A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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DUAS LÚCIAS NO TABULEIRO

Furio Lonza


Com honrosas exceções, caso de Hilda Hilst, João Gilberto Noll e, mais recentemente, Carlos Nejar, a grande maioria dos escritores brasileiros insiste em contar casos pitorescos de forma linear e descompromissada de maiores ousadias criativas. O máximo que se dão ao direito em termos estilísticos é de alguns flash backs, que são descritos precavidamente em tom sépia, para não confundir com o colorido da narrativa no presente. Ao fazer uma simbiose competente entre estas duas tendências - a pirotécnica e a comedida -, Gustavo Bernardo retoma um dos filões mais interessantes da moderna literatura brasileira: contar uma história de forma diferente, esbanjando erudição e criatividade e dialogando com o romantismo clássico num estilo - digamos assim - brejeiramente carioca.

Com Lúcia, o autor debuta no romance adulto de maneira arrojada, um tijolaço que mistura José de Alencar, Nelson Rodrigues, tragédia grega e teorias palpitantes de Georg Groddeck. Oscilando entre o amor cortês e o carnal, a editora nos informa que o texto de Gustavo Bernardo faz uma espécie de clonagem de Lucíola, de Alencar.

Mesmo não tendo a mínima idéia do que isso possa vir a ser, na verdade, Lúcia é uma espécie de jogo de xadrez, um teorema euclidiano, uma equação de segundo grau, onde o leitor vai decifrando as incógnitas aos poucos, avançando os peões com inteligência, desviando das aberturas tchecas para não tomar um xeque-mate logo no início, defendendo com gana os bispos e a dama e identificando com sensibilidade e uma alta dose de intuição as armadilhas e tocaias narrativas que o autor vai semeando ao longo do livro.

Mas que ninguém se preocupe: a história de Lúcia e Paulo é de amor. Um amor trágico, diga-se, com direito a abortos e suicídios, pais trocados, incestos, traições, paixões descontroladas e sexo. Há exageros típicos de um autor estreante na ficção, como quem se vê diante das enormes e mágicas possibilidades da literatura e se lambuza com elas, usa e abusa da técnica, criando firulas e imagens estilísticas nem sempre com uma finalidade imediata. Dos caminhos narrativos que Gustavo Bernardo poderia enveredar, ele opta por absolutamente todos. Por vezes, isso é um deleite; noutras, um percalço à leitura. Mas os enigmas se dissipam no final, através de cartas esclarecedoras.

A história propriamente dita é a seguinte: o professor universitário Paulo da Silva Rocha apaixona-se por Lúcia, uma jovem branca que é irmã gêmea de outra Lúcia, esta negra. Na realidade, não fica claro se são duas ou apenas uma Lúcia, clonada, virtualizada, digitalizada literariamente. Esta figura misteriosa e volátil é noiva de Marcos Couto que é preterido com a entrada em cena do nosso anti-herói. Começa o drama.

Lúcia, essa Antígona moderna que mora na rua Taylor, na Lapa, aparece e desaparece com uma velocidade espantosamente kafkiana e tem uma vida - para dizer o mínimo - atribulada. Com a mesma desenvoltura que transa com Paulo, ela se oferece despudoradamente nua a outro professor, sem saber que ele é seu verdadeiro pai.

Aflições, angústias e algumas revelações controversas mais tarde, Gustavo Bernardo acha que o limbo em que meteu o leitor precisa terminar e dá a chave do enigma, não sem antes dissertar sobre Sófocles, a teoria do jogo de xadrez de um manual de Becker e clássicos em geral.

O jogo termina num capítulo impagável, onde o autor deixa claro que veio para ficar. Em seus próximos lances no tabuleiro da literatura, ele pode se tornar um dos escritores mais instigantes da atualidade. Para isso, ele conta com um estilo personalíssimo e uma criatividade e paixão pela literatura que deixa a quilômetros de distância outros autores do gênero. A forma fluente e segura de narrar e dialogar com o leitor agrega um humor sutil que neutraliza o excesso de erudição, à maneira de Machado de Assis.

 Jornal do Brasil, 02/10/1999.


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