A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


filha do escritor
     



A FILHA DO ESCRITOR

Marcela Castelli

 

A Filha do Escritor me conquistou primeiro pelo título, depois pela borboleta – ou mariposa - na capa. Eu precisava descobrir quem era essa filha, quem era o escritor mas nada me preparou pro que viria a seguir e pro quanto as palavras do médico-bibliotecário e seus diálogos com o amigo imaginário (que não deixava de ser também o leitor, no caso eu) iriam criar uma vertigem estonteante na minha cabeça.  Li de uma vez só. Depois precisei ler de novo. Reviravolta é ainda o seu livro que mais gostei, mas meus amados e emblemáticos Pedros dividem agora o lugar com Lívia. Com Lívia e mais um Pedro pra galeria, claro. Pedro Joaquim ou Pedro-Quase-Médico. Ele vem se juntar aos seus reflexos de outras dimensões literárias: Pedro Pedra, Pedro Velho, Pedro Novo e aquele a quem me refiro como Pedro-Faca.

 

Bom dia, meu nome é Lívia. Sou filha de Machado de Assis, o escritor.

 

Lívia era tão magnética, com sua insana convicção no impossível. A curiosidade causada pelo mistério de quem era ela de verdade, as suposições de seu médico, digo, bibliotecário, tão técnicas, tão profundas, que em nenhum momento em minha primeira leitura supus que a loucura fosse dele e que Lívia fosse tão invisível quanto Luís. Não podia imaginar que ela tinha, de fato, saído das páginas de Machado de Assis pela esquizofrenia de um leitor.

Na segunda leitura, já conhecendo a condição de Pedro, pude perceber a ironia dele ter usado para quebrar a ilusão de Lívia justamente o que poderia ter quebrado a sua: a literatura. Desconfiou do quão profundamente ela parecia ter estudado a obra daquele que dizia ser seu pai. Havia de ser professora, ou ao menos estudar para isso. Talvez se tivesse suposto que podia também ser bibliotecária... mas não. O seu próprio desligamento da realidade é cuidadosamente calcado no dela.

A esquizofrenia de Lívia servia como padrão de comparação: se Lívia tenta dobrar a realidade aos seus devaneios e eu tento trazê-la para a realidade, sou são. Se sei que ela não o é, certamente eu o sou. Mas também sua rede de segurança foi fabricada. Não era Lívia que conhecia Machado, era ele que para se proteger, fingia para si próprio a primeira leitura. Reafirmava sempre não ter hábito de ler ficção, não lhe interessava sair das obras médicas, técnicas. Só havia lido Dom Casmurro e mal se lembrava. Só leu Ressurreição para tentar trazer Lívia a si. Mesmo na negação, tinha necessidade de refazer a primeira leitura, aquela que nunca volta, a que surpreende e faz descobrir algo novo. Provavelmente amou Lívia em sua primeira leitura, quando estudante ou bibliotecário na Gamboa. Amou a criação, a filha mesmo, de Machado. Quis ele mesmo ser o escritor. Quis preencher o vazio que Félix deixou na vida da viúva mas não podia. E mesmo em seu devaneio continuou sem poder. Lívia era sombra, projeção. Não podia nunca ser uma pessoa inteira.

 

Então, ela me explicou que seu pai também era Joaquim. Mas a senhora não disse?...., sim, Machado de Assis: Joaquim Maria Machado de Assis. Ah, vivendo e aprendendo. Agora eu sabia o nome completo de Machado de Assis, para o que quer que isso me servisse.

 

Sua tentativa de curar Lívia, ao mesmo tempo que serve para fugir de sua própria situação, não deixa de trazer em si também os fundamentos da destruição de sua própria ilusão. Mesmo na negação de tudo que sabe tão bem, até o nome do escritor pelo qual é obcecado, não consegue deixar de escolher para si o mesmo nome nesta representação mental.

 

Meu sobressalto era óbvio: por um instante eu a via não como médico, mas como homem.

 

Queria ser tudo para Lívia: pai, criador, amante, médico e assim, um pouco Félix também. Queria curá-la, mas não podia, porque se chegasse ao ponto certo, desmascaria a si próprio. Queria possuí-la, mas não podia, porque ela era ele, uma sombra na parede. Criou interrupções protagonizadas por Leonela diversas vezes para escapar do espelho da própria insanidade. A enfermeira é como que o erro no sistema, a alavanca para a realidade, que espia, fiscaliza e censura o mundo da fantasia.

Em sua indecisão das regras da realidade da Casa Verde, às vezes quase podia ver e crer que Luís era real. Afinal, nada era. Luís era o que lhe dava certeza que Lívia estava louca e ele são. Mas Lívia era sua criação, por isso a confusão sobre a existência do menino que brincava sob as amendoeiras.

No capítulo III, o título "Alma Fendida" me fez, é claro, na leitura ingênua, pensar que era a alma de Lívia. Agora o vejo como uma apresentação clara da própria alma confusa de Pedro: primeiro diz que não vai repetir que Lívia o perturba, na prática fazendo exatamente isso. Depois prossegue em seu devaneio de negar sua própria bibliofilia e a obsessão machadiana. Descreve, mostrando extenso conhecimento teórico de sua própria condição, o quadro clínico geral de um esquizofrênico, ressaltando que alucinações visuais não são comuns, mas acontecem. Lívia teria criado um menino imaginário. Ele criou não só ela e por conseqüência, o menino. Criou toda a ilusão da jovem, sua própria posição de destaque como diretor do hospital, homem são e respeitado. O homem que cria vai ruindo aos poucos, é claro.

Deixa claro que o enaltecimento do próprio mundo interno dos esquizofrênicos, segundo Freud, os deixa inacessíveis à psicanálise. Assim, mais uma vez dá mostra de querer proteger seu zoológico de vidro e ao mesmo tempo estilhaçá-lo. Ele quer ser o médico de Lívia, que é sua doença e por extensão seu próprio médico.

 

Como é que eu vou achar a família de Lívia? Como é que eu vou achar o pai verdadeiro de Lívia? E se achar, como vou curá-los, e de quê, para então curá-la?

 

O pai de Lívia, é claro, era ele próprio. Está aí a busca pelo próprio eu fragmentado. Era pai mais até do que Machado, pois essa Lívia era corruptela da outra. A ironia do diálogo da consulta onde Pedro tenta fazer a moça se trair quando pergunta pelo ano de nascimento, é para mim, um dos mais bem cunhados trechos do romance. O próprio suposto médico se espanta com a resposta: eles é sempre o meu pai. Eles porque Joaquim, ou Pedro, está em tudo nessa realidade. Nela, na sala, na sua posição de médico. Pedro é, de fato, eles.

A idolatria e incorporação de Machado chega ao ponto de Pedro começar a gaguejar. E para tentar mascarar isso para si mesmo, toda vez que o faz, pragueja para si mesmo, se irrita, como se fosse característica sua. Mas o faz com secreto prazer, se metamorfoseando no escritor, com quem dialoga ao longo de todo o romance. Também diz ter nascido no morro. Incorpora ao discurso e a si próprio características físicas e históricas da vida de Machado de Assis.

 

Pedro sempre é eles. Pedro é tudo. Lívia é tudo. Pedro deseja desesperadamente não ser Pedro, mas Joaquim. Logo, o quase-Joaquim sempre é eles.

 

Essa beleza é ao mesmo tempo familiar e estranha: familiar porque lembra as salas de visitas nas casas antigas, e estranha porque parece pertencer ao terreno do sonho.

Do meu sonho, sim.

Novamente admite para Joaquim, para si mesmo, que Lívia é sonho.

Admite sua atração por Capitu. Justifica para si próprio conhecê-la de uma leitura obrigatória na escola, não da leitura apaixonada. Mas precisa, mesmo em seu personagem, trazer Capitu para o jogo. Talvez ela fosse a próxima ilusão, quando a de Lívia se quebrasse completamente. Talvez fosse então ela que o procurasse, precisando desesperadamente do doutor.

Nesse livro também percebi, com beleza e contexto literário, temas que depois explorou em “O problema do realismo de Machado de Assis” como a relação difícil que muitas pessoas desenvolvem desde cedo com a obra do autor. Professores que se sentem compelidos a indicá-lo sem eles próprios terem podido aproveitar a riqueza do universo machadiano. Alunos que têm o primeiro contato com o autor como se este fosse um faraó inalcançável, algo a reverenciar com distanciamento, jamais se relacionar. E nessa leitura que é apenas convenção, todos perdem.

Pedro reflete sobre o perigo do espelho. O perigo de ver seu verdadeiro eu. O espelho que pode se quebrar. Fragmentar o eu. O perigo de virar o monstro que se vê, de ir para o outro lado, como ele de fato foi. Diz que precisa da visão do amigo que o escuta, o amigo também imaginário, a visão que é sua também, que nem requer resposta. “Uísque demais é como espelho demais.”

Quando descreve para o espelho, digo, para o amigo, sua leitura de Ressurreição, tenta ao máximo se distanciar e ao mesmo tempo, assim como quando falou de Capitu, necessita dar voz a sua obsessão, falar do que o alimenta e ressalta: o livro tem tanta vida que dói. Tem mais vida ainda pra ele, que construiu uma nova para si tentando emular um pouco do que leu.

Mas a Lívia do Machado é mais difusa ainda do que a nossa paciente; se eu conseguisse colocá-la frente a um espelho, o espelho devolveria uma imagem trêmula, se me entende.

Em cada instrumento da sua fantasia, ele coloca um pouco de si, um pouco do todo que compõe seu eu real e inteiro. Diz, por exemplo, que desconfia que o Poste seja um caso de loucura derivada de excesso de leitura. Como enlouqueceu em meio aos livros, põe neles a culpa e em cada um desses pequenos eus, procura a própria cura.

Adorei me reencontrar com o doutor César! Ah, genial! Outro doutor que certamente de doutor não tem nada. Assim como a carta da leitora, como você mesmo apontou, devia ser criação do mesmo rosto por trás da alcunha médica. O doutor antificção.

Lá pela metade do romance, Pedro, em sua personagem médica, anda em círculos e precisa reafirmar, ainda mais uma vez, que prefere literatura técnica, não sabe nada de “literatura-literatura”, embora seja incapaz de parar com as alusões a Ressurreição e Dom Casmurro e suas musas, Lívia e Capitu. Sua quimera é, talvez, o livro que gostaria de ter escrito, mas não pôde e por isso quis queimar todos os outros.

Tenta encurralar Lívia confrontando-a com a similaridade com sua xará mas não consegue porque não encurralou a si próprio e só assim poderia derrubar a ilusão da sua própria ilusão. Ele não caiu em si com as menções ao romance, ela não poderia fazê-lo sozinha. Através de si próprio, combate a ilusão. Através de Lívia, a defende e protege.

A sensação não é de nada, é de angústia pesada. O nada pesa, e pesa muito.

Os embates real x imaginário entre seu eu-Joaquim e seu eu-Lívia exaurem Pedro. Não suporta o real e não suporta o imaginário. Parece não haver espaço para ele em lugar algum.

Ao longo do livro, Pedro se divide cada vez mais e tenta dessa forma multiplicar os Machados. No capítulo “A casa verde”, ele (meio Machado, meio Félix, meio Simão Bacamarte) diz a seu amigo (Machado) que foi procurar o que Machado de Assis diria a respeito dessa situação. Perde-se e confunde a si mesmo em seu labirinto de espelhos. O próprio hospital é Machado, é uma personagem, não é só lugar, tem voz e peso próprios. Pedro faz questão de falar sobre outra fascinação sua: O Alienista. Explicita a referência e fala sobre as janelas que crê verdes.

Percebi, não na primeira ou na segunda, mas nesta terceira leitura, que "A viagem" que dá nome ao décimo quinto capítulo do livro não é aquela que Lívia faz ao passado ou a que fez até Itaguaí. A viagem é de Pedro até seu passado real. O local onde se partiu em vários pequenos simulacros de Machado.

Lívia, ao contar como “descobriu” o bilhete do pai entre as páginas de Lúciola de Alencar, diz também que nasceu das entranhas de Lúcia. Lúcia e Lívia, duas sílabas, cinco letras, do latim. Encontra o bilhete no capítulo XIV, onde Paulo tem mais uma de suas insuportáveis crises de insegurança, ciúmes e incompreensão.

Lívia não se lembra porque somente ela poderia encontrar aquele bilhete porque Pedro não se preocupou em elaborar a história a essa extensão. Seu diálogo com ela não deixa de ser um jogo de criação, composto por perguntas e meias-respostas. Após a narração da saga da moça, ele critica mentalmente a falha: ela não menciona o filho em nenhum momento. Ele critica somente assim: mentalmente. Nesse estágio onde já quase lembra de si, junta as peças e retorna à Gamboa, os confrontos se tornam cada vez mais perigosos.

A rejeição é tão forte que a professora, cujo nome verdadeiro não sabemos, “suicida” a sua própria personalidade e incorpora a de Lívia, chegando a transportar seu espírito para o século dezenove.

Enquanto cria essas suposições sobre corações e personalidades partidas, é impossível não imaginar se o que supõe para sua Lívia foi exatamente o que aconteceu a Pedro. Afinal, não há como o leitor ter certeza do que precipitou a fragmentação do bibliotecário, mas quase todas as desconfianças que tem de Lívia refletem, em maior ou menor intensidade, algo de sua própria crise.

Na fase da denegação, dizemos: “Isto não está acontecendo.” Ao dizer “isto”, percebemos o que está acontecendo, mas logo a seguir o negamos enfaticamente, prendendo-nos numa armadilha sim-não, sim-não, sim-não.

Ele diz nós. Pedro se inclui. Ao admitir a percepção mesmo na fase da denegação, assume a própria condição sem de fato o fazer. Em sua linha de pensamento febril, de quando em quando, para de tentar curar Lívia para tentar também aprimorá-la. Percebe que foi um erro que ela estranhasse a falta de chapéu nos homens mas nada dissesse das mulheres. Não foi só por suas próprias roupas contemporâneas. Afinal, Lívia é uma criação mental. Poderia usar qualquer roupa. A falha foi dele, em sua invenção a qual submete a revisões constantes.

Eu também perdi quase toda a vida da minha Lívia e estou aqui, tentando refazê-la aos poucos. Portanto, nem pensar, você não vem comigo. Não tenho como lidar com você e com ela ao mesmo tempo.

Ou seja, não pode lidar consigo mesmo atrás da máscara e com dois espelhos machadianos ao mesmo tempo. Sobrecarregaria sua mente representar três papéis em uma cena.

Outro embate com Lívia é mais do que os frágeis sustentáculos da sua fantasia podem suportar. O discurso da moça se torna cada vez mais febril e insano, diz não saber quem é até que possa ver o pai. E vê, é claro, o pai no médico. Ele a criou. Papai! E o beijo, como Pedro mesmo elucida, a detonou. E com ela, detonou também a ele, ao amigo Joaquim Maria Machado de Assis sarcástico e todo o mundo da Casa Verde.

Mesmo em "Medice, cura te ipsum", quando tem que confrontar a própria “alma fendida”, Pedro ainda briga para manter um pouco do eu que criou: teria sido internado depois. Era médico sim. Lívia era real. Fabrica um índice pessoal de cura, ressaltando que jamais curou ninguém de esquizofrenia, muito menos Lívia (muito menos a si próprio).

Tenta chamar o seu médico, de quem não se ouve a voz, de espelho. Sugere assim que mesmo esse novo conflito com a realidade acontece em sua própria mente. Aproveitando, talvez, fragmentos de diversas sessões reais com o psiquiatra. Este o lembra que nem mesmo os quartos que menciona como provas existiam. Não há quarto 22. Não há mariposa. Não há matricida do quarto 27, o uxoricida do 28. Nenhum paciente que ande a afirmar Je ne suis pas fou! Poeta, Poste... todos vultos imaginários. As janelas jamais foram verdes. Pedro, ainda apegado ao nome Joaquim, não aceita o real mesmo quando este lhe é provado, repetindo ele mesmo as sucessivas negações de Lívia. Admite, porém, entre tanta negação, sentir que pertence a aquele lugar, como jamais pertenceu a nenhum outro.

Não percebe que Lívia é tudo o que importa, ela é o alfa e o ômega, a metáfora mesma da própria realidade, a própria mulher original, logo, a origem mesma de nós outros?

Se Lívia não existe, a própria realidade simplesmente não existe!

Para provar sua certeza da Lívia Essencial, pergunta ao doutor se este não leu os filósofos e romances de Machado. Nesse estágio ele já se apega à literatura que até pouco tempo dizia desconhecer. No parágrafo seguinte já tenta voltar atrás e diz que os romances são leituras pós-Lívia. Ele não consegue, porém, fugir dos próprios argumentos. Leitor assíduo, compulsivo até, acusa o outro de “jamais ter cometido um reles poema na adolescência.” Lembra-se então de se agarrar à profissão inventada e cita um congresso e uma teoria por ele (jamais) elaborada sobre esquizofrenia.

Começo a pensar que o excesso de inteligência possa ser responsável pela divisão infinita e tão perigosa da nossa mente.

Tenta racionalizar sua inegável posição atual: a de interno. Diz que renunciou por nobreza à própria carreira. Por vontade própria se internou. Todavia...

Tropeça e não consegue fugir da própria verdade. Expõe, enfim, toda a cadeia de ilusões. Nada ali vivido aconteceu para além da mente de Pedro. Nunca foi médico, menos ainda diretor. Sua conexão com o “estabelecimento” é tão somente a de interno. Pedro jamais conseguiu superar o surto livrocida. Até o fim, jura que se internou na própria instituição que dirigia, como Bacamarte.

 

Dedos, dados, doidos.

 

Ao fim, só posso dizer que A Filha do Escritor divide com Reviravolta e Lúcia a característica de me fazer querer reler outras vezes além das quais já o fiz, pois sei que descobrirei algo novo a cada experiência.

Com Lívia e Pedro, li o último livro da sua obra de ficção e agora posso aguardar ansiosa por Nanook enquanto me dedico a outras leituras. Tenho ainda muitos ensaios nos quais mergulharei nos próximos dias com muito entusiamo! E é claro, A Ficção de Deus, a qual começarei assim que terminar de me despedir por aqui.


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