A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


ficção cética



A FICÇÃO CÉTICA

Paulo Sérgio Nolasco dos Santos

 

O livro do professor Gustavo Bernardo, A Ficção Cética, que acaba de ser publicado, oferece aos aficionados por literatura, filosofia e crítica literária um feliz encontro entre os temas tratados e o mais genuíno e inteligente gesto do ensaísta arguto e perspicaz, já consagrado pelos leitores que há muito admiram os vários escritos do Autor. Conhecemos Gustavo Bernardo desde a publicação do clássico A redação inquieta, livro imprescindível e de presença obrigatória nos cursos de Letras, especialmente no ensino da arte de escrever, das tradicionais aulas de redação. Sem risco de dogmatismo, tenho testemunhado o formidável consenso no meio acadêmico que o livro tem alcançado, particularmente pela forma de abordagem que valoriza a escrita como fruto do ato de pensar, de refletir, resultado do processo de “argumentação” - mola propulsora da produção de textos inteligentes. A ausência de reflexão e de capacidade para sua correta expressão continua sendo o mais grande problema dos estudantes, aspirantes ao vestibular e depois à redação dos trabalhos acadêmicos, bem como da maior parte de nossos professores, formados numa indigente tradição educacional, pouco eficaz na sua tarefa de ensinar a escrever e a pensar.

Essas qualidades, reconhecidas na tradição dos trabalhos de Gustavo Bernardo, são agora exponencializadas em seu livro A Ficção Cética, obra da maturidade do escritor, filósofo e profissional da educação que vivenciou todos os níveis de ensino, desde o ensino fundamental até os cursos de mestrado e doutorado na UERJ, onde é professor de Teoria da Literatura. Esse livro nasceu mais diretamente de um outro livro de Gustavo, A dúvida de Flusser, publicado no ano de 2003, que recebeu o Prêmio Jabuti – Menção Honrosa, na categoria “teoria da literatura”.

No momento em que escrevo esta resenha, ainda estou a ler A Ficção Cética no “exemplar para análise”, que me foi ofertado pela Editora Annablume. Impressionou-me, na linha dessa resenha, o elevado nível de análise que o Autor empreende no tratamento do tema (a filosofia da linguagem) e na leitura inteligente de um poderoso corpus da literatura, canônica ou não, que vai de Guimarães Rosa a Lewis Carrol, Shakespeare, Vilém Flusser, a crônica de José Castello, e o depoimento da costureira Adeilde de Moura. Por sinal, é ao mestre Guimarães Rosa que Gustavo recorre já no primeiro capítulo do livro, retomando o tema do conto-ensaio “O espelho”, para, em seguida, desenvolver sua reflexão muito bem apoiada no célebre Alice no país das maravilhas, de Lewis Carrol. Nota-se, portanto, o quanto o tema do “espelho” vai se tornando o móbile, tanto da reflexão, da forma de abordagem propriamente dita, que constitui espécie de “porta de entrada” e ancoragem escolhida pelo leitor-pesquisador, quanto eixo reflexo, convexo, da matéria aí tratada que é a linguagem e o pensamento (a escrita) como forma do próprio ato cognitivo. Assim, as surpresas diante desse “espelho”, retomado a partir de Alice, abrem por assim dizer a cortina da linguagem e do ser, do ser na linguagem, do conhecimento, e também do aspecto lúdico que emaranha o homem, o lápis e a caneta durante o ato de escrever, de pintar, desenhar ou colorir o mundo da compreensão e do estar no mundo. É filosofia; a sábia senhora que tem por ofício oferecer respostas as mais intricadas perguntas que continuamos a fazer, como Alice diante do espelho-tela que refletia a esfinge do próprio rosto.

O seguinte trecho de Lewis Carrol, estampado na orelha de A Ficção Cética, é emblemático dessas questões: “Era uma vez uma coincidência que saiu a passeio em companhia de um pequeno acidente. Enquanto passeavam encontraram um explicação, uma velha explicação, tão velha que já estava tão encurvada e tão encarquilhada que mais se parecia com uma charada.” Como se pode notar, esse livro de que tenho o prazer de resenhar é, ainda mais do que um convite à leitura estimulante, um encontro com a sabedoria que se reflete no convívio com a história do homem e da civilização, da crença na perfectibilidade progressiva do espírito humano, como desejava a ilustre Mme. de Stäel ao falar da literatura e das suas relações com a raça e o meio. Desenvolvimento constante da inteligência, a serviço da possível e desejável convivência entre os homens de que o nosso tempo clama em busca de luz, num caminho por onde trilhar com alguns valores comuns à sobrevivência da grande tribo. Com o cuidado de que nos adverte a frase de Shakespeare, "somos feitos da matéria dos sonhos", aproximando o estado de sono ao de vigília e que se torna, por assim dizer, o paradigma par excellence deste livro de Gustavo Bernardo.

Para mim, que acompanho o trabalho de Gustavo Bernardo, com suas várias obras publicadas, inclusive como escritor de literatura infanto-juvenil, além de participante ativo e membro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística, mais o fato de tê-lo convidado várias vezes para ministrar conferências na UFMS, é um grande prazer e testemunho que dou pelo privilégio de noticiar a publicação de mais este título de sua significativa produção intelectual.

 

O PROGRESSO, Dourados (MS), 18/10/2004.


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