A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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A HISTÓRIA DE UMA PAIXÃO OBSESSIVA

Dau Bastos

 

Gustavo Bernardo pratica literatura no sentido de exercício arriscado com a linguagem. A noção, herdada dos primeiros românticos alemães, é partilhada por quase todos os escritores contemporâneos. À diferença de muitos de seus pares, porém, Gustavo conhece a história do balizamento do campo em que atua, o que lhe permite explorá-lo integralmente. Seus ensaios são valorizados pelo apuro estético e seus textos ficcionais constituem planos de passagem a amplos horizontes alusivos.

Em seu último livro, o dublê de escritor e professor leva ao ápice a busca, iniciada há quase um quarto de século, quando de sua estréia no mundo das letras. Com "Lúcia", ele demonstra que o cruzamento entre teoria e ficção não implica necessariamente em atrito e, na verdade, pode-se constituir de fértil ponto de contato. Basta que se assimilem bem os elementos heterogêneos colhidos nestes dois territórios complementares e vise-se à produção da prosa artística.

"Lúcia" recoloca em cena os personagens principais e o próprio autor de "Lucíola", o escritor José de Alencar. À homenagem evidente ao fundador de nossa literatura, Gustavo associa uma saudável traição, ao tratar o relato original com a crueza de Nelson Rodrigues, que excedeu no sentido do fel e, assim, contradisse o derramamento afrancesado com que José de Alencar se restringira à periferia da retórica. O contraponto é possibilitado pela transposição do enredo para os anos cinqüenta, quando o dramaturgo carioca empreendeu uma tematização radical do abismo humano.

Para refrescar a mente do leitor, lembremos que "Lucíola" conta um caso de amor vivido em 1855, entre o provinciano Paulo e uma rica prostituta cujo nome de guerra dá título ao livro. O rapaz acaba apaixonado pela amante, de quem também concentra as atenções. Todavia, imbuído de um moralismo que o tempo nos permite chamar de calhorda, constrange-se de passar por manteúdo e a empurra para os braços de outros. O véu com que se camufla é mimetizado pelo próprio estilo de Alencar, que recobre de metáforas até mesmo as retiradas de corpete da rapariga.

Em solução contrastante com a verossimilhança que tanto privilegiava, Alencar acaba convertendo a cortesã, que volta a se chamar Maria da Glória, recupera a "virgindade da alma" e termina morrendo de um aborto provocado -- por considerar o corpo impuro para dar à luz. Levada a se prostituir para pagar os remédios passíveis de salvar seus familiares da febre amarela, a moça não tem culpa de resvalar para o que muitos chamam de sarjeta, mas é punida pela sociedade de então e pela própria narrativa. Beneficiado pela conivência do autor, Paulo contribui para a ruína da mulher sem que, por isso, perca a pose de herói.

O livro de Gustavo brota justamente das falhas do romance de Alencar, de cujos personagens inverte o movimento. Paulo é um professor universitário enredado em normas gramaticais e outras cristalizações livrescas, mas inábil para se mascarar. Principal veículo da auto-reflexividade que perpassa o escrito, diz de si mesmo: "Minha vida, para ser sincero, tinha a cor de um quadro-negro e a estrutura sintática de um glossário: não era muito interessante. Era, mesmo, desinteressante".

Mas a casmurrice e a alheação frígida de Paulo são quebradas pela gana sexual que passa a sentir por uma suburbana chamada Lúcia, que o leva a um desbragamento animalesco, descrito com a força e a ironia dos diálogos rodriguianos. As desajeitadas investidas do catedrático contribuem para a tragédia de seu objeto de desejo, mas a surpresa típica de neófito na vida o autoriza como narrador, da mesma maneira que seu desamparo resulta em seu resgate.

Na redoma acadêmica em que vive, Paulo tem como grande referência um professor chamado Alencar, que embaralha as condições de autor e narrador. Encarnação exagerada de anacronismo, o homônimo do autor de "O guarani" é atacado frequentemente por delírios que o transportam até o século XIX, do qual descreve cenas no presente do indicativo e verbaliza valores que desposa com evidente ambiguidade. Seu desmascaramento moral ocorre paulatinamente, em crescente rodriguianização de sua imagem.

Além de utilizar os personagens como pontes entre os dois séculos, Gustavo nos faz recuar no tempo pelos vocábulos que emprega e pela maneira como os dispõe. Por efeito de sua requintada verve, expressões típicas de nosso passado sofrem uma ação combinada de embelezamento e perspectivação. Constituem uma trama envolvente cuja acolhida cresce em prazer devido à atividade a que somos impelidos: de abrir a concha em que a literatura se transformou desde que se assumiu como discurso intransitivo, para visualizarmos eventuais pérolas que a povoam -- e que "Lúcia" ilustra à perfeição.

 O Globo, 25/09/1999

e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com