A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


filha do escritor
     



HOMENAGEM QUE FOGE DA BANALIDADE
Luiz Horácio

 

Efemérides são fundamentais para o exercício do oportunismo. Não seria diferente com o centenário de Machado de Assis. É impressionante a quantidade de títulos que têm Machado como centro das atenções. Noventa e nove por cento não acrescenta nada ao que já se sabe sobre autor e obra. Chega a ser constrangedor. Da reedição de contos: os melhores, os esquecidos, os não tão bons, à velha questão sobre a reputação de Capitu e outras indagações de semelhante relevância, as editoras vão faturando e egos simplórios são inflados. Não vamos nem citar a quantidade de especialistas em Machado que falam do escritor como se tivessem convivido com ele. Chegam a afirmar o que Machado pensava sobre sua cor de pele, o que imaginava que estavam imaginando a seu respeito. De assustar.

Na contramão desse oportunismo voraz temos A filha do escritor, instigante e original romance do escritor e professor Gustavo Bernardo que merece ser lido e relido não por ser mais um a mencionar Machado de Assis, mas primeiramente por se tratar de raro exemplar fruto da criatividade e arquitetura literária a serviço de uma história interessante ao leitor, da primeira à última frase.

Não se trata de força de expressão, é isso mesmo. Raridade é o termo exato. Em A filha do escritor, Gustavo Bernardo foge do didatismo soporífero que impingiu ao seu romance anterior, Reviravolta, onde conceitos filosóficos e científicos truncavam o desenrolar da trama. Lúcia, seu romance lançado em 2000, apresenta essa característica. Nele Bernardo recupera a personagem Lúcia, de Lucíola, o romance de José de Alencar. Agora o didatismo também se faz presente, só que dessa vez em perfeita sintonia com a história de Lívia e do suposto dr. Joaquim. Vícios do ofício? Não importa. Em A filha do escritor, esse viés pedagógico se torna de suma importância.

A solidão, marcante em Reviravolta, também desempenha papel importante no romance em questão, lá retratada no passeio dos irmãos pela cidade fantasma, aqui potencializada nas descrições do hospital, suas intermináveis paredes brancas, além do isolamento transparente que acomete os pacientes psiquiátricos, no espelho a fazer às vezes de supervisor ao dr. Joaquim, ou anteriormente quando aluno na faculdade de medicina, e ainda o uísque: “uísque demais é como espelho demais”

Vamos à trama. Convém ser breve pois divulgar pistas pode atrapalhar o melhor do melhor de A filha do escritor: o seu desfecho.

Lívia, de beleza irretocável, decide “hospedar-se” numa clínica para doentes mentais em Itaguaí; não está só, leva pela mão seu filho imaginário de seis anos, Luís. Diz ao dr. Joaquim que marcara encontro com seu pai, Machado de Assis, naquele “estabelecimento”. Jovem, Lívia traz ao dr. Joaquim sua beleza perturbadora e a convicção de que seu pai é o famoso escritor Joaquim Maria Machado de Assis, morto há cerca de cem anos.

Ao longo da narrativa Gustavo Bernardo, aqui fica à mostra o professor, vai ministrando aulas sobre três livros de Machado de Assis, todos em perfeita sintonia com A filha do escritor: Ressurreição, Dom Casmurro e O Alienista.

Da convivência de Lívia com dr. Joaquim, o leitor visualiza o insuportável desvanecimento do ser frente à falta de amor, mas mesmo assim lança mão de meios para tentar a sobrevivência: a memória, a melancolia, a sublimação de supostos afetos perdidos. E Deus? Não seria uma tábua de salvação, a última esperança? Não, em A filha do escritor não resta espaço a outras ficções. Aqui, o patético sangra.

Embora as coincidências evidentes, o fato de Lívia também ser o nome de personagem no romance Ressurreição, o paralelismo fundamental se dá com O Alienista, quer pelas personagens, dr. Bacamarte e dr. Joaquim, pelas semelhanças entre as casas de saúde, pela loucura e pelo pessimismo presente em ambas as obras. Ao apontar o pessimismo nos referimos à precariedade da condição humana, ensejando desse modo uma literatura fruto da angústia de viver. Em Machado e em Gustavo Bernardo com A filha do escritor, essa angústia se disfarça, com raro talento, em ironia. Como bem disse Machado em Memórias póstumas de Brás Cubas: “Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia.” 

O ceticismo também pode ser um dos significados do pessimismo e aqui, assim como o didatismo citado anteriormente, temos mais um exemplo da coerência e da unidade ao longo da obra de Gustavo Bernardo, na qual consta o título A ficção cética. Desse modo podemos dizer, sem medo do erro, que sua obra está bem amarrada. Cabe observar que, em A filha do escritor, o psiquiatra, dr. Joaquim, pede a suspensão do nosso juízo para que conheçamos a bela Lívia, e suspender o juízo é navegar rumo ao ceticismo pelas águas da ficção, esse rio sombrio de representações inconscientes. 

A filha do escritor é romance raro, de fechar o livro e aplaudir.

 em O Globo, 29/11/2008


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