A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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ME  NINA
Dau Bastos

Desde o lançamento de sua primeira edição – em 1989 –, este pequeno livro ocupa um lugar especial em minha vida. Ao longo do tempo, li-o várias vezes e com prazer sempre renovado, para comentá-lo com os amigos e analisá-lo com os alunos, em processo que, além de ajudar em minha própria escrita, possibilitou um contato continuado com uma prova incontestável de que o caminho da experimentação não é o único, mas certamente é o melhor que a ficção brasileira contemporânea pode trilhar.

Situado plenamente na idade adulta, o protagonista concentra o relato na infância, por ocasião de uma festa junina realizada na casa dos pais durante a qual o compromisso com o divertimento se transmuta em mergulho na dor e no desconcerto, devido ao velório inesperado da mãe e da natimorta irmã, às quais a vida é negada em parto a que só sobrevive o outro gêmeo. Inaugural e avassaladora, a tragédia apenas reforça o luto da família, retratada não como berço da felicidade, e sim da inabilidade para a efusão e para o cultivo da alegria, o que faz com que o essencial dos sentimentos pareça sempre silenciado.

Contrabalançados pela melancolia e a tristeza, o lirismo e o maravilhamento dos verdes anos podem ser explorados sem que o enredo resvale para a pieguice. Fogueira, balão, bolo, refresco, modinha e até canção de ninar garantem espaço e ganham reiteração, contribuindo para imprimir um ritmo singular à narrativa, que, sincopada e elíptica, feita de frases fragmentárias e plenas de frescor, parece talhada à exaustão. Daí a exigência de um leitor menos dado ao embalo da ação do que ao sabor da linguagem, como diria o sensível francês.

Tal verticalização degustativa e ruminante é estimulada, além disso, pelo intimismo sombrio que perpassa os segmentos, nos quais as imagens se apresentam difusas, a chuva mantém longe o sol e a casa só deixa de ser cenário ao assumir ares de cemitério de entes e momentos que emocionam a ponto de magnetizar. Se o passado vivido é o imã do narrador, o nosso é o presente de fruição proporcionado por esta obra-prima, em que a concisão da novela se harmoniza a recursos da poesia para alcançar a profundidade do romance.


e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com