A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


julgar a pedra



PREFÁCIO

Roberto Acízelo




Transitar à margem do convencional, nos empreendimentos intelectuais, pressupõe por assim dizer uma energia criativa que por si só deve ser homenageada. No entanto, é necessário reconhecer que, em muitos casos, não será adequado ultrapassar essa homenagem preliminar. Pois, quando se trata de recusar recortes previsíveis de temas para pesquisa na área da literatura, não chegam a ser raras as realizações que restam bastante aquém da energia que as anima.

Dito isto, venhamos ao ensaio Quem pode julgar a primeira pedra?, cujo título intrigante indicia não certamente seu assunto - do contrário, o procedimento seria canônico -, mas um empenho de subtrair-se a convenções que - diga-se logo - não se limita à condição de promessa, constituindo-se em objetivo alcançado em cheio, como a leitura poderá verificar. Eis, portanto, trabalho digno de homenagens plenas, quer pelo rigor de sua argumentação, quer pela elegância de sua construção.

Com impertinência dificilmente evitável em apresentações como esta, tentemos justificar a afirmação, tanto quanto possível sem incorrer no desrespeito - por sinal denunciado no texto - de antecipar o que cabe tão-somente ao próprio ensaio revelar.

Trata-se de desenvolver reflexão sobre o estatuto de prática discursiva que vem de muito longe e que tem assumido matizes os mais variados: o discurso-comentário sobre a literatura, de natureza crítica, analítica e/ou teórica. Isso se realiza, no entanto, não segundo esquemas expositivos estereotipados para essa finalidade - grosso modo, a dissertação especializada e a opinião diletante -, mas de acordo com um processo muito peculiar de conduzir argumentos, exemplos e citações, que se materializam em texto de especial fluência e capacidade de envolvimento. E essas qualidades de fluir e envolver, mais usuais nos enredos narrativos do que nas construções conceituais, explicam um dos significados assumidos pela palavra intriga, presente na expressão teoria intriga com que o trabalho também se apresenta. O resultado de tal desenvoltura textual é não apenas seduzir o leitor por artes de um fraseado cuja surpreendente simplicidade consiste em deixar entrever a sofisticação da sintaxe e das imagens de que se constrói; além disso, não será descabido que só na e pela própria composição do texto integram-se matrizes conceituais - ou fontes de inspiração? - de procedência tão radicalmente diversa como, por exemplo, o pensamento kantiano e o romance policial.

Referimo-nos, até aqui, mais à linguagem de  Quem pode julgar a primeira pedra? do que ao núcleo de problematização instaurado pelo ensaio. Com referência a esse núcleo, podemos identificá-lo na questão da crítica, dimensão do interesse pela literatura sujeita usualmente ao seguinte tratamento alternativo: ou se exerce como mero depoimento pessoal de leitura, conformado, com menos ou mais disfarces, ao simplismo do gostei/não gostei; ou se retrai, por exigência de objetividade e rigor universitário, em favor da análise e da teoria, outras dimensões reconhecíveis do interesse pela literatura. O projeto do ensaio é precisamente tematizar a questão da crítica, estudando tensões e contradições decorrentes da alternativa referida, o que implica considerar "condições de possibilidade ética para a teoria na literatura", na expressão do autor.

Mais não alonguemos esta intermediação: digamos, concluindo, que o ponto central do ensaio consiste em refinada leitura do poema "O Pássaro Incubado", de Antônio Carlos de Brito, em torno do qual se vai construindo, no próprio curso de um exercício simultaneamente crítico, analítico e teórico, reflexão sobre as possibilidades de um discurso que integre as mencionadas três dimensões do saber relativo à literatura - a análise, a teoria e a crítica.


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