A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


julgar a pedra



IMPASSES DA CRÍTICA E CONTROLE DO IMAGINÁRIO

Moisés Liporage

 

Muito foi dito sobre os papéis que a obra literária e a crítica desempenharam no batido, cotidiano e melodramático diálogo entre a pedra e a vidraça. O estilhaçar desse pingue-pongue performático legitima o trabalho de críticos e professores de literatura. Existe uma estética normativa? Caso a resposta seja sim, trata-se de um ramo científico? Baseado numa reflexão kantiana sobre a propriedade do juízo estético, Gustavo Bernardo parece concluir, em seu recém-lançado ensaio Quem pode julgar a primeira pedra?, que o juízo é indispensável, mas o julgamento questionável.

Gustavo não se limita a essa assertiva, que tanto pode ampliar como tolher o campo das idéias. Os “crimes à letra” exigem a intervenção de detetives que os decifrem. Estes podem ser ao mesmo tempo policiais e infratores. A mídia e as universidades instituíram-se como espaços de disputa do “controle armado do imaginário”. Infelizmente, muitas vezes o próprio artista acaba se tornando cúmplice. O autor lança mais uma indagação: é possível preservar a qualidade do enigma, da intriga narrativa, sem abdicar da reflexão crítica? Sim, combinando a curiosidade de crítico com uma simpatia (no sentido grego da palavra) especulativa. O autor também alerta sobre o risco de a teoria da literatura se transformar numa “caricatura do cientificismo”, por tentar copiar o estatuto e a metodologia das ciências.

A reflexão sobre o poético é necessariamente poética? O crítico corre o risco de ceder ao impulso de dividir disfarçadamente a paternidade da obra com o artista: “Na verdade, a reflexão teórica escrita tem por obrigação ser bem escrita, sem que por isso já se admita poética. Ela pode, sim, conter flashes de poesia”. E o texto literário, por sua vez, traz sempre alguma reflexão crítica, mesmo que não especificada de forma panfletária. O autor defende a observação das diferenças e das camuflagens entre o objeto estético e a “estetização” desse mesmo objeto.

Gustavo Bernardo submete o poema “O pássaro incubado”, de Antônio Carlos de Brito (o Cacaso) a uma detida análise conceitual e estrutural. Depois a contrapõe à crítica escrita pelo ensaísta José Guilherme Merquior (que gostou do poema). Gustavo raciocina que o desfiar de erudição tanto pode ser um artifício meramente pirotécnico, como servir para definir os critérios do olhar e da “leitura” através de especulações de ordem ética. A critica à crítica de Merquior lhe possibilita uma comparação com o mito de Sísifo: o crítico estaria condenado a empurrar uma pedra enorme até o alto da montanha para vê-la rolar de volta à planície; então desce e começa a empurrá-la para cima outra vez, e assim sucessivamente.

Quem pode julgar a primeira pedra? articula que julgar o poema é julgar o próprio juízo. Deixar o poema falar tambem não é a solução, pois “poemas não falam; eles são lidos”. A eloquência está no próprio evento da leitura. Gustavo lembra um recado de Oscar Wilde: se um homem aborda uma obra de arte com a intenção de exercer autoridade sobre ela e o artista, este homem bloqueia sua própria impressão artística. A obra de arte deve dominar o espectador e não o contrário. Crítico que é crítico não se arvora como sendo o possuidor de um contrato de exclusividade com a verdade.

 
O Globo, 06/03/1994.


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