A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


ficção cética



DÚVIDA QUE TORNA O JOGO FICCIONAL E O PRÓPRIO MUNDO MAIS INTERESSANTES

Sílvia Regina Pinto

 

A Ficção Cética, livro de Gustavo Bernardo, recentemente lançado pela Annablume, demonstra como a ficção, o objeto de estudo, e o ceticismo, o ponto de apoio desse estudo, não escapam ao paradoxo que desconfia da realidade ao mesmo tempo que propicia a condição de sobrevivência da própria vida real.

O ensaio nos apresenta uma brilhante análise configurando os estudos céticos contemporâneos, a partir da sentença cartesiana que afirma que pensar e duvidar são atitudes análogas. Se nem nos espelhos podemos nos ver rigorosamente como somos, então a atitude dubitativa sobre todas as coisas pode nos levar à dúvida pensante, e nada relativista, que nos torna críticos a ponto de duvidarmos até da própria dúvida, à procura de pontos de equilíbrio na queda de braço entre realidade e ficção, jogo de muita complexidade que leva à rejeição dos perigosos pensamentos únicos e da crença numa verdade acima de qualquer outra.

Ao correr dos nove capítulos, o leitor pode lidar com os mistérios dos espelhos tanto quanto andar na corda bamba entre céticos e dogmáticos no exercício de um equilíbrio ambiguamente razoável. Esse leitor verá também como paradoxo e ironia são analisados em relação aos jogos da representação que misturam real e ficcional e passará por uma trilogia de filmes cult, como Metropolis, Fahrenheit 451 e Blade runner, estruturas armadas para a dúvida, que constroem utopias em negativo, colocando alguns macaquinhos a assombrar nada mais, nada menos, que o sótão da própria ciência. O leitor encontra, ainda, um mergulho nas dúvidas metódicas dos filósofos franceses Descartes e Montaigne, parte em que o autor discute questões relativas às agruras do sujeito, cindido entre a construção de sistemas dos quais seria o centro racional ou ocupado na errância acidental de um caminho sempre duvidoso entre os centros e as periferias.

Numa leitura do fenômeno trágico, até chegar a Shakespeare, Gustavo procura demonstrar que o mundo faz-se de ser e não ser, isto é, mesmo sendo o real mais do que puramente linguagem, ainda assim, o trágico insiste em nos dizer que a linguagem manipula sempre, reformando ou deformando a natureza e o mundo. Assim, a maldição familiar que decreta o destino trágico dos heróis gregos, na atitude estética suspensiva e catártica que os transforma em bodes expiatórios das culpas dos espectadores da tragédia, é analisada em confronto com o roteiro de maravilhas que pode ser criado a partir do momento em que se percebe que o homem é o fundador privilegiado, porém auto-irônico, de todo o maravilhoso que oscila entre duas certezas opostas: a de Antígona e a de Creonte.

O ceticismo, como analisado no texto, ainda que se alimente parasitariamente do conflito das filosofias, não se transforma num negativo filosófico, e, muito ao contrário disso, em sua recusa de uma pretensiosa aproximação da realidade, escolhe a invenção de mundos sociais possíveis. Gustavo demonstra como um processo de fabricação de narrativas acaba por confundir-se com o da construção de mundos virtualmente plausíveis, até porque não se poderia descrever uma objetividade pré-narrativa do mundo, sem narrá-lo. Desta forma, não desconhecer fenômenos e objetos do real, isto é, da vida cotidiana, se alia à maneira de percebê-los, como itens inseparáveis da circunstancialidade de apenas um dos inúmeros mundos possíveis.

Há, de entremeio com as discussões céticas que o texto levanta, uma verdadeira história do ceticismo e das palavras-chave que constituem sua razão, mas o livro acaba nos fascinando pelo agenciamento de uma imensa rede hipertextual de idéias, textos, conceitos, prosas e versos relacionados ao assunto referido, que levam o leitor a transitar por roteiros inusitados, por exemplo, do Quixote a Matrix, passando por Shakespeare, Carroll, Machado de Assis, Borges, Bergman e muitíssimos outros mestres que fizeram da dúvida um descolamento ficcional e do mundo um lugar muito mais interessantemente habitável.

Enfim, no último capítulo, o leitor se surpreende ao perceber como, no jogo ficcional que institui a dúvida, podemos negar a morte ao menos por um momento, como se pudéssemos vencer a partida que vivemos todos a jogar com ela. Passamos a vida a rolar nossos rochedos, em dúvida a respeito de quem somos, para afinal descobrir que nossa luta por identidade, por verdade, apenas nos leva à proximidade dessas coisas. Mas, como nos diz Camus, é preciso imaginar Sísifo feliz.

 

O Globo, 03/10/2004.


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