A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


filha do escritor
     



Trecho:

"Ainda estou aqui. Você também ainda está aí. Mas já respiro um pouco melhor. Leonela veio me dizer que Lívia dorme bem, aparentemente relaxada. Não é hábito da minha dedicada enfermeira vir me contar como os pacientes estão dormindo, mas compreendo seu cuidado. O que me espanta é o tom de preocupação, a delicadeza com que ela fala de Lívia e, principalmente, a delicadeza com que de repente ela está falando comigo. Não identifiquei nenhum tom de ironia, mas quem sabe.

Parece que a filha do escritor está mexendo com o hospital ou, pelo menos, comigo e com Leonela. Já respirando assim, um pouco melhor, posso pensar por que estou tão envolvido.

Lívia é bonita, sim, mas não é mais bonita do que muitas outras mulheres que conheci, pacientes ou não. Aliás, é muito difícil que uma mulher paciente de um hospital psiquiátrico seja bonita; se foi um dia, a doença normalmente terá devastado a sua beleza, o que não é o caso de Lívia.

O que me impressiona é outra coisa, de que venho evitando falar.

Desde que ela chegou no hospital, pedindo para que a hospedássemos até que o seu pai a encontrasse aqui, fiquei com a sensação, ora incômoda ora prazerosa, de que a conhecia desde pequena – ou melhor, desde que eu mesmo era pequeno.

Enquanto ela alucinava com o seu filho Luís, o menino imaginário, eu me sentia dentro de um sonho, eu me sentia encontrando a pessoa que sempre procurei pela vida. Que essa pessoa seja, digamos, ligeiramente louca, permanece no canto do cérebro como uma ironia cruel do destino. Na maior parte do tempo e nos demais recantos do cérebro, eu me sinto feliz de estar aqui, neste hospital, como nunca havia me sentido antes.

A junção da minha Lívia, se me permite o possessivo, com a Lívia de Machado de Assis, aquela do seu primeiro romance, me dá um personagem diferente. Não ria, mas é como se eu estivesse dentro de um livro e por isso mesmo minha vida tivesse passado a ser mais intensa do que a vida que eu tinha antes na realidade, fora do livro. Chego a achar que a vida sem Lívias é que é uma vida de marionete, que a vida verdadeira é essa, no meio das histórias do escritor e das alucinações emocionantes da minha paciente.

Ah, sou eu que estou alucinando agora? Permita-me citar o doutor Giovanni Jervis, que no seu livro mais importante afirmava peremptoriamente: “só uma minoria dos casos de alucinação se deve a uma disfunção neurológica, isto é, a uma espécie de distúrbio elétrico-cerebral. A alucinação é próxima e afim da percepção cotidiana”.

Dizendo de outra maneira: tanto pode ser que a forma como vejo Lívia seja uma alucinação quanto que eu mesmo seja a tua alucinação. Sim, a tua, não a de Lívia, usei a segunda pessoa para desfazer qualquer ambigüidade. É, alguma hora eu mesmo vou acabar por interná-lo, meu amigo.

As alucinações nascem dos movimentos da mente e da memória. Certa feita o doutor Jervis, que acabei de citar, experimentou mostrar várias fotos a um grupo de médicos, não de pacientes. Numa das fotos uma pessoa de chapéu lia um livro de capa verde. Depois de passar as fotos ele perguntava se a pessoa que estava lendo o livro de capa azul usava chapéu. Não só a maioria das pessoas respondia afirmativamente, sem notar o erro da pergunta, como depois quase todas se recordavam de um livro de capa azul, incorporando o erro nas suas recordações. Sua conclusão desse experimento foi de que a memória reconstrói e portanto fabula a realidade, com a ajuda das palavras alheias. Ora, já não vemos aqui o princípio da alucinação?

Eu mesmo posso fazer uma experiência muito simples com você: basta lhe dizer que tive a impressão de ver um piolho passeando pelo seu ombro. Certo, olhar para o ombro e passar a mão para afastar o piolho, que acabei de inventar, ainda não é uma alucinação, apenas uma reação. Mas por que você está coçando a sua cabeça? Essa coceira repentina é ou não é uma alucinaçãozinha? Parece-me que sim...

Mas dizer que Lívia então é o meu piolho não passa de, perdão, sacanagem sua. Ela não sai da minha cabeça mas não é um piolho, pára de forçar a metáfora para me perturbar. Acontece que com Lívia eu me sinto em casa, se me entende. Vivo neste hospital há tanto tempo que ele se tornou na prática a minha casa, mas nunca me senti em casa aqui até a chegada dela. É como se um fantasma tomasse forma, como se uma sombra fizesse corpo, como se a mentira tantas vezes desejada virasse verdade."


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