A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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Trecho:


… mas mostrou não me reconhecer imediatamente.

Entretanto, apenas falei do primeiro encontro no ponto do lotação, na praça, à noite, há anos, ela quase-que-sorriu e disse: não, deste momento não me lembro – mas então o senhor é o monitor do Alencar.

Fiquei contente por ela me haver reconhecido, mas chateado por tê-lo feito a partir do meu pior momento. Acho que me mostrei um pouco tonto, rodando nas mãos o chapéu. Felizmente, ela me convidou a entrar e ofereceu um pouco de café – com duas colheres de açúcar, por favor. Enquanto Lúcia ia para a cozinha, contígua à sala, fazer o café – mas não se incomode, pensei que estivesse pronto, ora, não é incômodo, ia passá-lo para mim mesma agora mesmo –, procurava não vê-la, não ver como ela se vestia, constrangido, antes observando os mínimos detalhes da casa.

Do pequeno sofá da sala todo o apartamento, sala, cozinha e banheiro, se descortinava. A mimosa cozinha, onde mal cabia quem lá estava. O banheiro, que deixava entrever, pela porta mal encostada, um pedacinho de banheira, daquelas de ferro esmaltado, com pequenos e trabalhados pés de bronze – excitava os sentidos, excitando memória e imaginação.

A janela, de venezianas de madeira verde, abria para nesgas da Glória, do morro de Santa Teresa e das janelas vizinhas. Num canto da sala, artisticamente separada por uma estante de mogno preto, a alcova de Lúcia.

Ah, meu deus, meu sátiro, a alcova de Lúcia.

Um colchão, estranhamente de solteiro, ou de solteira, com um edredom axadrezado, em diferentes tonalidades de azul, bem esticado por cima. Ao lado da cama, ainda à vista, sobre os tacos do piso (que pediam, decerto há alguns anos, uma enceradeira de três escovas, por favor), arrumados com elegante displicência lá estavam um lápis e dois ou três cadernos de palavras cruzadas, em convivência pacífica com um romance de Mme Delly e um livro de poemas de J. G. de Araújo Jorge.

Enquanto ela me oferecia o café que acabara de fazer, sentia muito mas tinha posto quatro colheres de açúcar e não duas, por força do hábito, não faz mal eu dizia, e já o sentia um pouco doce demais para o meu gosto, finalmente a olhava.

Olhava-a para sentir o ingênuo perfume, de sabonete recente misturado com café quente, que emanava de toda a sua pessoa. Mexendo devagar a pequena colher na xícara, a sala se tornava pouco a pouco mais doce ainda, e eu olhava primeiro para os seus pés calçados em mimosas sandálias amarelas, contrastando com o esmalte vermelho, o mesmo nas unhas dos pés e das mãos, aplicados com muito esmero e apuro.

As calças compridas, folgadas, sugeriam a mulher independente, “livre”, que eu viera procurar. Enquanto levava a xícara aos lábios para queimá-los, o café tão quente, levantava os olhos e ia olhando para Lúcia, pedaço por pedaço, de baixo para cima: os pés, a forma das suas pernas, entrevista pelo desenho das calças, a blusa branca e justa sobre os seios…

… os seios próximos de seus olhos, sem soutien, os bicos de auréola larga e escura marcando a fazenda, o café queimando não só os lábios como também a língua e ainda por cima derramando-se no meu colo, sujando as calças, mas que desagradável.

Lúcia pareceu acompanhar, com o não-sorriso que lhe era peculiar, o caminho irregular dos meus olhos, dos seios dela mesma às minhas pernas queimadas. Não disse nada nem ofereceu alguma toalhinha para limpar o meu terno manchado. Sentou-se na cadeira à frente, esquecendo seu próprio café na estante, enquanto, decerto inconscientemente, tomava da mesinha ao lado, usada à guisa de escrivaninha, uma prancheta vazia, sem folhas, para cobrir o peito.

Foi quando julguei ver, na prancheta, por umas manchas antigas na madeira fina, aquele mesmo objeto que pegara do chão para a bela menina que me olhara, da porta do lotação lotado, com olhos súplices.

Fiquei confuso. Os episódios se misturavam. Capítulos começavam a se misturar. E o café ainda queimava a minha perna. Reconhecia, ao mesmo tempo, a prancheta que povoava os meus sonhos e o rubor envergonhado nas faces de Lúcia, frente ao despudorado trajeto do meu olhar há pouco. Não sabia se devia pedir desculpas primeiro e me referir com alegre sutileza à prancheta depois, ou ficar alegre primeiro e constrangido depois. Que vergonha.

Mas a vergonha, como o pudor, ao menos me emprestava uma força mística que me permitiu tomar alguma decisão, naquele momento. Na verdade, quando a vi enrubescer – não, eu não podia vê-la enrubescer. Esquecera-me de apontar para a circunstância casual de que Lúcia era morena.

Morena escura. Talvez disséssemos melhor, mulata.

Bem: negra.

Gentlemen prefer blondies, mas: Lúcia era uma mulher bonita – e negra.

Nigra sed pulchra, diriam os antigos. Talvez, naquela época, eu dissesse o mesmo – talvez eu diga o mesmo, agora, no momento em que conto essa história: Lúcia era uma mulher negra, mas tão bonita…

Talvez sejamos todos sempre tão antigos.

Ela usava cabelos igualmente negros e longos, longamente alisados por anos a fio, ou pelo fio dos anos e de bisnagas de alisaton, emoldurando a cútis suave que tanto me impressionava. Por isso, também, os bicos dos seus seios se destacavam tanto na blusa branca, furando os meus olhos e queimando a minha língua, já de per si queimada pelo cafezinho.

Havia, no ar daquele pequeno apartamento, alguma coisa muito errada. Sem me levantar do sofá, sem me debruçar na janela – se o fizesse também não se justificaria, tratava-se apenas de um quinto andar –, experimentava uma vertigem. Uma forte vertigem. Quiçá, a mais forte vertigem da minha vida.

Misturavam-se os bicos dos seus seios, o meu profundo constrangimento com a minha própria indelicadeza, com os meus próprios olhares indiscretos e insistentes, a beleza de Lúcia, a cor da sua pele, com a certeza absoluta – a certeza quase absoluta – de que a menina linda, com que eu esbarrara no ponto do lotação anos atrás, era loura!

Era loura, sim, embora sua pele não fosse, de modo algum, pálida. Era loura, de olhos profundamente negros (que, no entanto, iluminavam como se fossem azuis).

Ou verdes? Já não tinha certeza. Tentava me recordar da cor dos seus olhos, da cor da sua pele e dos seus cabelos, quando a encontrara há tantos anos, à noite, no ponto do lotação, mas o que parecia verde de repente, na memória, escurecia – e o que parecia negro, de repente, na memória, tornava-se azul, depois verde…

E a Lúcia que naquele momento se encontrava à minha frente, cobrindo o colo com uma antiga prancheta, mostrando-me sem querer o tornozelo, os pés, os braços, o rosto, a expressão indecifrável do rosto, os olhos, os olhos!, era negra. A pele negra, por igual, com distantes tonalidades e fugazes brilhos de lilás, e os olhos: os olhos profundamente verdes (que, no entanto, ampliavam ene vezes a minha vertigem, tal como se fossem imensamente pretos).

Eu não sabia o que dizer (e não dizia). Eu não sabia o que entender. Lúcia era duas, estranhas irmãs gêmeas em negativo uma da outra (negando uma à outra), ou as Lúcias que eu via eram uma só, disfarçando-se de si mesma como num filme de Hitchcock?

Mas, o mais estranho, o mais constrangedor, o que mais me perturbava, deixava tanto o meu cérebro quanto o meu estômago dando voltas e me enjoando e me queimando sem parar: por que eu só percebia aquela diferença tão expressiva, tão radical, só naquela hora, depois que o café me queimara as calças, as pernas, a virilha?

Tentava me lembrar da Lúcia quase-menina e quase-mulher, na praça Afonso Pena, da cor da sua pele, da cor dos seus olhos, mas, de modo igualmente estranho, quer porque estivesse escuro, quer porque tivesse tanta gente em volta, na mesma espera do lotação atrasado, ou porque eu não estivesse prestando atenção nestes detalhes (como, não prestar atenção nestes detalhes?), não me lembrava direito.

Era loura, sim – ou não?

Não me lembrava, desorientado, naquele dia, dentro do apartamento de Lúcia, e não me lembro agora. Nem agora eu tenho certeza se, no nosso primeiro encontro, ou esbarrão, a Lúcia era loura ou morena (ou melhor, negra). Se os olhos de Lúcia eram negros, ou verdes.

Assim, desorientado, quando não a vi enrubescer, ou melhor, quando senti no ar do ambiente o seu pudor ofendido, senti-me encolher no pequeno sofá.

O homem, ainda que o mais ousado, desde que guarde no coração o instinto da delicadeza (ou, desde que esteja inteiramente desconcertado, como eu estava naquele instante), não se anima a amarrotar bruscamente esse véu tão sutil que resguarda a fraqueza da mulher. A resistência, o não, não, não quero, não quero, irrita e acicata o desejo do macho nervoso. Mas o enleio casto, a leve rubescência, a magnífica convergência fonética que lhe emprestava o encontro de bes com cên, o delicado fenômeno que aproximava o pudor da linguagem ao pendor do lingüista, tudo simplesmente vestia a beleza de um santo esplendor, infundindo, no ambiente, espécie mágica, sintagmática, de respeito.

Respeito que não se pode deixar de sentir, mesmo quando se ama, ou mesmo quando a atração irresistível do corpo emudece os escrúpulos e as suscetibilidades.

Respeito que se misturava, entretanto, com o medo. Medo de não saber exatamente onde e com quem eu estava. Medo de não saber exatamente o que pensar, tanto em relação a Lúcia quanto em relação a mim mesmo.

No fundo (e na superfície), não sabia o que dizer ou o que fazer. Lembravam-me as palavras do Alencar – “Não é uma menina, Paulo! É uma mulher bonita.” Lembravam-me as próprias palavras de Lúcia: “um dia no ano não é muito”.

Naquele momento, “um dia no ano” com Lúcia, na casa de Lúcia, soava, de fato, como tanto e tão pouco, ao mesmo tempo, mas não o queria admitir. Não queria, não podia admitir como eu já estava envolvido, como o meu corpo se envolvera tão completamente com Lúcia.

A facilidade com que me recebera; a circunstância da minha solidão, pari passu com a minha juventude e imaturidade; a circunstância da sua própria solidão (era a primeira vez que eu conhecia uma mulher sozinha, vivendo e morando sozinha – até então, imaginava que isso só pudesse acontecer na literatura, ou nas comédias de costumes); a condição de mulher, e de mulher bonita (e de mulher negra), enfim, tudo convidava ao cinismo e não, jamais, a um ridículo embevecimento.

Mas o que eu sentia era o embevecimento mais ridículo do mundo.

Bastava voltar-me para aquela fisionomia calma e doce, quase tão doce quanto o cafezinho que me servira e gentilmente me queimara, bastava voltar-me para aquelas faces perfumadas com seus longes de melancolia, e então encontrar um olhar límpido e sereno (o olhar azul-esverdeado, de tão sereno, de tão limpo…).

Eu sabia, todavia, que sombras emolduravam aquele olhar, evocando tão-somente tragédias familiares, tragédias que se vivem apenas no interior do Brasil, que não acontecem mais na cidade grande (pelo menos, não na cidade que me era dada a conhecer).

Bastava voltar-me para a profundidade imensurável de seus olhos (o verde claro, lá no fundo, no fundo pressuposto…), para então encontrar o gesto infantil, o não-sorriso meigo e a atitude singela e modesta de quem abre a porta para um amigo, ou o leito para um amor – como quem tem tanto do que se arrepender ou se culpar.

O meu pensamento, naquele momento, impregnado que estava de desejos lascivos e de inferências equívocas, além de rimar “sabia” com “todavia” e “pensamento” com “momento”, se depurava num repente, como o ar se depura com as brisas do mar que lavam as exalações pútridas da interior da terra.

Depois que tudo isso me passou pela cabeça e pela alma, dilacerando-as ambas e fazendo-me olvidar os lábios queimados e a coxa idem sob a calça fina e manchada, naquele conhecido e recorrente fenômeno em que uma dor nova e maior nos obriga a esquecer de dor anterior e menor, terminei por fixar-me na prancheta sobre o peito da moça e exclamei, em parte genuinamente contente com a revelação, em parte genuinamente ansioso por fugir de mim mesmo e de minhas próprias sensações:

– Agora me lembro! Estou vendo-a como a vi da primeira vez!

Ela retrucou sem pensar, no instante imediatamente seguinte, com o queixo trêmulo ligeiramente soerguido: como daquela vez não me verá mais nunca…

– Mas, o que falta?; perguntei.

Ela respondeu, um tom abaixo, abaixando igualmente os olhos para o ferro da prancheta: falta o que o senhor pensava e não tornará a pensar.

A sua voz modulava-se por dor íntima e imprescrutável.

Não compreendi, então, aquelas palavras. Achei-as mesmo demasiado literárias, como se colhidas nos primeiros capítulos de um dos primeiros romances de um autor menor, publicado às próprias expensas. Sem dúvida ali se escondia uma metáfora, ou mesmo uma metonímia (quem sabe uma anáfora), mas eu não atinava com o seu significado, talvez porque não me lembrasse do que pensara, outrora, alhures, tomado por pensamentos, blusas e pranchetas excessivamente presentes.

Nem consegui atinar a que momento Lúcia se referia, se àquele que se passara no adro da Igreja da Glória, ou àquel’outro que se dera no ponto do lotação. Procurei mudar de assunto o mais rápido possível, para recuperar o equilíbrio (mesmo sentado, com as costas apoiadas no encosto do sofá, eu me sentia mareado) e a dignidade, manchada pelas últimas palavras de Lúcia (falta o que o senhor pensava…) e pelo café quente que, aliás, nesta altura do capítulo e naquela altura da visita, já se encontrava frio.

Lúcia me ajudou, encadeando dezenas de assuntos da cidade, do tempo e da política nacional, permitindo, a ambos, escaparmos das razões que me haviam levado àquela casa. Foi uma longa conversa, que durou, mais ou menos, uma hora e trinta e sete minutos. Não me considero capaz de repetir todo o longo diálogo, se mal consigo recompor, com a minha memória cansada, algum fragmento relevante.

Na verdade, me vêm à mente, e à pena, duas ou três palavras apenas, como quando Lúcia me perguntou se estava no Rio de Janeiro há muito tempo. Contentei-me em responder, da maneira mais verossímil possível, porque nem eu mesmo tinha certeza, assim, exata, do que dizia, que sim, vivia no Rio de Janeiro há bastante tempo, desde o dia em que nascera, no Largo do Machado – justamente, na Casa de Saúde São Sebastião.

Foi a minha vez de perguntar-lhe se era natural do Rio, ou se vinha de outra região do país. Minha anfitriã confirmou, nascera no Distrito Federal. Passara quase toda a sua vida no bairro do Méier. Sua irmã ainda morava por lá, junto com seus pais.

Ah, mas você tem pais e irmã!, exclamei, ousando chamá-la por “você”. Como deve ser feliz, completei (não tive coragem de perguntar qual era a cor da pele, ou dos cabelos – ou dos olhos – da irmã). Ela estranhou a exclamação, afirmando, em contrapartida: quem é que não tem uma irmã. E meus pais ainda são muito jovens para que eu tivesse a desgraça de os haver perdido.

Eu teria ficado profundamente desconcertado, se já não estivesse suficientemente desconcertado. Logo a seguir Lúcia, ligeiramente irritada, aconselhou-me a não invejar a aparente felicidade daqueles que têm uma família. Decerto, completou, haveria de ser melhor a gente sentir-se amada sem interesse.

Procurei retrucar, de repente moralista, mais desastrado do que o normal, defendendo a tradição, a propriedade e a família brasileiras. Afirmei: ora, é justamente na família, celula mater da nação, que nos sabemos amados sem interesse!

Você é professor, ela disse, como se explicasse tudo. Não entende. Minha irmã é casada, ela disse, como se fosse suficiente, e mais não quis falar. Contou apenas de um lugar singelo, do qual sentia tantas saudades, numa graciosa rua calçada com paralelepípedos de granito, poucas amendoeiras nas calçadas. Na frente moravam os pais e numa meia-água, nos fundos, ainda na laje, sem telhado e sem pintura, apenas o emboço nas paredes, viviam a irmã, o marido e o filho deles.

Mas então você tem um sobrinho, eu disse, sem muita empolgação, porque crianças não me atraíam em especial, e porque me sentia jogando a bola fora em todos os lances. É, eu tenho o sobrinho, ela respondeu, num tom tão soturno que parecia dizer algo mais do que “crianças não me atraem em especial”.

Seria um mistério, ou apenas um ciúme? Ainda não sabia. Ainda não podia saber.

Foi quando achei que era um bom momento de me despedir, não tendo até então achado ocasião para arriscar um gesto ou uma palavra duvidosa.

Já vai, perguntou Lúcia, vendo-me tomar nas mãos o chapéu que amarrotara todo ao chegar. Não posso demorar-me mais tempo, disse-lhe, para melhor me mostrar ocupado – mas não saberia dizer qual seria o compromisso a que não poderia faltar. Aliviou-me que ela não tivesse perguntado. Já sob a soleira da porta, num assomo de desespero consegui pronunciar a frase mais ousada de toda a conversa:

– Se a minha visita não a aborreceu, posso voltar outro dia…

A resposta dela foi muito gentil, mas ligeiramente equívoca: até outro dia. Somente isso: até outro dia. Apertou-me cordialmente a mão, sem deixá-la sequer por um segundo a mais, e fechou a porta, deixando-me espremido no minúsculo hall, até que o elevador, com sua porta pantográfica, chegasse.

Na rua, descendo a ladeira, achei-me tão ridículo com os meus vinte e sete anos e as minhas trinta e oito gafes, que estive por um triz para voltar e mostrar àquela mulher quem eu era. Mas, naquele instante como em tantos outros, eu não tinha a menor certeza sobre quem, de fato, seria.

Foi bom não ter voltado.

Mais tarde (bem mais tarde, depois de caminhar a pé da Lapa até a Tijuca, como que para tentar arrumar a confusão da minha cabeça no labirinto das ruas do Rio de Janeiro), encontrei-me com o Alencar numa reunião na Academia Carioca de Sintaxe.

Discutimos, junto com os demais colegas, o próximo simpósio, que se avizinhava. Na reunião, preparatória do simpósio, todos fizemos mais ou menos o mesmo discurso, em voz um tanto ou quanto mais alta do que o normal, o que era parte da preparação para as palestras que faríamos uns para os outros (o público interessado não seria muito maior).

Na saída, só não fomos para um bar porque a reunião havia sido no Café Éden, na praça Saens Peña, economizando deslocamentos inúteis. Espalhamo-nos pelas mesas e pude aproveitar a ocasião de falar a meu amigo sobre o recentíssimo acontecimento da rua Taylor, tendo porém o cuidado de ocultar o papel que representara na pequena comédia.

– Tem visto a Lúcia?, perguntei-lhe.

– Não; há um bom tempo não a encontro.

Você a conhece bem, José? – era raro que qualquer um chamasse o Alencar pelo prenome. O professor notou isso, percebendo a importância da conversa.

– Ora, meu amigo; intimamente.

Senti-me aliviado por ele não ter dito, “biblicamente”: meu passado de catecismo se sentiria muito constrangido se escutasse, ou mesmo lesse, esta expressão adverbial.

– Tem realmente certeza de que ela seja o que me sugeriu na Glória? Quer dizer…

– E esta! Pois duvida… Vá à casa dela; já o apresentei a ambas, à moça e à residência. Mas depois não esqueça de mo contar.

– Supunha que fosse apenas uma dessas jovens impressionáveis, a quem contudo é preciso fazer a côrte por algum tempo.

– O tempo literário, não o tempo real. Tu andas no mundo da lua, Paulo.

Justo Alencar, a dizer que eu é quem andava no mundo da lua.

– Lúcia é uma santa, sim; mas santinha de pau oco. Quer saber como se faz a côrte à Lúcia?… Eu vou te explicar. Fazendo-lhe uma breve exposição, tão-somente. Não se esqueça dos hifens etimológicos, colocados no lugar certo, e das alusões psicanalíticas, jogadas na hora errada, e nada mais é necessário. Se quiser sofisticar, quando se referir às personagens neo-românticas cite o seu filósofo preferido, o Groddeck. Ele é ótimo para confundir, o que, por sua vez, é ótimo para seduzir. Mas com Lúcia, na verdade, não é preciso chegar a esse ponto nem se esforçar tanto. Dê-lhe o código do amor cortês e ela ficará mais do que satisfeita, devolvendo-lhe, no fim e ao cabo, o que você quiser.

Acabamos de beber, e não tocamos mais no assunto. Não tive coragem, novamente, de lhe perguntar sobre as duas Lúcias – muito menos sobre a extensão e o nível do seu relacionamento com ela (ou elas). Depois de pagarmos a conta, Alencar disse até breve, com irônico sorriso desenhado no rosto.

Despedi-me, desgostoso com a breve conversa. Sentia-me ainda mais ridículo e, principalmente, meio lento de raciocínio, a meus próprios olhos. Não entendia metade das frases do Alencar, assim como não entendera metade das frases da Lúcia.

Parecia até que eu vinha de Belford Roxo e ficava deslumbrado com o tamanho da praia de Copacabana. Jurei a mim mesmo que, em breve, me reabilitaria de minha estúrdia ingenuidade.


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