A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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ROMANCE DA AUSÊNCIA

Horácio Rodrigues

 

Como nasce um escritor?

No momento que ele escreve e esses escritos mergulham na gaveta para a eternidade ou quando seu livro chega ao leitor?

E como nasce o leitor, aquele ser em extinção que compra livros? E lê.

Pode nascer de duas maneiras, pelo menos não conheço outras: em casa, com papai e mamãe, como aprendeu a mastigar de boca fechada, ou nas escolas, se tiver sorte, com algum raro professor.

No meu caso, pai e mãe que no quesito curiosidade superaram sempre meus professores, arautos da obviedade. Uma exceção: professor Prado Veppo.

Infelizmente não logrei o privilégio de ter como mestres, iluminando meu acidentado caminho, professores como Carlos Nascimento Silva e Gustavo Bernardo.

Poderíamos dizer que não é culpa só deles, que o governo os remunera mal, que a universidade está enfraquecida, ferida que foi por seu único predador, o governo. Apesar das evidências os professores devem apontar novos rumos, o da revolução pelo menos, combatendo a alienação.

Pois bem, teorias à parte e obviedades à margem, subversão no centro.

A subversão de Gustavo Bernardo com Lúcia. Partindo de Lucíola, de José de Alencar, Gustavo Bernardo chega aos dias em que despontava Nelson Rodrigues. Neste trajeto o autor, contrariando a ordem dos romances lógicos, cria um enredo ao mesmo tempo que arejado, denso e pleno de energia.

Romance da ausência, da permanente busca e do auto abandono.

A partir de um encontro casual, deflagra-se uma série de desencontros, entre eles o desencontro do protagonista que na busca desenfreada acaba por se perder. Tentando encontrar a luz, recorre a seu orientador, o estranho professor José de Alencar, que imaginava-se em 1855 e não em 1955.

Paulo encontra Lúcia no pátio da igreja da Glória onde brota a paixão. Lúcia, que antes tinha pele escura e olhos verdes apresenta-se na faculdade de Letras, como sua aluna, agora de pele clara e olhos negros.

A paixão move Paulo desde aquele instante na igreja da Glória. É lógico também que a paixão torne a vida de Paulo um tanto ilógica.

A confusão Lúcia torna-se o motor da vida de Paulo, energia e força que fora de controle anunciam o perigo. Acuado pelas interrogações Paulo busca a orientação de seu mestre, José de Alencar, que lhe apresentara Lúcia na igreja da Glória. Do encontro com Alencar, Paulo não colhe soluções, ganha solidão, abandono (sem reticências, mestre, com parênteses).

Lúcia, a meu ver, não é um romance de passagem mas de ruptura, a morte paralisando o tempo, a vida culpada gerando conflito. A melancolia atestando o ritmo cambaleante da vida.

Não há riso em Lúcia, melancolia, começo e fim da tristeza, angústia e ironia confirmando a transitoriedade da realidade material como bem disse Freud: "- O pensamento de que toda beleza está condenada à extinção, pois desaparecerá, e também toda a beleza humana e tudo de belo que os homens criaram ou poderiam criar."

Paulo comprova que o lastimoso pode ser a verdade e que a fugacidade pode ser o encanto da vida. O enigma, superar a melancolia desfazendo sua relação com o desespero.

O BAGUETE DIÁRIO,  22/10/1999.


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