A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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LÚCIA

Flávio Carneiro

Caro Gustavo,

Dizer que gostei muito do Lúcia é fácil, explicar já é um pouco mais complicado. Anotei alguns comentários, que serão complementados na discussão com minhas turmas da graduação e depois, na aula seguinte, com você mesmo.

Como te disse, a proposta em si do romance já me agrada muito. Pra mim, o que marca mesmo uma diferença entre a tendência da literatura brasileira dos anos 80 pra cá e a anterior é a assunção (nada a ver com o Paraguai) da escrita como forma de leitura ou releitura. Nesse caso, relemos não como os primeiros modernistas (através da paródia, também uma forma de paixão, mas não assumida), ou como os da geração anos 30 (relendo “contra” os da geração de 20), ou ainda como os dos anos 60/70 (relendo “contra” os “alienados” neo-naturalistas e relendo “contra”, ao mesmo tempo, o “texto” escrito pela ditadura), e nem como Guimarães e Clarice. Quer dizer, não relemos  com a intenção de inaugurar o absolutamente novo, mas como uma proposta de “transgressão silenciosa”, mais sutil, espécie de referência e reverência (como escrevi num artigo sobre o filme Ricardo III: um ensaio, do Al Pacino, que reescreve Shakespeare).

Lúcia é a releitura de um romance de formação, Lucíola. Formação de uma trilha: a do romance urbano, mais precisamente: urbano-carioca. A escolha em si do objeto de reescritura é sintomática, rica: transgredir o modelo transgressor (romantismo) não pelo alarde mas pela veia crítica, cirúrgica. Transgressão diferente porque não nega, apenas resgata e realinha, acrescentando uma dimensão que não está mas poderia ter estado no original, se os tempos fossem outros.

Poderia te falar de muitas coisas, que certamente surgirão nas aulas sobre o livro: a estratégia do suspense (levada ao quase-limite, sobretudo da metade do romance pra frente); o intricado jogo narrativo em paralelo com o jogo de xadrez (você já releu recentemente “Os crimes da rua Morgue”, do Poe? Acho bem interessante a diferença que o narrador faz, nas primeiras páginas, entre o jogo de xadrez, de damas (!) e o uíste. Vale a pena dar uma conferida); o modelo aristotélico, a tragédia grega, como uma espécie de fantasma que acompanha a narrativa e se mostra de cara inteira no diálogo com o estilo romântico.

O que mais me interessou, no entanto, foi a estratégia de cruzamentos que se dá no romance. Vejo pelo menos quatro, que mereceriam análise mais aprofundada, e que vão a seguir em forma de tópicos, acompanhados da devida advertência: não costumo escrever assim não, hem! São cruzamentos que se dão em quatro, digamos, instâncias:

a) no tempo (cronológico): séc. XIX – séc. XX, e espaço: as cidades do Rio, entre outras;

b) na história da literatura brasileira: Alencar (autor e personagem, o que seria outro cruzamento, sem dúvida) – Gustavo (autor e personagem, este enquanto a “persona” de professor universitário);

c) nas encenações, que são três (releve se isso já está parecendo análise estruturalista): da prática da escrita; da prática da sala-de-aula; da prática amorosa. As três encenações, por sua vez, se entrecruzam no romance – p.e.: pp 76, 80 e principalmente 83;

d) nos limites de ficção e ensaio (filosófico, sobretudo).

Tudo isso, desenvolvido, daria uma tese, que, espero, alguém venha um dia a realizar, porque Lúcia merece. Tese que poderia ter, como epígrafe, uma frase do próprio romance: “Os livros, como este, reescrevem outros livros” (p. 178), omitindo estrategicamente o restante da frase, pra não dar mole pro leitor (da tese, bem entendido).

 Fiz várias anotações nas páginas do seu romance. Ficam pra depois, certamente para a aula da UERJ.

 O comentário crítico final: gostei pra caramba! Quando vem o próximo?

Rio de Janeiro, 02/03/2000

e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com