A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


ficção cética



O PENSAMENTO POÉTICO DE GUSTAVO BERNARDO

Isabel Pires

  

É disso que se vai falar:
da permanência de enigmas e aporias.

Gustavo Bernardo

 

Quem acompanha o extenso trabalho de Gustavo Bernardo sabe da sua imensa – e nem um pouco cética – paixão pela literatura e pelo estudo do ceticismo filosófico. Seu último ensaio, A ficção cética, reunindo vocação literária – revelada desde os primeiros livros, como o romance infanto-juvenil Pedro Pedra, considerado altamente recomendável para jovens pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (1982) – e trabalho árduo – que, por sua vez, encerra o artesanato intelectual, próprio do ensaísta, e a paciência do arqueólogo, inerente ao pesquisador – tem como proposta fundamental justamente permitir o encontro entre ficção e ceticismo. Vale dizer, entre literatura e filosofia.

Alguém já disse que um bom escritor é aquele que conta, também, com a experiência – insubstituível – da sala de aula, isto é, a vivência do professor. Gustavo Bernardo, “dublê” de professor e escritor, parece confirmar essa tese em seu ensaio. Pois não é a voz do professor, preocupado com o diálogo, com a troca fecunda de idéias, que ouvimos, nesta passagem? “Uma pedagogia cética orienta os alunos a fugirem das sentenças categóricas recorrendo a termos suspensivos como ‘talvez’ (...). Essa escolha lingüística instaura uma dúvida interna ao pensamento, promovendo desse modo diálogo igualmente interno ao texto. Se as idéias debatem entre si, adiando o máximo possível a conclusão, o leitor desse tipo de texto se sente parte do diálogo, e não um sujeito intimado a concordar com ou a discordar de determinada opinião” (p. 28-9).

Outras vezes, é o timbre do crítico consciente que constata – em vez de, simplesmente, contornar – as aporias, ou impasses, do seu próprio objeto de estudo: “Alguns consideram hipocrisia dos céticos suspenderem todo o juízo mas se permitirem levar uma vida normal, constituir família, comprar casa e cachorro, ir à igreja. Essa crítica aos céticos é pertinente, porque aponta para uma possível falta de radicalidade na dúvida e na crítica céticas” (p. 43).

Outras vozes, muitas vozes, também comparecem ao diálogo convocado por Gustavo Bernardo. Do século III nos chega a voz de Sexto Empírico – o primeiro sistematizador de que se tem notícia da “bateria cética”, ou seja, a “máquina de guerra” do pirronismo, composta pelos Dez Modos e Oito Modos de Enesidemo, e pelos Cinco Tropos, de Agripa. Do Renascimento, escutamos Erasmo de Rotterdam e Montaigne. Com Descartes, Gustavo trava debate intenso sobre a “dúvida metódica”, que fundou a ciência moderna. E, finalmente, já no século XX, ouvimos as vozes de Bertrand Russell e Jean Baudrillard, a quem Gustavo convoca para auxiliá-lo na análise da contemporaneidade – tarefa que se afigura difícil, “porque o sujeito que descreve o fenômeno é parte do fenômeno descrito, isto é, o sujeito é condição do objeto” (p. 59), mas que se revela bastante produtiva, na medida em que o autor se afasta (e afasta o leitor) de conceitos desgastados e esvaziados ao extremo, como os conceitos de “pós-moderno” e “pós-modernidade”, e os novíssimos, e já irremediavelmente condenados à suspeita, de “hipertexto” e “hipermodernidade” .

Ficção e realidade

Ao abordar cada uma das espinhosas questões com que os incansáveis e “zetéticos”, ou seja, os “investigadores”, do ceticismo filosófico se defrontam, Gustavo Bernardo o faz ainda de uma maneira bastante peculiar, penetrando-as pelo viés da literatura, essa ficção que, “porque suspeita do real, produz sobre ele uma nova perspectiva e, conseqüentemente, uma segunda realidade” (p. 23). Porque se faz necessário não apenas o esforço de ver a ficção do ponto que se ocupa no “real”, mas, ao contrário, tentar olhar a realidade “como se” estivéssemos dentro da ficção – à maneira do teatro brechtiano, que promove a quebra da quarta parede do teatro naturalista, e à maneira, também, do cinema de Glauber Rocha, cujos personagens (o diretor incluído) olhavam fixo para a lente da câmera, como se olhassem nos olhos do espectador.

A ficção cética, perspectivizando o ceticismo por meio da ficção, e vice-versa, revela possuir uma dupla tarefa: de um lado, a de explorar – sem, contudo, ter a falsa pretensão de esgotar – as aporias do ceticismo filosófico, analisando-o ainda em sua historicidade, e, de outro lado, a de defender a validade deste mesmo ponto de vista cético para o terreno da teoria da literatura. Se o autor de A ficção cética defende admiravelmente a atualidade do ceticismo filosófico, lançando mão ora de argumentos pertencentes ao campo da mais pura ficção científica, ora recorrendo às mais recentes descobertas da ciência, por outro lado, as questões literárias – e ficcionais, de modo geral – tornam-se inusitadamente iluminadas pelo ceticismo.

Deste modo, ao trazer para o âmbito da filosofia as questões pertinentes à literatura, e, inversamente, abordar o ceticismo a partir da literatura, o ensaio de Gustavo Bernardo acaba por oferecer, igualmente, uma dupla contribuição ao debate contemporâneo em torno da literatura e do ceticismo filosófico – essa corrente herdada da filosofia dos gregos, mas que, pela própria “visão de mundo” que contém, jamais constituiu ou originou um “sistema” filosófico. Ao longo de sua história, como observa o autor, o ceticismo filosófico manteve-se antes como método de “suspensão do juízo” contra qualquer dogmatismo, tornando-se assim antídoto, e terapia, para a velha querela entre platônicos e sofistas, defensores, respectivamente, da “verdade transcendente do Ser” e dos “jogos de linguagem”, que permitiram, a Górgias, a formulação sobre o não-Ser.

Defesa da poesia

Alinhavando a questão ficcional (o espelho) e a questão do ceticismo (a moldura do espelho, e espelho também), porém, uma terceira questão perpassa o texto de A ficção cética. Por trás dos espelhos – quer seja o de Machado de Assis ou de Guimarães Rosa, o de Alice ou o da grande especulação filosófica ocidental –, parece estar, para Gustavo, a questão, ontológica, da linguagem. “Se a realidade fosse transparente à linguagem, a ficção não seria necessária” (p. 23), afirma ceticamente o ensaísta, lançando suspeita sobre aquilo que supomos como sendo “o real”. Para Gustavo Bernardo, para poder darmos conta desse “real”, dispomos, paradoxalmente, de um instrumento – a língua – que tem um caráter essencialmente “pletórico”, ou seja, excessivo e insuficiente, a um só tempo.

Vilém Flusser, filósofo tcheco-brasileiro fartamente estudado por Gustavo Bernardo em ensaio anterior (A dúvida de Flusser, Editora Globo), costumava dizer que a língua, que, no seu entender, cria e propaga realidade, vem da poesia. Assim também podemos compreender o diálogo proposto por Gustavo Bernardo, encerrado na conversação filosófica e literária que seus romances e ensaios buscam propiciar, e que espelhariam uma terceira preocupação: a preocupação com a defesa da instância criadora, em síntese, da poiesis. Dito de outro modo, A ficção cética, de Gustavo Bernardo, buscando dar continuidade ao diálogo proposto pelo autor em outros trabalhos, tem como preocupação básica “a proteção do enigma”, isto é, a defesa da poiesis frente a um mundo caótico – o mundo cada vez mais “moderno”. Defesa semelhante foi exercida também por Octávio Paz, para quem “a poesia é a memória feita imagem e esta convertida em voz. A outra voz não é a voz do além-túmulo: é a do homem que está dormindo no fundo de cada homem” (in: A outra voz, p. 144). Para Gustavo, “a idéia moderna de literatura respalda-se na afirmação prévia de um sujeito não sujeitado ao cosmos mas sim criador, sujeito de sua vida e capaz de dedilhar a harpa da intimidade. Pela literatura, o homem toca a si mesmo, o que a ciência não permite: quando esta fala do interior do homem não pode falar de nada muito diferente do que do estômago e do duodeno” (p. 175).

Com essas vozes, extremamente poéticas, de defesa da língua literária (ou seja, da poesia), nova questão – por sua vez suscitada pelo poema-ensaio intitulado “Luto” com que Gustavo fecha o seu A ficção cética – se coloca ao debate: e a poesia? De onde ela vem? É o tema que esperamos ver discutido por Gustavo Bernardo em um próximo ensaio.

Revista Alea, vol. 7, nº 2, 2005


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