A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


julgar a pedra


EIS UM LIVRO QUE NOS FAZ PENSAR

Luiz Costa Lima

 

Eis um livro que nos faz pensar. Mas faz pensar sobre quê? Obrigatoriamente, sobre aquilo de que trata: das relações entre o fazer do texto ficcional e a reflexão que suscita. Relação que o autor tematiza a partir de um ângulo antes ético do que temático. Assim porque, ao invés de defender uma determinada abordagem, a pergunta básica de Gustavo Bernardo é: ao apreciarmos um texto, com que fundamento respaldamos a valorização que dele fazemos? Comportar-se à semelhança dos que julgam da validade de um texto científico, i.e., mediante seu cotejo com a teoria a que se filia ou que se encontra em vigência em sua área de saber, significaria, no caso do texto ficcional, dar por provada a razão de uma estética normativa. Se isso fosse correto, a estética ou a teoria seria um ramo científico. Por saber que isso é falso a questão básica assume uma deriva ética. Com o autor, pois, devemo-nos indagar: que justificativa ética legitima a prática dos críticos e professores de literatura? Por esse caminho o livro ora apresentado se distingue doutros genericamente arrolados como de teoria da literatura. Seus congêneres, e não só os nacionais, têm em geral uma orientação técnica: bons ou maus, inovadores ou vulgarizadores, pretendem ensinar, esclarecer, instrumentalizar seus leitores. A preocupação de Gustavo Bernardo é anterior e diversa: tendo por base a reflexão kantiana sobre o próprio do juízo estético e sua diferença radical do juízo determinante – que põe o objeto julgado sob a órbita de uma lei e assim o integra na órbita da ciência – mostra o autor que, se o juízo sobre a obra ficcional é indispensável, em troca, seu julgamento nunca é decisivo porque apoiado em uma norma sempre questionável. A crítica pois menos conota a atividade de um juiz que a tarefa de Sísifo – algo que sempre recomeça  e nunca deve(ria) se automatizar. Sendo pois um livro que nos faz pensar, é este ainda um livro que pode dar a esperança de que nossos cursos de pós em Literatura já não estejam formando apenas técnicos em análise literária, nem se contentando em multiplicar professores em “o prazer do texto”. Se o pensar é também uma forma de prazer que se desdobra em aprendizagem técnica, seu gesto declarador não se confunde nem com um, nem com outro. É o que, sem alardes, nos mostra este pequeno livro precioso.


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