A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


julgar a pedra



ECOS DE UMA BATALHA QUE NÃO TERMINOU

Ítalo Moriconi

 

Talvez os muito jovens não se lembrem ou não saibam, mas a Teoria da Literatura já foi um dia objeto de acaloradas polêmicas na vida cultural brasileira, principalmente carioca. Nos anos 70, a onda estruturalista motivou o surgimento de verdadeiras facções pró e contra aquilo que uns consideravam formalismo e hermetismo no trato das questões literárias, enquanto outros encaravam como aprofundamento da compreensão do caráter de linguagem de toda obra de arte verbal, opondo-se às explicações sociológicas, históricas e biográficas. Os primeiros, os contra, punham em dúvida a própria necessidade ou possibilidade de se falar teoricamente, cientificamente, de literatura. Na época, até Drummond escreveu poema contra.

Ao longo dos anos 80, o cenário mudou. O estruturalismo cedeu lugar a uma plêiade de teorias, tornando plural o que no início se queria singular. Hoje, as aulas de Teoria da Literatura fazem o levantamento de teorias da literatura. Além disso, o interesse por outras disciplinas fez com que pouco se discutissem os impasses e dilemas intelectuais permanentes que assolam toda e qualquer teoria.

Gustavo Bernardo retoma agora a discussão, com o mérito de explicitar para o campo das letras alguns princípios hoje correntes no domínio mais amplo das ciências humanas. O autor busca traçar um caminho próprio frente ao que considera dois equívocos. De um lado, o equivoco pró: a Teoria da Literatura proposta como empresa científica, voltada para determinar a verdade do objeto literário. De outro, o que seria o equivoco contra: o texto teórico encarado como forma artística, criativa, equivalente aos poemas e narrativas aos quais se refere.

Gustavo propõe que se continue teorizando, mas sem a ilusão de achar que com isso se vá determinar a verdade do literário. Ou seja, é possível teorizar com a literatura (na literatura, diz ele), embora seja impossível fazê-lo nos moldes de uma ciência exata. Afinal de contas, ninguém mais sabe muito bem se quer definir com precisão absoluta a palavra literatura, pelo menos enquanto disciplina universitária.

De fato, entre os anos 70 e 90, por força de diversos fatores, inclusive do próprio estruturalismo, a disciplina Literatura teve seu sentido descaracterizado e seu alcance ampliado. Ela passou a incluir uma série de produções textuais e simbólicas que ultrapassam o universo tradicional das obras consagradas de ficção e poesia. Numa aula de literatura hoje (e não só no Brasil), pode-se estudar letra de música popular, romance de segunda categoria, texto de jornal, filme de cinema, novela de TV, discurso feminista, e por aí vai. Na verdade, é o ato da leitura que constitui hoje a possibilidade de um texto qualquer ser ou não ser considerado literário. A definição dada por Gustavo Bernardo parece perfeita: “literatura é o efeito político de determinadas(s) leitura(s).”

Nesse contexto, o autor propõe uma atividade teórica que tenha por objeto as estratégias de leitura no interior das quais adquire sentido e existência o texto chamado literário. Assim, também no campo das letras, como nas demais ciências humanas, a teoria passa a ser praticada como metateoria, ou seja, teoria sobre teoria, reflexão sobre os múltiplos fundamentos que sustentam múltiplas e diferenciadas práticas. No caso, práticas de produção do sentido textual pela leitura. Nessa perspectiva, todo texto traz embutida dentro de si sua própria teoria, seu próprio arcabouço fundamentador. Cabe ao teórico desembutir do texto sua teoria.

É o que Gustavo Bernardo chama de teoria na leitura. A leitura deixa de redundar num julgamento de valor, e busca tornar-se, para usar seus termos, evento possibilitador de especulação teórica. Gustavo Bernardo põe isso em prática na leitura que faz do poema "O pássaro incubado", de Cacaso. Ela serve de mote para, apoiando-se fundamentalmente na teoria kantiana do belo, desenvolver a crítica ao projeto de avaliar (julgar) literatura a partir de conceitos generalizadores.

Mas é na hora da prática que surge o problemático no sofisticado trabalho de Gustavo. Alegando querer preservar o caráter de enigma da literatura, ele usa o texto de Cacaso como trampolim (a expressão é dele mesmo) para passar direto a um tipo de espedulação filosofante que, na verdade, poderia estar vinculada a uma infinidade de outros textos. A teoria não é desentranhada do texto, mas sim desenvolvida de forma independente a partir de analogias com o texto. O texto funciona como mote, como trampolim, como mero pretexto para um tipo de discurso metateórico que se utiliza da literatura, mas que se quer filosofia.
 

Jornal do Brasil, 09/04/1994.


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