A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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Trecho

Anoitece. Balões japoneses sobem aos céus enquanto tropeçam no vento. A noite a mais fria do ano e embaixo dela uma festa prestes a esquentar o país, acordar síndicos dos prédios e chamar as crianças para pular a fogueira. 

Quando ele chega no quintal, os parentes em roda acompanham o esforço de certo balão japonês que balança além da conta: vai vai balão, sobe qual oração... 

Cada parente torce por um sentido diferente enquanto arrisca um torcicolo e acompanha acima o sonho de fogo e papel fino. Uns na verdade amam a chama. Outros de verdade amam sua forma tão frágil e aconchegante. Aqueles, à beira da roda, amam o vento. 

O balão parece apagar. Poderá descer aos braços de outro quintal qualquer do outro lado do bairro, isso se não o acolher um terraço frio. 

Mas, forte o vento. O balão se contorce, tira a nossa respiração, se contorce e lambe.
O fogo revive. O fogo morre. A bucha de algodão e cera desenha a crayon, rápido, o risco entre os prédios e o vácuo negro. No instante o escuro engole as cores. 

Olhando o que permanece no céu, aquele que chamam Timo. Na verdade um menino  que conta agora seus sete anos de idade. Ele recebe as notícias que injetam maioridade em uma pessoa. 

Alguém fecha o quintal a partir do momento em que elas chegam. São três. Elas chegam dependuradas na boca de vizinhos com fome e sede. A festa mal começou: os salgados, os doces e os refrescos não foram servidos. 

Servem-se as notícias. As três. Elas chegam dependuradas na boca de vizinhos, elas percorrem as laterais cimentadas da casa e se espalham no quintal como rastilho sem artifício. 

Pela primeira notícia, o irmão de Timo acaba de nascer, recebendo na pia de operações o nome de: Taman. 

Pela segunda notícia, a irmã de Timo acaba de não nascer. Sabe-se também que ela nunca mais nascerá e que receberia na pia de operações o nome de: Talia. 

Pela terceira notícia, a mãe de Timo morreu.


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