A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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SOBRE LÚCIAS, PEDROS E OUTROS SABORES LITERÁRIOS

Marcela Santos Castelli

 

Oi, professor! Há umas duas semanas enviei um email comentando que tinha encomendado Lúcia e minha ansiedade pra ler. Bom, tenho agora tanto que gostaria de dizer que será preciso empregar uma certa dose de autocontrole para não me estender demais!

Em primeiro lugar, fico feliz de ter esperado até o fim do semestre para começar a ler os seus livros. Eu já tinha pesquisado e lido a respeito de vários deles e ficado muito curiosa. Entretanto, tinha medo que minha visão de leitora mudasse minha postura como aluna. Literatura foi o que me atraiu para o curso de Letras e desde o início sua matéria foi minha favorita, não só pela minha predisposição para isso, mas pelo professor. E espero que seja perceptível, agora que o semestre acabou, que nada que eu digo é com intenção de bajular. Da mesma forma que a sua aula foi minha favorita desde o início, outra, também inteiramente baseada em Literatura se tornou o pior momento da semana, não pelo curso mas pelo mestre, que terei o bom senso de não nomear. Também por forte influência do professor, Linguística se tornou outro momento pelo qual eu ansiava. Retornando ao cerne da questão, sempre me senti livre para participar da aula que eu adorava e sabia que se me conectasse e mergulhasse nos seus livros, ficaria irremediavelmente encabulada e me anularia em sala, com vergonha de falar com o autor que eu admirava, não com o professor. Seria tolice, mas conheço minha própria natureza o bastante pra saber que isso aconteceria. Se não me apaixonasse pelos Pedros e Marias das suas obras, da mesma forma, de alguma forma isso mudaria as coisas. E era tão bom o equilíbrio de então! Desde o início, portanto, foi meu plano esperar o fim do semestre (sem saber, então, que era integrante de umas das suas últimas turmas!).

Quando mencionou Lúcia em aula, me interessei muito porque seus comentários sobre Lucíola me trouxeram lembranças de uma professora de literatura que, muito empolgada, passou como material de leitura justamente Lucíola e Senhora. Sendo ela própria devota do Santo Alencar, não permitia nenhum tipo de alusão às obras que pudesse soar como crítica negativa ao pai supremo da literatura brasileira (!). Numa conversa sobre a trajetória de Lúcia, perguntei se ela não achava que era muito triste a forma como a protagonista foi minguando, cada vez mais obcecada pelo Paulo. Ela ficou muito incomodada com a palavra “obsessão”, mas eu não conseguia ver de outra forma, ficando, naturalmente preocupada com a minha nota na prova que viria. Ela dizia que ‘interpretação não é achismo’ e, portanto, há sim uma interpretação suprema, correta e outras equivocadas. Felizmente as provas dela tinham menos questões de interpretação do que questões do tipo “Qual era o nome do amigo que apresenta Paulo e Lúcia?”, coisas do tipo. Eu discordava mas tinha que decorar as próprias noções que ela tinha das obras. De alguma forma notas parecem muito importantes para todos, especialmente os adultos, quando se tem 15 anos e tudo que a direção do seu colégio quer é estampar o seu nome e talvez até o seu rosto numa lista de aprovados, de preferência em Direito ou alguma Engenharia.

“Caía na prova? Não importava. Importava pensar, sem finalidade imediata. Importava exercitar a mente e a sensibilidade como quem brinca, e não como quem vai ser testado adiante.”

Ali importava, eu fazia o máximo para não me importar e acho que por isso peguei uma aversão tão forte à ideia de faculdade em si que passei três anos após a minha formatura do ensino médio fazendo só o que queria. Primeiro fotografia, depois teatro por um bom tempo. Só tentei o que gostava e que parecia de alguma forma livre, até a vontade de ir para a universidade chegar (se chegasse). Um dia chegou, e eu fui.

Pois bem, achava que o autor tinha sido muito cruel com Lúcia, minha professora achava muito romântico. Foi um alívio quando ela passou Machado no segundo semestre. Não sendo apaixonada por ele, não tentava guiar tanto nossas percepções particulares. Evidentemente, essa experiência azedou um certo tanto leituras subsequentes de Alencar para mim.

Sobre Gustavo Bernardo.

Comprei, via internet, volumes de alguns dos seus livros, escolhidos aleatoriamente. Alguns de ficção, outros eram ensaios e a coletânea de contos de amor e ciúme do Machado. Decidi não começar por Lúcia, tinha um pouco de medo dela. Trazia o fantasma do Alencar e do ensino médio, resolvi que leria por último entre aqueles que tinha adquirido. Escolhi, sem nenhum motivo em especial, O Mágico de Verdade para começar, seguido por Monte Verità. Juro que não sabia que essa seria mesmo a ordem e nem que eram parte de uma trilogia. Li de uma vez só, sem pausa. Um depois do outro e gostei demais. Isso soa genérico demais. Como posso colocar... os argumentos, as referências e alguns temas que me lembravam das aulas na UERJ: as crianças que gostam de se imaginar órfãs, o Deus cruel e insaciável como no Velho Testamento. Os diálogos do Mágico com os ilusionistas. Lenka Sladká, que me lembra minha cantora tcheca favorita, Lenka Dusilová. O fato de ela ser tcheca. Ano passado tive lições de tcheco com uma professora de Praga, com meu livro de capa laranja “Do you want to speak Czech?” no apartamento dela em Copacabana. Ela me apresentou mais da cultura que já me interessava tanto, a culinária, a história, geografia, os filmes do Jan Švankmajer, as peças do Václav Havel... à la Breakfast at Tiffany’s, nessa época adotei uma gata que nomeei Kočka. O sonho acabou quando ela arranjou outro emprego e não pôde mais me dar aulas no horário possível pra mim. Mas estou divagando. Voltando aos livros. Tem aquelas coisas que eu penso sem saber, que eu quero sem notar e só descubro nas palavras de um personagem. Quando o Luís de Matos diz:

“No íntimo, todavia, eu gostaria que suas mágicas fossem verdadeiras: assim o mundo do sonho voltaria a ser mais forte que o da realidade.”

Eu me sinto da mesma forma de quando li A Streetcar Named Desire pela primeira vez e congelei na primeira frase da resposta da Blanche ao desejo do Mitch de se manter realista: I don't want realism. I want magic!

E tem tanta coisa que eu preciso descobrir e redescobrir! Conheço tão pouco de Kant, por exemplo, e vi que preciso saber mais. Quanto mais leio, livros de Gustavo Bernardo, Kafka ou Sartre, mais eu encontro respostas e parece que as perguntas mudam no momento em que alguma dúvida é sanada. E que talvez eu nunca tenha tempo de ler justamente o livro com “A” resposta – que no fundo eu sei que não existe.

“É preciso entender que a coisa que se deseja não é real, apenas o ato de desejar pode ser real.”

Em Monte Verità, o professor brasileiro que estudava um linguista tcheco (ahá, Flusser!), eu sorria sozinha lendo as menções, querendo subdividir-me em duas e correr para ler Flusser, e as suas obras sobre ele. Lembro das menções em aula e o site também é incrível fonte de informações para uma leiga como eu. Meu próximo mergulho, certamente.

Além disso, adorei a defesa anti-especista que você fez nos dois.

Viva a Quinta Intervenção!

O terceiro foi Pedro Pedra. Pedro, que traz também uma sensação de cumplicidade em relação à minha própria infância, com as tardes que ele passava na casa da vó, criança, sozinho. Tive as mesmas tardes quando, morando no Méier com minha mãe, estudava no Instituto Isabel na Mariz e Barros e passava as tardes na casa da minha vó na Tijuca, indo pra casa com minha mãe somente à noite.

Em relação às nossas aulas, quando ele ficava deitado na cama imaginando os pais mortos (inevitável lembrar do quanto eu e minhas colegas idolatrávamos “Chiquititas”, atuando como as personagens no recreio, imaginando aos 5, 6 anos de idade que estávamos num orfanato divertidíssimo).

Em relação ao Norman com suas espiadas pelo buraco da fechadura, pelo buraco no portão.

A procura, o desencontro, as reuniões para criação do grêmio, os “companheiros” que de companheiros não tinham nada.

Não consigo ser mais concisa ou conter minha empolgação! Sobre o próximo, porém, serei incapaz de dizer o que quer que seja. Eu sei que teria muitas coisas a dizer sobre ele, mas quero manter a experiência etérea, a minha viagem interna. Meu livro favorito, até agora, foi Reviravolta.

Não li ainda Me Nina, encomendei assim que terminei Reviravolta e aguardo sua chegada.

O livro deu tantos nós na minha percepção, fiquei tão absorta que imediatamente após terminá-lo, li mais uma vez. Não posso dizer muito justamente para não tentar descrever e racionalizar as formas como o livro me tocou, mas novamente as referências à República Tcheca me foram muito caras, todos os espelhos, seja o de 3 faces da mãe, sejam os hologramas, as mãos de Escher, as peças no tabuleiro, os Pedros (tantos Pedros!) ou o pedido do Velho, espelhando o Pedra, para que Maria coçasse suas costas.

“A mãe não está no jogo, o que é parte essencial do jogo.”

E uma sensação que eu tive lendo os três primeiros livros, das perguntas que vão mudando em função daquelas contidas nas próprias respostas foi reiterada pelo Segundo Sábio.

“O segundo sábio não concorda. Ele afirma que a verdade tem a forma de uma ilha cuja costa é recortada por uma infinidade de saliências e reentrâncias. Caso se recorra ao procedimento de aproximação por polígonos, a borda fragmenta-se a cada tentativa e forma mais saliências e reentrâncias. A série de polígonos não converge em direção a nenhum limite. Quanto mais próximo se estiver da verdade, tanto mais distante se está da verdade.”

E depois, de forma mais direta: “As respostas se modificam junto com as perguntas.”

A questão da crença da percepção do objeto que impede a compreensão da repercussão do objeto em si mesmo me lembrou o que você disse em aula sobre a maçã, que seríamos sempre incapazes de observar e absorver a percepção de forma completa. Sempre se ignora alguma coisa. Mesmo dissecando-a, perde-se o todo.

Sou absolutamente incapaz, tal como sou hoje, de elaborar mais sobre algo que estimo tanto sem destruir a sensação que a lembrança da experiência evoca. Um dia, após ter lido Me Nina e zilhares outros livros, vivido mais e crescido na vida vou poder escrever algo que exponha melhor a minha impressão do livro, que realmente conversa comigo.

Agora ela... Lúcia, Lucíola, Maria da Glória.

É importante dizer que li Lúcia, me lembrei de forma muito esmaecida de Lucíola. Li a obra de Alencar aos 15. Hoje aos 21, não conseguia conjurar as impressões, muito prejudicadas pela professora alencarette, que tive na época. Percebi que era necessário reler. Reli. Na releitura, li outro livro. Lembrei dos seus comentários na aula. Lembrei de minha revolta com a professora e com o autor. Percebi coisas que não podia em 2008. Odiei Alencar, ou Paulo, mais um pouco pela obsessão com a cor branca, comparando a pele da mulher com o tecido do roupão, mal podendo conter-se no desejo de vê-la morta desde o início. A forma como ele vive e ela morre, culpada de sabe-se lá o que. O Romantismo é bizarro. Adorei sua Lúcia negra.

Terminada a releitura, vi que precisava reler os dois simultaneamente, tentando acompanhar a progressão. Reli. Fiz um sem número de anotações, referências, associações e pode imaginar a extensão da minha confusão para organizar meus próprios pensamentos e realmente falar o que importa.

Relendo Lucíola, achei ainda mais triste do que a primeira vez. A personalidade, inteligência e independência dela, superiores a de Paulo foram prontamente vingadas. Não vou me prolongar nesse ponto porque sei que você já sabe, melhor do que eu, a extensão.

Lúcia! Antes de qualquer coisa, adorei o livro, professor. Como aluna, como leitora, o que for. O desfecho do Alencar do livro foi uma criação genial. Reviravolta. Quando comecei a leitura e o vi no lugar de Sá no diálogo com Paulo acerca de Lúcia, não podia imaginar aonde ele chegaria na história. Ali no começo parecia ser apenas uma brincadeira para inserir Alencar, mesmo que um homônimo, um doppelganger, em sua própria teia. Um Alencar que leva a própria filha à morte, à ruína. Assim como Alencar autor criou uma Lúcia maravilhosa, perspicaz apenas para destruí-la, fazendo-a agonizar capítulo a capítulo, como pai supremo, deus (irascível como no Velho Testamento...).

E o Paulo professor, Lúcia aluna. Seres humanos um pouco mais inteiros, um pouco mais fragmentados também, contudo mais complexos. Em Lucíola vejo Paulo se ocupando de torturar a “amada” por quase 29 capítulos. Agredindo, sumindo, voltando, pedindo perdão, sendo perdoado e reiniciando o ciclo. Pelo menos como professor, as analogias com o xadrez e almoços com o Alencar ele parece ter mais raízes na vida além de passar o tempo todo obcecado por Lúcia. Ele está sim, confuso, tentando desvendar suas Lúcias espelhadas, invertidas, mas a mesma. O resto pode estar prejudicado pela obsessão crescente, mas existe. Existe mesmo eneavoado pela prancheta, bilhetes misteriosos, a gêmea voraz, a outra virgem, alguma casada e com filho, Méier, Rua Taylor, toda a confusão mental resultante das aparições, alternâncias, mistérios e sumiços das duas.

A sensação de déjà vu com os diálogos reencenados se torna muito mais interessante com a busca, a tentativa de pescar as diferenças, inversões e o sarcasmo como quando Lúcia afirma que como daquela vez ele não a veria nunca mais e ele confabula:

“Não compreendi, então, aquelas palavras. Achei-as mesmo demasiado literárias, como se colhidas nos primeiros capítulos de um dos primeiros romances de um autor menor, publicado às próprias expensas. Sem dúvida ali se escondia uma metáfora, ou mesmo uma metonímia (quem sabe uma anáfora), mas eu não atinava com o seu significado, talvez porque não me lembrasse do que pensara, outrora, alhures, tomado por pensamentos, blusas e pranchetas excessivamente presentes.”

E o próprio Alencar, confuso com as falas do seu próprio romance, ou do romance do seu espelho do século anterior, confundindo o passeio na Glória com a festa da Glória (ou até com a Maria da Glória...).

“Lembravam-me as palavras do Alencar.”

Ou então na aula, com Lúcia na primeira fila.

“Seria fácil, por exemplo, comentando a superioridade moral de Isolda e Tristão, que morrem por amor, sobre os personagens dos romantismo brasileiro – em que apenas as heroínas, em geral, morrem de amor, deixando tristes, mas convenientemente vivos, os seus guapos e apaixonados mancebos – mas o nervoso, e talvez a juventude, não me ajudaram naquele instante.”

E a noção dele de que era aluna (ainda que com frequência enormemente espaçada), criando ainda mais tensão no relacionamento. “Bom que fosse ‘minha’, ruim que fosse aluna.”

A Lúcia nua das páginas da revista, fotografada assim pelo pai, exposta assim por Alencar e as palavras que Paulo adivinha pelo rosto da moça.

“Era como se dissesse, não admito que ninguém adquira direitos sobre mim. Era como se dissesse, a minha casa é minha. Era como se dissesse: no meu corpo os recebo sempre como hóspedes, mas como donos, nunca. Jamais.”

E dizia mesmo, lembrando a Lúcia ancestral.

— “É o seu engano, continuou o Cunha que estava de veia. A Lúcia não admite que ninguém adquira direitos sobre ela. Façam-lhe as propostas mais brilhantes: sua casa é sua e somente sua; ela o recebe, sempre como hóspede; como dono, nunca. Na ocasião em que o senhor a toma por amante, ela previne-o de que reserva-se plena liberdade de fazer o que quiser e de deixá-lo quando lhe aprouver, sem explicações e sem pretextos, o que sucede invariavelmente antes de seis meses; está entendido que lhe concede o mesmo direito.”

 As Lúcias de Gustavo Bernardo são tão misteriosas e enigmáticas que Paulo perde o fio do seu próprio desejo pela(s) moça(s) e se questiona, enfim: “Eu me encontrava apaixonado, ou tão-somente intrigado?”

As referências à literatura, cinema e particularidades da época também são uma viagem. Adorei encontrar Hitchcock ali, seja pela menção a Rear Window ou a presença inegável dos pombos nos momentos mais tensos. A comparação do melodrama das moças com as tragédias de Nelson Rodrigues. Os meios de transporte, as ruas, o clima. É como estar em 1955.

“Lúcia era duas, estranhas irmãs gêmeas em negativo uma da outra (negando uma à outra) ou as Lúcias que eu via eram uma só, disfarçando-se de si mesma como num filme do Hitchcock?”

A inversão no diálogo sobre ter irmã também foi interessantíssima, afinal de contas, aprende-se ao final da leitura da obra de Alencar que Lúcia teve, sim, uma família que escolheu sacrificá-la sem ao menos recusar os frutos daquilo que o pai (sempre o pai...) dizia ter tanta repulsa.

 — A senhora me faz saudades de minha terra. Lembrei-me de minha casa, e das tardes em que passeava assim por aqueles sítios com minha mãe e minha irmã.

— O senhor tem mãe e irmã! Como deve ser feliz! disse Lúcia com sentimento.

— Quem é que não tem uma irmã! respondi-lhe sorrindo. E minha mãe ainda é muito moça para que eu tivesse a desgraça de a haver perdido.

— Perdi a minha muito cedo e fiquei só no mundo; por isso invejo a felicidade daqueles que têm uma família. Há de ser tão bom a gente sentir-se amada sem interesse!

Ela não foi amada pela família. Menos ainda sem interesse.

“Ah, mas você tem pais e irmã!, exclamei, ousando chamá-la por ‘você’. Como deve ser feliz, completei (não tive coragem de perguntar qual era a cor da pele – dos olhos – da irmã). Ela estranhou a exclamação, afirmando, em contrapartida: quem é que não tem uma irmã. E meus pais ainda são muito jovens para que eu tivesse a desgraça de os haver perdido.”

Alencar, que reside no Largo do Machado (!), tem uma estátua de um anjo de bronze no jardim, como a Adriana da “Sonata” de Veríssimo. Entendi isso como uma sugestão de viagem no tempo. O Alencar professor e o Alencar, o José que funda a ficção brasileira. E ele é tão falho, tão oposto a sua postura acadêmica, tão profundamente patético na relação com suas Lúcias que sua vergonha se torna o que há de mais interessante nele, que tenta parecer frívolo e superior durante a maior parte do livro mas esconde a chave para a maior parte dos mistérios. Que tem uma complexidade (e perversidade) que tenta esconder mas que revela, enfim, em suas dissertações finais.

“A vida da minha irmã é um romance que ninguém deveria ter escrito, suspirou, fundo, mas, assim mesmo, escreveram.”

Os jogos com os nomes, o pai Dr. Silva Rocha, o marido-fantasma Marcos Couto. Os labirintos imaginários. As Lúcias, Lúcia antiga, Lúcias irmãs complementares, Lúcia Antígone, que não age, porque se limita a ser. As Lúcias que precisavam contar histórias.

“Aquela história. Parecia um jogo de espelhos côncavos refletindo outros espelhos – estes, convexos. Ou então, quem sabe, um tabuleiro.”

Que mais poderia eu dizer que você já não disse nessa frase, professor? Ou em tantas outras, que trazem a essência de Paulos, Pedros, Lúcias, Marias, anotadas de forma irregular no meu caderno, retiradas dos livros e cercadas de comentários que eu mesma fiz? Só posso agradecer por ter me mostrado o Alencar novamente, dessa vez mais plural. Eu tinha adquirido uma visão puramente negativa e associada à professora antiga. Não conseguia descolá-los, agora posso.

Depois desses, li a seleção dos contos de amor e ciúme do Machado. Eu não conhecia “O Machete”, obrigada por me apresentá-lo. Assim que terminar esse email, começarei O Problema do Realismo de Machado de Assis. Redação Inquieta e Conversas com um professor de literatura também me esperam na estante. Me Nina está a caminho, no correio. As obras que me faltam já estão todas selecionadas, volumes comprados e aguardo apenas o envio agora. A única que não consegui, nem mesmo na Estante Virtual, Livronauta e nos sebos do centro que conheço, foi Pálpebra. Você tem alguma idéia de como eu poderia encontrar o único volume que falta para a minha estante?

Professor, no dia 3 de setembro estarei lá, como aluna e leitora e feliz pelo processo de aprendizado e crescimento que continua. Com seus livros, continuo sua aluna para sempre, grata pela forma como a vida vai transcorrendo fora do meu controle, e embora às vezes seja amarga, compensa com essa forma de emoção indefinível, com traços de felicidade, gratidão e senso de infinito. Entrei na UERJ sem saber o que esperar, sem saber quem eu seria ali. Hoje reconheci tantas coisas, descobri tantas outras. Gente como você, que me faz querer lutar, saber, desaprender, reaprender e aceitar que o mundo não está a minha disposição, bem longe do meu controle e que isso é bom. Pessoas como você e o Bruno (Deusdará, que foi meu professor de Linguística) me fizeram perceber que eu posso acreditar, existir, tocar os outros até sem saber e realmente fazer alguma diferença (espero que isso não soe cliché, mas o que posso fazer?). Vocês me fizeram querer ser professora também e lutar por isso. Você me lembrou do motivo pelo qual eu sempre gostei de escrever e que uma vez eu li no Cartas a um jovem poeta, do Rilke:

"O senhor me pergunta se os seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Envia os seus versos para revistas. Faz comparações entre eles e outros poemas e se inquieta quando um ou outro redator recusa suas tentativas de publicação. Agora (como me deu licença de aconselhá-lo) lhe peço para desistir de tudo isso. O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não devia fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a  escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples "Preciso", então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso."

Enfim, a necessidade. Muito obrigada, professor, e até breve! 

Rio de Janeiro, 14/08/2014.


e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com