A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


A Dúvida


VILÉM FLUSSER SE SURPREENDERIA

Zdenek Kourim

 

Tradução do tcheco de Eva Batlicková

 

Pouco tempo depois de meu artigo informativo “Desenvolvimento da filosofia no Brasil” ter saído na Revista Filosófica (2/1965), recebi, para minha surpresa, uma carta com cabeçalho do Instituto Brasileiro de Filosofia. Tratava-se da reação de Vilém Flusser ao texto mencionado, que recebeu de um de seus colegas brasileiros (Luís Washington Vita) com o pedido para que o traduzisse para o português. A carta terminava com o seguinte parágrafo:

Para a Tchecoslováquia, talvez possa ser interessante também o fato de que no meu trabalho Língua e realidade (Herder, 1963) eu esteja buscando uma análise da linguagem e que o tcheco me serve de exemplo. No entanto, você pode reconhecer nesta carta que o tcheco está se tornando estranho para mim, por não ler nesta língua há dezenas de anos.

A modéstia dele era exagerada, não tinha muita justificativa. Este foi o começo da nossa correspondência de um ano. Na carta seguinte, Flusser escreveu que era leitor da Revista Filosófica e que gostaria de colaborar com ela, se possível. Ao mesmo tempo, levantou para mim várias questões relacionadas, principalmente, com a postura dos filósofos marxistas em relação à lingüística moderna. Também avisou que o Instituto estava mandando para mim o livro que mencionara.

Depois da minha resposta seguiram, em curto intervalo, duas cartas: na primeira (tcheco-portuguesa), o autor esboçou, grosso modo, o panorama atual da filosofia brasileira (bastante diferente não só do que eu imaginava, mas também da maioria das concepções dos outros filósofos brasileiros); junto com a segunda carta chegou o “artigo sobre a cultura brasileira do ponto de vista lingüístico”, destinado à Revista Filosófica. Em carta do início de 1966, que foi endereçada a mim no Instituto de Filosofia da Academia Tchecoslovaca de Ciências, como todas as cartas, Vilém Flusser apresentou, conforme meu pedido, seus dados básicos, os quais deveriam acompanhar seu artigo:

Nasci em 12 de maio em Praga, estudei na Universidade Carolíngia e na London University e estou influenciado principalmente pela Escola de Viena, de um lado, e de outro, pelo existencialismo de K. Jaspers, Merleau-Ponty e de Camus. Estou ensinando no Instituto Brasileiro de Filosofia, no Instituto de Estudos Humanísticos, e na [Escola] Politécnica e no Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Estou colaborando com [...o diário] O Estado de São Paulo, onde comento sobre filosofia e cultura, [...com] o Jornal do Commercio do Rio de Janeiro e sou membro da redação de O Cavalo Azul. Colaboro também com o escritor Guimarães Rosa.

Como na época eu estava em Estrasburgo com uma bolsa de estudos e recebia o correio de Praga em intervalos irregulares, a carta de Flusser com data de abril chegou às minhas mãos apenas depois da minha resposta de 5 de maio. Avisava nela que recebera convite do Ministério do Exterior para, entre setembro e novembro, “palestrar sobre a situação filosófica brasileira na Europa e na América.” Depois, acrescentou:

No entanto, quero ir para Praga, para minha pátria velha, e também para conhecer você pessoalmente. [...] Você acha que eu poderia proferir palestra no seu instituto ou na universidade? Eu tentaria falar em tcheco. [...] Se for a Praga, gostaria de conhecer também sua vanguarda artística. Você sabe de meu interesse sobre a linguagem. Haroldo de Campos recomendou Josef Hirsal. [...] Também conheci o professor Goldstuecker (Kafka). [...] Não preciso dizer como gostaria de estar com vocês e o que Praga significa para mim. Será que eu conseguiria, no âmbito das minhas fracas forças, contribuir para aproximação das nossas culturas?

A última carta de Flusser, de 8 de junho, foi endereçada para mim diretamente para Estrasburgo. Anunciou que o Ministério do Exterior brasileiro programara sua estadia em Praga aproximadamente entre 29 de outubro e 5 de novembro; a última frase foi: “Nem preciso contar como estou animado em rever Praga e em encontrá-lo.”

Durante minha curta volta para Praga (no final do outubro tive de ir para a França de novo), consegui organizar todo o necessário: o diretor do Instituto de Filosofia foi favorável ao meu pedido e mandou um convite oficial (na época imprescindível) para a visita planejada, e a União Filosófica se propôs a organizar a noite de palestras para o convidado ultramarino; tentei também marcar os encontros conforme desejos de V. Flusser. Apesar de não ter recebido a resposta direta, pela carta ao diretor do Instituto Filosófico acabei sabendo que ele pretendia vir já em 15 de outubro e que a próxima correspondência deveria ser enviada para o consulado brasileiro em Munique; para lá mandei a carta no dia 6 de outubro. No entanto, tanto pela resposta, como pela visita prometida fiquei esperando em vão... (V. Flusser voltou para seu país apenas graças ao convite do Instituto Goethe de Praga em novembro de 1991 – viagem que lhe foi fatal).

A explicação parcial chegou apenas quase 40 anos depois, quando descobri na internet um capítulo da dissertação do Ricardo Mendes, Vilém Flusser: uma história do diabo (São Paulo, EDUSP, 2001). O capítulo apresenta o texto da “carta coletiva” de 1 de novembro de 1966, onde Flusser descreve para Celso Lafer e para os outros amigos sua impressões da viagem pela Europa. Enquanto ele ficou sozinho em Munique, apenas sua esposa foi para Praga. A partir das experiências dela, comenta: “[...] horrível. A cidade mais bela e mais cultural escravizada pela idiotia e miséria do comunismo. A moral dos mendigos e o sistema de berçário para adultos. Nem tanto a miséria, mas uma meio-pobreza desesperada. O fracasso evidente.”

Perguntei a dona Edith Flusser porque Vilém resolveu quase no último momento não realizar sua visita há tanto tempo preparada e desejada. Ela respondeu: “Meu marido não conseguiu ir para Praga naquela época; Praga significava tanto desespero! Ele me acompanhou para o aeroporto em Munique e lá depois foi me buscar...”.

É natural que a tradução do livro, cuja primeira edição pretendi prefaciar muito tempo atrás (apenas pretendi, porque a redação da época da Revista Filosófica não manifestou nenhum interesse), me agradasse muito; porém, só por um tempo curto, antes que eu a comparasse com o original. Por sorte li o texto da orelha, cuja última frase comenta que esta “edição tcheca representa a primeira tentativa de [...] tradução para uma outra língua”: sem dúvida uma tentativa louvável, porém obviamente sem grande sucesso. Vilém Flusser provavelmente ficaria surpreendido...

É necessário avisar que a tarefa do tradutor neste caso foi realmente difícil, porque o autor tcheco-brasileiro aqui defende suas teses de “que conhecimento, realidade e verdade” não são nada mais que “aspectos da língua”, “que a ciência e a filosofia são as pesquisas da língua, [...] que a religião e a arte são disciplinas em que a língua se forma” (p. 9), principalmente por meio de seu conhecimento excepcional das línguas: ao lado do português, que é a principal, recorre também ao alemão, ao inglês, ao francês ou ao tcheco, e ainda visita outras regiões lingüísticas. Karel Palek, na “Nota do tradutor” (p. 177-186), ao comentar para o leitor esta circunstância, principalmente a necessidade de substituir os exemplos em português pelos equivalentes tchecos apropriados, mediante os quais o autor demonstra e comprova seus argumentos - acrescenta: “Em todos os casos, quando se trata dum acréscimo, substituição ou reformulação, as intervenções do tradutor são marcadas no texto com colchetes” (p. 185). Isso parece natural e deveria ser assim; porém a realidade é completamente diferente.

Se desconsideramos umas pequenas falhas na introdução, faltam algumas frases sem qualquer explicação logo na página 13; faltam outras frases nas páginas 16, 17, 18, 21 e 23; nas páginas 19, 22 e 23, falta o texto em parênteses; na página 25, sumiram 10 linhas do autor; na página 34, 21 linhas, e na página 78 até um parágrafo inteiro, isto é, 25 linhas sem qualquer aviso, etc, etc. Da mesma maneira e, quase no mesmo ritmo, poderíamos continuar até o fim da tradução. É quase inútil advertir que o uso das aspas e itálicos na tradução muitas vezes é diferente do que no original, sem mencionar muitas imprecisões. Delas, pelo menos algumas: conforme Flusser “ciência e filosofia são pesquisas da língua”; conforme o tradutor, se trata “dos métodos da investigação da língua” (p. 9) [a tradução correta de uma frase quase igual ocorre na página 102], o que dá um sentido bastante diferente; “saber” não significa “consciência” (p. 44); resumir os termos “Deus” e [“ou”] “mundo” pelo termo “universo” (p. 56) é um pouco surpreendente; o verbo “ser” aparece dentro dos colchetes mesmo que no texto original venha em itálico (p. 71); na p. 74, o leitor encontra o resumo de algumas frases no lugar de tradução e até a tradução seguinte é bastante livre; o tradutor corrige/arruma também o português do autor, quando substitui seu “aquilo aí” pelo “há” (p. 89), mesmo que o significado seja igual; “não pode” e “não deve” é 3ª pessoa do presente em português e não 2ª (p. 95); resumo/interpretação se encontra também na página 99 etc, etc. Evidente é a troca das palavras “realidade” e “irrealidade”, troca que distorce completamente o sentido da frase (p. 107); o título de um capítulo (mesmo que talvez errado) no original é “Conversação e conversa fiada” no lugar de “... e conversa” (110); substituir o adjetivo português “honesto” pelo tcheco “existencial” (p. 113) me parece bastante grave, assim como na mesma página traduzir “menos conscientemente” pelas palavras “pelo menos teórico”; que “hipotético” não é igual a “produtivo” (p.149) é também óbvio, etc, etc. Karel Palek acrescenta também sua tradução em vários lugares, por ex. nas páginas 130, 136, 139, 143 etc.; os erros na língua tcheca surgem, por exemplo, nas páginas 23 e 110.

É difícil entender que a tradução de K. Palek – como se evidencia na última página – não tenha sido profissionalmente corrigida. Mas, mesmo revisada, às vezes não se evita uma série (até contínua) de problemas e erros graves, como mostra a tradução do livro A Filosofia dos Astecas, de Miguel Leon-Portilla (Praga: Agro, 2002), de autoria de Eva Mánková. Uma lista completa das falhas e erros dessa tradução de Flusser encheria páginas (e não tenho certeza se não omiti alguns erros). Por fim, então, apenas mais dois detalhes da Nota do tradutor.

Na página 177, Karel Palek escreve que: “Vicente Ferreira da Silva [autor do texto da orelha do livro mencionado sobre o conteúdo do qual exprime opinião favorável, se dizendo até encantado] foi o filósofo de uma geração mais velha que introduziu [Flusser] ao ambiente estimulante do Instituto Brasileiro de Filosofia.” Porém, V. Ferreira da Silva (1916-1963) foi contemporâneo de Flusser, apenas quatro anos mais velho, e sua amizade teve, provavelmente, alcance mais amplo de que a nota mencionada. Pelo menos as palavras seguintes da poeta Dora, esposa de Vicente Ferreira da Silva, o comprovam:

Vicente e Flusser dialogaram sem parar. Se em opiniões concordavam ou discordavam, a influência de Vicente em Flusser era evidente. Flusser havia deixado o comércio, que herdara de seu sogro, para poder se dedicar ao estudo da filosofia. Dizia que o comércio o conduziria à esquizofrenia, porque se sente bem apenas entre livros. Acho que a presença inspiradora de Vicente, que também se entregou à filosofia, com certeza influenciou sua escolha.

Merece ser atualizada, senão corrigida, a afirmação do tradutor que “hoje Flusser é mais conhecido na Europa de que no Brasil”; este “hoje” seria necessário definir e datar – porque nos últimos anos a situação no Brasil decisivamente mudou.

Como autor de algumas publicações e de uma série de artigos (1960-1980) na principal revista filosófica, a Revista Brasileira de Filosofia, Flusser era conhecido e bastante apreciado no meio filosófico brasileiro já durante sua estadia neste país e também depois de sua saída. Podemos, por exemplo, olhar Logos – Enciclopédia Luso Brasileira de Filosofia (Lisboa-São Paulo, Editorial Verbo, 1992), onde M. Reale escreveu sobre ele, entre outras coisas, o seguinte: “A amizade intelectual frutífera entre Vilém Flusser e Vicente Ferreira da Silva teve uma contribuição enorme para o desenvolvimento da filosofia brasileira autêntica [...].”

O público mais amplo começou ser informado e saber mais sobre o valor da obra de Flusser principalmente no final dos anos 90. Uma contribuição enorme vem principalmente de Gustavo Bernardo Krause, professor de teoria da literatura na UERJ. Com R. Mendes, ele organizou o seminário internacional sobre atualidade da obra de V. Flusser, em 1999, em São Paulo e no Rio de Janeiro (o livro do seminário saiu como Vilém Flusser no Brasil; Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000) e é autor da monografia A Dúvida de Flusser: filosofia e literatura (São Paulo, Globo 2002, 316 p.), que no Brasil teve grande repercussão (por exemplo, resenha favorável no Jornal do Brasil) e que - na minha opinião – seria apropriado publicar também em tcheco.

G. Bernardo destaca a relação da obra de Flusser com a teoria literária atual entendida como epistemologia, isto é, a teoria que “[...] estuda as condições de verdade, suspeitando por princípio da adequação entre a palavra e a coisa.” Esta dúvida ou suspeita é o “tema básico da teoria da literatura” e a aplicação preciosa dela nos coloca na situação perigosa de “niilismo apocalíptico e de oportunismo pluralista”, com os quais “somos obrigados a dialogar”. A opção de Flusser – a busca de “articular Husserl com Wittgenstein na circunstância brasileira” – é neste sentido exemplar; o autor a concluiu de seguinte maneira: “articular a dúvida metódica cartesiana, fundadora do pensamento moderno, à suspensão fenomenológica da crença, fundadora da suspeita contemporânea quanto aos limites do pensamento.”

A etapa seguinte, como consequência da primeira mencionada, é a articulação “tão produtiva quanto problemática [entre a ficção e a filosofia] - produtiva porque um campo fecunda o outro e problemática porque os campos podem ficar indistintos” (p. 11, 12). Flusser, então, é um pensador interdisciplinar par excellence emergindo da fenomenologia de Husserl, do mesmo modo como o pensamento de Husserl emerge do método cartesiano; ele é um filósofo que “vivenciava a filosofia como espécie de ficção que perspectiviza a verdade” (p. 21). No seu desenvolvimento intelectual, é possível detectar a influência do marxismo (mesmo que nunca se tenha tornado um marxista), do formalismo (a Escola de Praga, o Círculo de Viena e Wittgenstein) e de Ortega y Gasset (cuja Revolta das multidões levou-o ao conhecimento de Nietzsche). Como sua forma de expressão escolheu o ensaio, “mas o disfarça, sintaticamente, de tratado. [...] Sua maneira de enunciar as hipóteses aproxima-o do discurso religioso, sim, mas antes para combatê-lo por dentro. Seu estilo atende [...] à intenção simultânea de dessacralizar a religião para sacralizar o cotidiano e lutar contra a própria profecia – lutar contra a morte do homem” (p. 54).

Principalmente para os leitores do livro Língua e realidade, é interessante a nota sobre a polêmica publicada em O Estado de São Paulo (1964) com Anatol Rosenfeld, que criticou a postura de Flusser como um tipo de solipsismo lingüístico. V. Flusser, em sua resposta, esclarece a tripla motivação que neste caso estava seguindo: 1. o encontro – percebido como o desafio – com o português (que conheceu e dominou com excelência apenas depois da sua chegada ao Brasil) e o descobrimento da não originalidade da literatura filosófica brasileira, até então “alienada de sua própria língua”; por isso, exatamente nela buscou descobrir os pressupostos do pensamento brasileiro autêntico, confrontando-o com o alemão, com o inglês e com o tcheco; 2. Esforço de encontrar a saída do dilema de Wittgenstein, da prisão na qual língua se nos fecha; 3. A consciência da realidade instável, cuja fluidez os sistemas ontológicos tradicionais não são capazes de captar (p. 150-151).

G. Bernardo escreveu, mais que qualquer tipo de estudo aparentemente objetivo sobre a obra e a vida de Flusser, um comentário competente e empático, que aproxima e ressuscita a filosofia inseparavelmente ligada à personalidade de seu autor, mostrando e comprovando a perfeição exemplar, a atualidade e o conteúdo positivo do questionamento e da dúvida permanentes do filósofo tcheco-brasileiro. Pois “Vilém Flusser resiste ao apocalipse intelectualizante e às reificações totalitárias”; a sua “superação da dúvida da dúvida é a aceitação do horizonte de dúvida”, dentro do qual não existe mais espaço para a “meta da conversação ocidental, perseguida por três mil anos: tornar pensável o impensável, para desse modo eliminá-lo”, que significa para nós, pelas suas próprias palavras, continuar “a grande aventura que é o pensamento”, mas sacrificar a “loucura orgulhosa de querer dominar o de tudo diferente com o nosso pensamento” (p. 291). Testemunham também o aumento do interesse sobre a obra de Flusser as recentes reedições brasileiras de seus livros: Filosofia de caixa preta (2002), Da religiosidade: a literatura e o senso de realidade (2002), Língua e realidade (2004), A história do Diabo (2005).

No lugar de qualquer conclusão, vou terminar estas lembranças e notas com umas frases de Flusser, provavelmente pouco conhecidas (retiradas de carta para Sérgio Paulo Roaunet, datada de 24 de setembro de 1980), dentro das quais se reflete, de maneira abreviada, a motivação, a amplitude e a profundidade de seu pensamento:

O diálogo cria a informação que se coloca contra a absurdidade e o discurso a mantém; porém, trata-se de caso perdido, porque a informação será no final esquecida. O problema principal não é a “verdade” (a-léthéia, no sentido de des-esquecimento), mas a léthé, o esquecimento. O problema principal é a morte.

 

Revista Filosófica de Praga, 1º semestre de 2007


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