A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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EASY-RIDING/WRITING,
OU: EM BUSCA DE URSOS POLARES

Valeria Rosito

 

"Nós mesmos somos feitos de matéria curva, ou seja, de memória e invenção. Os livros, como este, reescrevem outros livros – primeiro como tragédia, depois como farsa, e adiante como tragédia novamente. [...] Relendo-me, admiro-me como tive a coragem de alguma vez, no correr destas paginas, deixar a memória rir e brincar, deixar o corpo excitar-se, quando o meu coração permanecia, e permanece ainda (talvez mais do que nunca, depois destas paginas), oprimido de saudade. E porque repassando na lembrança essa melhor porção de minha vida (a única porção da minha vida), alheio-me tanto do presente que acabo revivendo, lance por lance, aqueles dias de dor e ventura, como no primeiro instante que os vivi."

 

R.S.V.P.

Ensaio? Duro trafegar por um gênero incerto, em que, como já proclamado, “a escritura rivaliza com a análise”. Duríssimo despedir-se também daquele débil guarda-corpo de rodapés e referências, que flagram o escrevedor na luta pela comunicação, num equilíbrio frágil entre cacoetes acadêmicos e dicção arriscada. “- Limpo e só”, vocifera suave o édito para os comensais convidados, e, inadvertido ou inclemente, ameaça pensamentos-trapeiros com a porta na cara, se desobedientes ou incapazes da assepsia prescrita. “Descalços”, parece anunciar o convite para uma noite de gala. Zwischenzug.

Memória e invenção, como postuladas por uma das personagens em Lúcia, de Gustavo Bernardo, matéria romanesca curva sobre escrita rasurada, se não me livram da repetição trágica e farsesca, me afagam como herdeira, entre outros tantos pares solit/dários, de um legado que ora e aqui celebramos. Ao redor do banquete Comoções Literárias, anima e assusta saber-me, na escolha daquele pré-texto, memorialista e comentarista – por metonímia - de um de meus ‘criadores’, como me permito referenciar os que me abrem atalhos e abismos. Ao contrário da bagagem do narrador naquele romance, tabuleiros quadriculados ou substituição de damas por torres se afiguram como peças e lances inusitados em meu kit de primeiros socorros. Assim desprevenida (e desarmada), quem sabe consigo acompanhar até a esquina o mestre-enxadrista, disfarçado de easy-rider/writer, e ao menos acenar-lhe, junto ao séquito de discípulos atordoados, antes de uma nova partida sua... Desta feita, não a de xadrez, mas a da procura de ursos polares pelo mundo.

Minha elegibilidade à dolorosa e não menos venturosa herança cética, originada nos idos de virada de milênio, me condena perpetuamente à dúvida. E, assim, meu trecho-epígrafe pode não se confirmar como “aquele que mais [me] tenha comovido até hoje”, nos termos absolutos encontrados no convite de meu saudoso anfitrião. Indiscutivelmente, no entanto, ao dizer minhas dores e meus medos, ele participa de um feixe nervoso que enforma, a estes dias, minha experiência de ser e não ser.

 

“Não sabia até que ponto minha vida, meus amores, literatura” - ou, meu caso com Lúcia.

 

Meu pré-texto integra um romance que se ocupa de incontáveis travessias pelo espelho do “como se”, por vezes atentamente negligente do bilhete de volta. Toma lição como metáfora para saber, e faz da relação mestre-discípulo arena privilegiada para a fricção entre origem e originalidade. O binômio é tema assíduo e longevo nas rodas literárias (e também fora delas), em torno do qual revolvem ainda instituições do saber, seus campos de força, e suas redes de poder. Na tarefa crítica, “ansiedades de influência” e cambalhotas na linearidade (ilusória) do tempo respondem, respectivamente, por teses e estratégias retóricas, estéticas, e ficcionais, que procuram traduzir o aperto dos dois lugares daqueles agentes do saber: o do que presumivelmente ensina e o do que presumivelmente aprende. Na provocação do narrador em Lúcia para “deixar a memória rir e brincar”, uma madalena metodológica para a ocasião deste breve ensaio-memorial é oportuna. Que sua “matéria curva” ateste os efeitos indeléveis de um encontro-comoção para muito além das circunstâncias que o forjaram.

Interrompi por longo tempo a leitura de Lúcia em sua sequência climática e final. Não sei ainda se para poupá-la, como ao último gole do néctar no fundo da taça ou para afastá-la como à ambrosia passada, de indigesto ruminar. O salto pactuado para o outro lado do espelho me lançava de volta ao ponto de onde eu tentava sair. Voz e presença de quem não era feito de tinta e pena ressonavam teimosas, como a ditar de fora para dentro as linhas do romance. No papel, mestre e discípulo se confrontavam: o primeiro, acariciando um revolver negligentemente apontado, ora para sua própria face, ora para o abdômen do segundo. O olhar deste, orbitando frenético entre seu mestre-interlocutor e o Reprodução Proibida, de Magritte, reproduzido e exibido por sobre uma das paredes, recaía ainda sobre cartas espalhadas pelo chão. No desenrolar da trama, que a ambos envolvia, várias outras identidades geminadas, confusas também em torno de paternidades e filiações encobertas, revelavam-se finalmente, aumentando enigma e horror. Um território incapaz de ser palmilhado com as cartas e os códigos que se dispunham embaralhados. Nos termos de Paulo, o pupilo, um jogo sem regras claras.

Os ecos daquela escrita em decalque parecem me atingir em sua plenitude agora, quando a ocasião se insinua sobre a ficção, uma vez mais, e multiplicam-se discípulos em torno de um mestre errante e de sua easy-riding/writing. Escrever, andar, e procurar, variações de errar, são promessas inscritas no convite de um nômade por índole (cética e ficcional) que forja seu destino na ficção. O requinte dessa errância – tão sonoramente, renúncia – consiste talvez em afastar-se da lembrança, especialmente quando esta permite que o passado se torne jugo do presente, comprometendo ris(c)o e brincadeira, na esteira ainda de nosso narrador. (Que águas passadas não movam moinhos, somente os de Quixote!).

Ela, ainda a lembrança, ameaça viajantes de se tornarem peregrinos quando os obriga a consolidarem rotas ao invés de abrirem picadas. Pena, motocicleta e, quem sabe, aquela Rolleiflex sobre o console, de um dos lados do espelho em Lúcia, são adereços lúdicos que acompanham o mestre viajante em sua aventura aos pólos. Instrumentos de uma imaginação criativa, que prefere o jogo da palavra ao jugo das Letras. Zwischenzug!

Retomei a leitura de Lúcia na mesma sequência final e climática em que a havia interrompido há tempos, no rastro do confronto entre mestre e discípulo – os de tinta e pena, finalmente. Galhofa e melancolia ressonavam de dentro para fora agora. O romance se fechava de seu interior para dentro de mim. As personagens se davam conta da impossibilidade do trágico numa época em que as dores do mundo se restringem à esfera privada. Às antígones, avaliavam, restava-lhes apenas o sofrimento sem publicidade. Às mulheres de Lesbos, o enquadramento numa parede de um salão de um romance do século XIX. Ou a pose para revistas masculinas – num romance de finais do século XX. A destreza da rasura, no entanto, parecia atenuar o horizonte catastrófico enunciado. O exercício renovador da obliteração e a habilidade plena de enterrar fantasmas, lembrando de esquecê-los, sinalizavam, risonhos, para a hora e a maestria da partida.

Lição e memória, metáfora e mote daquele romance e deste ensaio sobre mestres e discípulos, exigem, finalmente, a deferência (sem referências) a um magistral libelo a favor do esquecimento, “a força de toda vida viva.” Segundo outro artífice do verbo, o desaprender, coroação paradoxal de uma carreira vã de adições equivocadas, se faz culminar com a Sapientia, etimologicamente desfiada como “nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível.”

Lúcia tempera com sabor e sabedoria as inquietações dos que aprendem desaprendendo. Surpreende o que se conhece com o tempero do que se cria. Finge seguir o risco do mapa quando se arrisca pelo território da invenção. Brinca com a miséria de mestres e discípulos, mascarados na ficção ou fora dela, de um ou de outro lado do espelho. Por isso me comove. Não pretende me ensinar.

Portanto, à mesa de Comoções Literárias. Persistem nas papilas dos comensais a memória da alquimia mágica, que lhes despertou no trivial simples de uma aula, de uma leitura, ou de um encontro, as qualidades daquelas iguarias que frequentam as mesas de banquete. Persistem sabor e saber nas trilhas dos que erram. Uma raridade, os que erram. Como as espécies em risco de extinção. Como os easy-riders/writers e seus ursos polares. Zwischenzug!

  Em: Comoções literárias. São Paulo: Annablume, 2014.


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