A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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ME NINA

Giselle Maria

Gustavo, oi.

Desculpe a demora em te escrever, mas de repente as muitas coisas pra fazer e resolver aparecem todas juntas, uma coisa! Mas não foram só problemas não, teve muita coisa boa no bololô também.

E entre essas coisas boas, seu livro. :)

“Escrever não iguala com revelar. A despeito disso, tudo se confessa no mínimo branco entre as linhas, quer a pena queira quer não”.

O primeiro trecho do seu Me Nina que me tocou foi este, esse poder que a literatura tem de “fingir” o que deveras sentimos. Poder que fascina e assusta ao nos darmos conta de que um que escreve nunca está imune ao que escreveu: lida com a palavra pisando em falso, areia movediça. E nessa “traição literária”, há entregas e voltas, lama e água cristalina, raso e fundo, claros e escuros, encontros e despedidas.

Encontros e despedidas como as de sua história, tocante, bela. A noite que não termina no quintal da família, pra mim, se inicia com essa sua frase quase verso de tão bonita: “...no meio da festa o padre e a pá e o corpo”.

A contradição (ou conciliação?) entre festa e luto se evidencia aí, e eu começo a perceber que se trata de um livro de memórias, cujos personagens, começo a achar, sim!, já estão todos mortos enquanto seu narrador me engana, me encarcerando com ele no passado, um narrador que confessa que escreve “para adormecer”.

As tias, com seus doces em excesso – a necessidade de nutrir para compensar a ausência de fertilidade, os seios murchos, a falta do alimento vital –; o pai com seu silêncio que pesa; a mãe e irmã que parecem apenas imóveis sobre a mortalha aguardando a hora de retornarem a seus lugares na festa; a mudez de Taman; o portão trancado; a chuva que demora a passar; tudo combina com um cenário de dor tão intensa porque silenciosa.

E enquanto vejo o quintal se transformar em cemitério (a pá, o corpo), vejo também que a minha festa se enluta, se enegrece. Tanto quanto a capa do livro, negra, como só poderia ser numa história em que “a noite avança por fora do peito de cada um”.

É um livro sobre a noite da morte, mas é também um livro de descobertas, de sensações. Vejo com alegria a Maria de Cristo, que conheci em Reviravolta, voltar em meio à fogueira, ou, o mais provável, retornar ao seu primeiro lugar.

Aliás, Reviravolta me parece a continuação natural desse Me Nina, pelas semelhanças na história, nos personagens. Pelo “tempo que perde o tempo” em ambos, “o tempo” que “pesa”... Por essas e outras que lê-lo é sempre um prazer, meu amigo, não canso de dizer.

E então amanhece. A música de ninar é um canto sombrio das tias que são sombras delas mesmas na lembrança. A vida dos meninos segue, tudo parece normal, mas o quintal, os corpos, a festa, a pá, tudo ainda está lá, congelado, na memória dos adultos que se tornaram. E essa memória que não cessa deixa claro que no fundo “a vida pertence à noite”, só isso. A festa e a morte estão de mãos dadas, a Me ninar, a nos ninar.

Eu poderia dizer muitas outras coisas sobre esse seu romance. Mas direi apenas isso: Me Nina é um livro triste. Mas não, não é uma tristeza de chorar, é uma tristeza de saber. Saber que a falta pode ser eterna, saber que a morte é inevitável, saber que a vida tem prazo de validade que se cumpre, sempre.

Há um consolo: o livro não nos deixa triste por muito tempo. Então, “...a alegria me atravessa, fina que nem a buzina de uma moto”: porque constato que a festa só explode quando anoitece, porque a vida engole a vida e é isso que nos faz grandes, fortes e serenos. Faz da gente humanos, humanos, meu amigo, apenas isso, isso que é tudo.

Prontos para encarar a Mulher que já foi menina, “como de praxe”.

Angra dos Reis, 08/03/2014.


e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com