sonhos substantivos; lógica do mundo.

E vou terminando. O último capítulo do livro de Gustavo Bernardo é por direito qualitativo uma ultrapassagem em forma original e, porque não dizer, originária. Cumpre a tarefa de se pôr em arte, todos os outros capítulos, como se apresentasse o primeiro, homem, numa amplificação comensurável no diverso, ele, o autor.

Mas se há uma fina letra de Gustavo para Flusser é porque o primeiro escolhe a contemplação em fuga. O que se traduz neste último capítulo como o derradeiro espetáculo da transfiguração de uma forma de vida em outra. Quando rememoro a seguinte frase - o intelecto deve se sacrificar em prol de intelecto diminuído, sem receber compensação por isso. A disposição para este sacrifício não encontra, como seria de esperar, multidão de adeptos. No entanto, essa atitude absurda se impõe - tenho a nítida sensação que o meu trabalho, a partir da leitura, é, surpreendentemente, um esforço de evitar a confusão entre as minhas verdades e meus preconceitos.

Se posso então fazer isto é porque a causa da influência do livro de Gustavo Bernardo me faz desobedecer aos meus imperativos e aprender que no movimento da delicadeza está cumprido um princípio. Princípio que sustenta na diferença (horizonte da dúvida) a mais que evidente postura de alguém que antes de ler dimensionava este tipo de trabalho no ambiente espelhado do seu ego. Logo, posso dizer: para os anos futuros ouso esperar que, embora mudado, sem dúvida, eu não seja o mesmo quando pela primeira vez estive entre as suas palavras; pois as minhas se transformaram simultaneamente pletóricas e insuficientes.
 

Revista Matraga nº 15, 2003.


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