A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


ficção cética



DA FICÇÃO CÉTICA À METAFICÇÃO

Luciano Câmara

 

A ficção cética (2004) pode e deve ser encarado como um marco na teoria da literatura brasileira. Nele, a natureza da (boa) investigação crítica literária é vista como essencialmente filosófica, exatamente ao contrário do que muitos de seus praticantes têm feito no Brasil, seja por acanhamento, contumácia ou ignorância. Sem inventariar nomes, podemos constatar que nossa maneira de abordar a ficção se dá recorrentemente através de enfoques reducionistas.

Reduz-se o fenômeno literário de várias formas. Ao abordá-lo pela via interpretativa, no intuito de sempre buscar o que o autor quis dizer e não o que disse apenas para, tautologicamente, fazer literatura e possibilitar a "correta" interpretação crítica. Reduzimo-lo também ao enfiá-lo, a esta altura do campeonato, em escolas ou compartimentos cronológicos, para que seja melhor dominado pelo crítico e também por professores sem tempo, sem saco, sem dinheiro, sem uma desculpa melhor para ensinar literatura da forma que a mesma demanda: filosoficamente. Reduzimo-lo ainda ao investigar impiedosamente a vida do escritor e seu tempo, em busca de conexões do tipo vida e obra, tempo e obra, transformando o espaço crítico em algo parecido com os tabloides britânicos, ainda que revestidos pela indumentária da erudição enciclopédica.

Muito provavelmente tais tipos de abordagem da obra literária sejam consequência de nosso esquizofrênico século 19, quando se buscaram conciliar as particularidades nacional e do indivíduo com os ventos racionais, catalogadores e científicos soprados pela Europa e eternizados com peculiaridade tupiniquim em nossa bandeira.

Neste cenário, A ficção cética talvez tenha soado por demais estranho aos ouvidos mais doutrinados. É como se constatar a inexistência de Deus aos 80 anos. O que fazer com quase um século de devoção (e privação)? Entretanto, a literatura talvez seja a manifestação artística que mais nos permita e estimule a investigação acerca do entendimento humano, usando o título de um dos trabalhos mais conhecidos de David Hume. E se, ainda com Hume, concordamos que "todas as ciências têm uma relação, maior ou menor, com a natureza humana", é lamentável que a teoria da literatura abra mão de fazer filosofia em nome ou em decorrência de abordagens reducionistas como as listadas acima.

A literatura não se propõe um mostruário de tipos e comportamentos humanos. Se assim fosse, o realismo seria o supra-sumo literário. É ao contrário e além. Se a abordagem do fenômeno literário implica uma postura filosófica, seu conteúdo carrega em si filosofia. A ficção parte da realidade mas, se busca retratá-la fielmente, falha enquanto arte e também enquanto clonagem. A arte literária admite a impossibilidade (e a desnecessidade) da cópia, parte da realidade para trabalhá-la e fornecer ao leitor (e por que não também ao escritor) uma percepção diversa da realidade e mesmo da literatura. Um será: será que a vida é mesmo assim? É o que Gustavo Bernardo exemplifica e esclarece em A ficção cética.

Seis anos depois, Gustavo adiciona (ou resgata) outro elemento esquecido por nossa tradição explicativa e reducionista do ficcional. Os elementos metaficcionais, assim como o conteúdo filosófico, figuram inevitavelmente na arte literária. Esses elementos podem variar de uma simples referência a outra obra de ficção até à sofisticação narrativa de Machado de Assis: "Trata-se de um fenômeno estético autorreferente através do qual a ficção duplica-se por dentro, falando de si mesma ou contendo a si mesma".

Gustavo entende a ficção como um espelho, mas não usa a metáfora no sentido corrente de reflexão reveladora: "Como sabemos há muito, o espelho da ficção não nos devolve a realidade refletida tal e qual: antes a inverte e depois nos leva a outro lugar. Este outro lugar se situa além da realidade de que partimos e além do espelho – além da ficção".

Sabemos há muito, mas aparentemente precisamos refrescar nossas memórias. Lendo, por exemplo, o capítulo IV de O livro da metaficção, a respeito da camisa-de-força realista na qual teimam encerrar Machado de Assis, deparo-me com a seguinte frase: "Pela insistência que nós temos mantido em relação à suposta condição realista de Machado de Assis, decerto nem os críticos nem os professores sabemos alguma coisa, apenas disfarçamos nossa ignorância com afirmações grandiloquentes e notas de rodapé."

A constatação do autor me permite dividir meu raciocício e alcançar dois aspectos de seu livro. Primeiro o conteúdo, depois a forma.

Machado de Assis, Cervantes, Hitchcock e outros ficcionistas de mesma natureza (ou seja, de naturezas peculiares) são resgatados por Gustavo da perigosa moléstia do que posso chamar de devoção irrefletida. Tais como divindades, os caríssimos citados acima são hoje alçados às alturas por conta do consenso acima de tudo e contra toda a argumentação em contrário. Ou seja, diferentemente das divindades, alçados pelos argumentos que mais lutavam contra. Assim, somos alertados pelo professor e teórico da literatura de que precisamos desaprender a lição que nos passaram sobre Machado de Assis e passar a ouvir a lição deixada por Machado. Para isso não precisamos encarafunchar sua vida ou escrutinar seu tempo. Basta ler o que ele nos deixou por escrito, em sua crítica e em sua ficção. Realismo e Machado de Assis se misturam tanto como água e azeite, mas não é o que estamos acostumados a ouvir e ler por aí.

A falta de decoro para com o escritor carioca pode ser constatada em qualquer pequenina biblioteca particular que contenha dois ou três volumes de nosso escritor mais estudado, mais analisado, mais exaltado e ao mesmo tempo mais desmentido por seus estudiosos, analistas e exaltadores. Basta correr os olhos nas introduções analítico-esquemáticas ou nos posfácios bem-intencionados de suas centenas de edições. Dificilmente você não encontrará pérolas como: "As experimentações com o foco narrativo marcam a fase realista de Machado de Assis. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, ele apresenta um 'defunto-autor'. Esse aparente absurdo confere ao livro um realismo nunca antes visto na literatura brasileira. É exatamente por estar morto que o autor-narrador pode contar, com um realismo cruel, as perversidades, covardias e o anti-heroísmo que compõem tanto a sua personalidade quanto a dos que o rodeiam."

O trecho em si, de responsabilidade de Frederico Barbosa e Mônica Tarantino, daria pano para muitas mangas e muitos parágrafos, mas me limito a afirmar que uma abordadem precisa do que de mal se tem feito à memória pessoal e literária de Machado, em nome da bandeira realista e da sanha explicativa, se encontra em O livro da metaficção. Isso me permite passar para o segundo aspecto de seu livro que muito me chamou a atenção: pequenos detalhes formais que presenteiam o leitor. Que acrescentam à fecundidade de suas reflexões teóricas o prazer de uma leitura leve e corrente.

Um livro fecundo não deveria ser (e de fato não o é) antônimo de livro leve e corrente. Mas parece que em nosso meio a fecundidade de um livro se mede pela quantidade de vezes que precisamos relê-lo para chegar ao que o autor quer dizer ou para alcançarmos tudo que ele conseguiu condensar em suas pesadas centenas de páginas. Relemos não por prazer, mas pela busca desesperada por encontrar uma fresta em seu hermetismo. O pobre leitor precisa se virar para dar a alguns textos que andam por aí, por vezes figurando em bibliografias de importantes concursos da área, o significado que seu autor grandiloquente pretende claro e cristalino. Ou pior: o significado intencionalmente posto sob obscuridade.

Em direção diversa, Gustavo alcança em O livro da metaficção o que já estava entrevisto em A ficção cética. Neste sentido, o último livro é uma evolução. Melhor seria dizer: um aperfeiçoamento.

Poderiam contra-argumentar com o 'estilo'. Que a clareza ou o hermetismo seriam estilo de um ou outro escritor. Decerto. O estilo existe e acaba por se impor. O que não consigo compreender é por que alguns autores refinam seus estilos em busca da clareza enquanto outros buscam cada vez mais a criptografia. Como diz o próprio Gustavo, visivelmente incomodado com a obscuridade de certos pensadores, "ultimamente venho achando que a clareza deveria ser a obrigação do filósofo", ou seja, daquele que pretende aclarar o objeto em estudo. Um filósofo obscuro é em si um contra-senso. Talvez aí esteja uma das chaves para a nossa frágil filosofia, literária ou não. Temos pouquíssimas abordagens filosóficas porque os obscuros já pensam estar fazendo filosofia com o uso da linguagem cifrada.

O 'estilo' de Gustavo Bernardo se aprimora a cada livro, a cada ensaio, mas não é o único responsável pela sensação de aconchego que nos acompanha leitura adentro. Alguns cuidados com o leitor ajudam e muito. Um deles é a exclusão sumária das citadas notas de rodapé, já expulsas em A ficção cética e caras a todo bom 'filósofo' obscurantista, que às vezes, as apresentam em suas variantes mais malévolas: as notas de fim de capítulo ou de fim de livro. Notas de fim da picada! Aquelas que nos obrigam não a olhar para o pé da página, mas a cortar completamente o ritmo da leitura e o raciocínio (já dificultado pelo estilo opaco de muitos de seus cultores). Notas que nos obrigam a lançar mão de diversos marcadores de página ou a espalhar estrategicamente os dedos da mão direita para diminuir a procura pela nota 44 do subítem 12 do capítulo 6, pois as notas, os subitens e os capítulos são muitos.

Fico imaginando se o que é dito em uma nota, qualquer que seja, não poderia ser dito no próprio corpo do texto, como faz Gustavo e outros seres misericordiosos para com seus leitores. Ou será que o número de notas também é um índice de análise de fecundidade acadêmica pertencente ao mesmo sistema onde figura a taxa de releitura em busca da compreensão? Seja como for, sempre desconfiei que o texto de uma nota de rodapé que não pode ser absorvido pelo texto em si provavelmente não deveria estar ali. Claro que há exceções, como as notas do editor, geralmente ocorrendo em traduções ou quando o texto original já se encontra muito distante temporalmente da edição em questão. Mas estes casos são de natureza diversa daqueles que aqui pretendo questionar.

Se uma nota é de natureza explicativa ou ilustrativa certamente ela poderá ser incorporada ao texto. E se ela é apenas referencial, aí é que não se justifica. Sua recorrência se transforma em monumento ao mecanicismo acadêmico, como as dezenas de notas em sequência que repetem id., ibid., ou op. cit. Sem comentários. Não! Não é que eu não tenha comentários. As notas é que não têm!

Certamente é necessário tratar as fontes com honestidade. Para isso foram feitos os parênteses ou os colchetes. A solução empregada por Gustavo, de citar fonte, ano e página entre parênteses em O livro da metaficção, e entre colchetes em A ficção cética, é clara, rápida, direta e principalmente honesta. Prefiro os colchetes porque, não usuais, ressaltam a escolha metodológica do autor, mas os parênteses também dão conta do recado. Portanto, o argumento da fonte em benefício das notas de tiro no pé também não se sustenta.

O livro da metaficção reúne, além da abordagem filosófica que resguarda a literatura enquanto arte, a clareza e o cuidado com o receptor. Gentilezas que podem ser feitas por quem não tem o que esconder ou disfarçar por trás de notas e grandiloquência.


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