A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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SOBRE TÍLBURIS, XADREZ E ROCK N’ROLL

Paulo Polzonoff Jr

 

O ano é 1955. O professor de gramática e ex-futuro enxadrista Paulo da Silva, junto com seu mentor, José de Alencar, encontra Lúcia no adro da Igreja da Glória. Naquele instante Paulo se apaixona pela moça, que ele julga ser a mesma que encontrou anos atrás quando esperava um bonde. José de Alencar (o professor) insinua a vida fácil de Lúcia, o que atrai ainda mais a atenção de Paulo. Só que Lúcia não é uma só; tem uma irmã gêmea que também se chama Lúcia. Uma é a encarnação do amor cortês, tal qual exaltado nos romances românticos; a outra, menos idealizada, vive os dissabores de uma contemporaneidade latente.

Este é o enredo de Lúcia, de Gustavo Bernardo, indicado ao prestigioso Prêmio Jabuti deste ano.

O livro estaria livre de considerações adversas não fosse um pecado quase mortal neste tipo de romance: a transposição histórica. O autor, que nasceu em 1955, optou por escrever uma história neste tempo. Nada de anormal, claro. Acontece que, por mal feita, ao leitor, a impressão é a de um livro ambientado num passado forjado, cheio de estereótipos que o tempo consagrou, mas que de modo algum correspondem à realidade. Gustavo Bernardo, ao tratar da Década Dourada, aproxima-a demais dos anos 90. Ao falar de Nelson Rodrigues, por exemplo, as personagens usam gírias e considerações sobre o autor que se percebem tiradas de uma biografia contemporânea nossa. Ao retratar o Rio de Janeiro de 1955, o narrador o faz como um carioca pouco satisfeito com as modificações da cidade, o que não corresponde ao espírito progressista da época.

A falha de temporização do romance passaria despercebida se não ficasse tão patente a necessidade de situá-lo num momento histórico definido. Como isto não ocorre de maneira eficaz, o narrador, confuso entre tantos tempos distintos, transforma-se num “monstrengo literário”, que age como se na década de 50, pensa como se estivesse no século passado e escreve como nos anos 90. Quando na verdade a relação literária pretendida é um paralelo muito exato entre um século no qual a literatura idealizava todos os seres e sentimentos – o século XIX – e uma época que, a seu modo, também idealizou o amor e os costumes – a chamada Década Dourada, o período de euforia que se seguiu ao pós-guerra.

Do pecado às virtudes, pois.

Paulo da Silva vive com as Lúcias distintas um mesmo amor platônico. E é justamente na dicotomia das duas Lúcias que reside a força do texto de Gustavo Bernardo. Fazendo uso de comparações que nos remetem irremediavelmente à prosa de José de Alencar (o escritor), Bernardo compõe personagens cujos atos ainda estão encharcados, por exemplo, do chamado “código do amor cortês”, que na Idade Média se prestava a regrar os relacionamentos considerados divinos. Mais: os personagens de Gustavo Bernardo estão também embrenhados de uma liberação muito particular do século XX (que não acabou ainda!), que mostrava sua primeira dentição nos anos 50. O embate entre modernidade e passado é, para Paulo da Silva, comparável sempre a uma batalha de xadrez. Ajuda a compor um ambiente de caos cronológico o Rio de Janeiro do livro: porque imbuído também de século XIX, os bondes nos ecoam como tílburis e os apartamentos como mansardas.

Por ser Paulo da Silva um professor de gramática e o romance estar sendo narrado em primeira pessoa, Gustavo Bernardo abusa das associações gramaticais que o pensamento de um personagem, que acredita que a gramática é uma representação da vida, pode suscitar. A metalinguagem é responsável pelos melhores momentos do livro: “(mas o vago lume de Lúcia persistia entre parênteses, no chão, encolhido, sem carinho e sem conforto, sem pedir consolo porque não tinha mais forças mas ainda chorava – chorava baixinho, as reticências vivas...) (p. 142).

Pelo uso frequente da ambiguidade narrador/personagem, cria-se uma espécie de cumplicidade que extrapola os limites do texto. O leitor deixa-se enganar e assim julga estar vislumbrando a composição do livro que lê. É possível aqui fazer uma relação com um recurso amplamente usado pelos prosadores românticos, que se diziam muitas vezes recebedores de um manuscrito anônimo, que reproduziam, ou teriam sido fiéis depositários de um diário que só agora era descortinado para o grande público.

Mais do que construir labirintos metalinguísticos, Gustavo Bernardo presta também um grande serviço ao ressuscitar, de forma lúdica, a prosa de José de Alencar, autor que, mais do que escrever folhetins açucarados, buscou a configuração de uma identidade nacional através de romances proto-regionalistas como O Gaúcho, O Sertanejo e até mesmo O Guarani, e proto-urbanos, como Lucíola, do qual foi tirada boa parte do enredo e os personagens de Lúcia. Ostracisado desde que o Movimento Modernista de 22, na sua fúria renovadora (se bem que atrasada com relação às vanguardas européias), elegeu o romantismo como principal alvo de seus ataques, José de Alencar tem sobrevivido nas letras brasileiras como um mero exercício didático para alunos do primeiro grau. Este lugar, no entanto, jamais fez jus ao deputado e escritor que inegavelmente ergueu os pilares fundamentais do romance brasileiro, pilares estes que escoram, de um modo ou de outro, toda a prosa do século XX.

Lúcia faz parte de uma literatura ainda órfã no Brasil. É um romance que certamente não entrará para o inchado cânone de nossa prosa – nem deve ser lido em comparação a tal. Cumpre, porém, um papel fundamental, que os escritores brasileiros parecem preferir ignorar: o do bom entretenimento. Gustavo Bernardo não almeja a Academia Brasileira de Letras. E é por não almejar uma glória romantizada e etérea que escreveu este ótimo Lúcia. Seu romance vem preencher o nicho das produções lúdicas que formam leitores em potencial de obras mais elaboradas, como Machado de Assis, Guimarães Rosa e – por que não? – José de Alencar. Autor de elogiados infanto-juvenis, Gustavo Bernardo ousa neste suspense metaliterário alcançar aqueles para os quais o romantismo (e entenda-se por isto todo um regramento que exalta o homem idealizado) não passa de balela de um século remoto.

RASCUNHO, nº Zero, abril de 2000


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