A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


ficção cética


ERUDIÇÃO AO ALCANCE DA MAIORIA

Adriana Lisboa

 

Imaginemos um professor que incite seus alunos não a responder perguntas, mas a multiplicá-las. Ou um pensador que prefira recorrer ao “talvez,” esquivando-se do dogmatismo do “sim” e do “não” categóricos. Ou um ficcionista que preze os espaços abertos de seu texto, os vazios virtuais de sentido, ao invés de servir de bandeja uma refeição de fast food, plástica e insossa, ao leitor. Ou, ainda, um crítico que possa abordar a obra literária com simpatia e dúvida, desconfiando de que não há livros melhores ou piores, “mas apenas obras que merecem discussão e obras que devem ser entregues a nosso amigo, o tempo,” como quis Sérgio Milliet.

Todas as personagens imaginadas acima flertam, quer saibam, quer não, com o ceticismo filosófico. É o que nos diz, em A ficção cética (onde se encontra o trecho de Milliet), Gustavo Bernardo – professor, pensador e ficcionista capaz não apenas de reconhecer a validade e a urgência dessas posturas, mas de encená-las ele próprio.

Nos dias atuais, quando os profissionais das letras – os que criam, os que julgam, os que estudam –  andam falando demais, afirmando demais e fazendo perguntas de menos, A ficção cética surge como obra teórica importantíssima, mas não apenas isso. Trata-se sobretudo de um livro que convida ao pensamento sem banalizá-lo ou facilitá-lo, sem vetar o acesso dos que não possuem a chave do jargão acadêmico. Sua estratégia parece ser a disponibilização da erudição ao leitor comum, com o qual simpatiza, e a simultânea complexificação do aparentemente banal e cotidiano, das supostas verdades já reificadas em nosso dia-a-dia.

A gama de possibilidades de leitura do título não é gratuita. Gustavo Bernardo fala de ficções céticas, mas também do próprio ceticismo como ficção, ao mesmo tempo em que seu livro pode ser lido (por que não?) como se fosse ficção por quem nunca ouviu falar em Vaihinger – formulador da oportunamente analisada “filosofia do como se.” A única exigência é a vontade de pensar e a capacidade de perguntar, acordadas com o autor desde a primeira página, bem como o destemor diante “da dúvida que nos deixa à beira do abismo. Quem sou eu? Se não sei responder bem a essa pergunta, fica difícil responder à seguinte: quem é você? E à seguinte: o que é real?”

Desafio aceito, ingressamos numa partida de xadrez em que pouco importa saber qual dos reis cairá ao fim. Provavelmente ambos. O verdadeiro desafio é suspender, ainda que momentaneamente, nossos conceitos endurecidos, nossas posturas pré-moldadas de vida, nossa visão cansada e envelhecida de um mundo em que a metáfora já há muito se tornou catacrese. Em conseqüência disso, reavaliar aquilo que julgamos saber sobre a necessidade, o papel e o significado da ficção – ou, melhor dizendo, de nossas ficções, as que criamos, as que representamos, as que nos convencem de sua veracidade.

Gustavo Bernardo, que já mostrou seus dotes de enxadrista no romance Lúcia e já abordou o ceticismo filosófico no premiado A dúvida de Flusser, parte aqui de um histórico do pensamento cético desde os pirrônicos, avaliando sua pertinência na contemporaneidade, para então seguir além. No trajeto, contrapõe referências filosóficas e literárias a exemplos do cotidiano, como um outdoor, uma conversa em família ou a análise dos filmes Matrix, Inteligência Artificial e Blade Runner – ícones da cultura pop.

No que talvez seja o ponto alto do livro, o capítulo “Ciência e Distopia,” Gustavo Bernardo promove uma discussão sobre o papel que a ciência e a religião vêm se atribuindo ao longo da história. Somente Auschwitz e Hiroshima parecem responder pela realização plena tanto do reino do “fator dogmático Deus” quanto do império do cientificismo – “o diabo empalidece comparado a quem dispõe de uma verdade, de sua verdade,” alerta Emile Cioran, citado pelo autor, que também recorda o artigo de José Saramago publicado dias após o 11 de setembro: “E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca.” Na conclusão de sua argumentação, Gustavo suspeita de que a ficção cética não seja “desesperançada, mas, apenas, desiludida. A diferença entre um atributo e outro não é grande – mas talvez seja suficiente.”

Por último, cabe mencionar a urgentíssima apologia da ironia, aquela que “nos defende do mais grave dos atentados à inteligência: a adoração de si mesmo.” Ao que nos perguntamos: será quixotesco falar contra a adoração de si mesmo, no mundo em que vivemos? Talvez tão quixotesco quanto defender a dúvida, valorizar a vertigem, optar por encarar o mundo como se tivéssemos um rosto de retrato cubista – de lado, mas com ambos os olhos abertos. De fato, é preciso coragem para propor o desafio, e mais ainda para aceitá-lo. Mas, quem sabe, somente assim encontraremos o antídoto para a arrogância, reconquistaremos o dom do assombro e da curiosidade e aprenderemos a respeitar a diferença.
 

CORREIO BRAZILIENSE, 30/10/2004.


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