A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Metaficção



A MATRIZ DE PAPEL

José Castello

 

Aos 14 ou 15 anos, li pela primeira vez “O Ateneu”, de Raul Pompeia. Os sentimentos de opressão que atormentam Sérgio no colégio e suas aflições diante do diretor Aristarco repetiam minhas experiências no colégio de padres. O romance de Pompeia me servia de espelho. Capturava um pedaço da realidade e, depois de compactá-lo em palavras, em um golpe, me devolvia inteiro.

Mais tarde soube que Pompeia se inspirou em suas próprias experiências de menino, nas salas do Colégio Abílio. O espelho se desdobrava – agora eles eram três. A vida de Pompeia, a vida de Sérgio, a minha vida: onde ficava, então, a realidade? Comecei, nesse momento, a desconfiar dos livros. Não deixei de amá-los, ao contrário, mas me dei conta de que não sabia o que eles eram.

Bem antes de ler “O Ateneu”, quando, ainda de calças curtas, devorei as histórias de Lobato e as narrativas de “As mil e uma noites”, comecei a entender que a literatura se apossa, sim, da realidade, mas que, em vez de um espelho em que ela se reflete, é uma janela através da qual ela escorre. Abre novas possibilidades para a vida. Alarga os caminhos da existência. Em vez de prender a realidade em uma imagem fixa, a literatura a multiplica.

A maturidade me fez entender algo ainda mais grave: que a própria realidade está infiltrada pela ficção. Nas turbulências de juventude, durante muito tempo, esperei o dia em que chegaria, enfim, ao mundo real. Foi um susto descobrir que a realidade não é fixa e que viver é ter a coragem de inventá-la. Não sei se consigo descrever o espanto, mas também a liberdade, que essa descoberta me deu. Não fosse a literatura, e talvez não a tivesse feito.

Ainda hoje me assombro com os que pensam que a literatura é um espelho do mundo. Um objeto passivo, que se limita a refletir a existência e a jogá-la em nossa cara. Se nós, humanos, devemos nos inventar, é porque somos, em grande parte, ficção. Não há espelho algum. Ou, pensando ao contrário: o mundo não passa de uma sala de espelhos onde imagens se refletem e se combatem. Viver é escolher com quais imagens queremos ficar.

Essas meditações me vêm durante a leitura de “O livro da metaficção”, de Gustavo Bernardo (editora Tinta Negra). Detenho-me, em particular, em dois dos sete ensaios que o compõem: “Continuidade dos parques”, dedicado ao conto de Julio Cortázar, e “Além da realidade”, sobre a obra do cineasta Eduardo Coutinho. Dois textos imperdíveis, que deviam se tornar leitura obrigatória nas faculdades de Letras. Pela raiz, sem piedade, eles destroem as ilusões que envolvem a escrita.

Mesmo antes dos livros, somos obrigados a nos inventar – a nos “escrever”. Somos identidades que se escrevem a si mesmas, diz Bernardo. Recorda uma afirmação do húngaro Imre Kertész: “o Eu é uma ficção na qual, no máximo, podemos ser co-autores”. Lembra, ainda, de uma ideia de Martha Alkimin, segundo a qual as ficções se espalham para além das margens da literatura, ecoando em pleno coração da realidade.

São pensamentos que nos desestabilizam. Se as ficções transbordam dos livros, para que servem os livros? Se livros não passam de peneiras através das quais as ficções escorrem para inundar a vida, para que ler? A tradição realista nos convenceu da “ilusão novelesca”. Até hoje é o que se ensina nos colégios. Mas como acreditar nessa ilusão de verdade se nós mesmos, a toda hora, nos desconhecemos?

Lendo “Continuidade dos parques”, o conto de Cortázar, Bernardo mostra que a leitura é, na verdade, um contato “de ficção para ficção”. De um lado, o romance: ficção. De outro, o Eu: ficção também. Ele argumenta: “A multiplicação interna de ficções se opõe à demanda realista de que a linguagem representa a realidade”. A linguagem não representa a realidade. A linguagem a cria.

No belo ensaio sobre Eduardo Coutinho, Bernardo mostra que habitamos, hoje, o mundo da metaficção – aquela ficção que não esconde o que é. Por que metaficção, e não simplesmente ficção? Porque as ficções de hoje expõem a ficção do mundo exterior. Os escritores já não acreditam na figura onisciente – aquele que sabe de tudo e que atua como um deus. Ao descer do pedestal, o narrador se apaga. O próprio escritor se anula quando se inclui no cenário do romance. Ao fazer isso, ele faz do leitor uma ficção também. Escritores conhecem bem o abismo que os separa de seus leitores. Escrevem para eles, mas na verdade não os conhecem, apenas imaginam como eles são. Em outras palavras: inventam seus leitores, arrastando-os para o mesmo magma.

Também cai por terra a ideia clássica de que apreciamos um personagem porque nos identificamos com ele – porque nele nos vemos, como em um espelho. Bernardo prefere uma ideia do espanhol Fernando Savater: “Não é que nos identifiquemos com o personagem, mas sim este que nos atribui uma identidade, nos esclarece e nos define frente a nós mesmos”. O grande personagem não nos reflete, ele nos incita a ser. Lendo romances, nos transformamos em vários personagens, mas essa profusão de máscaras, em vez de nos anular, nos fortalece. Eis porque a literatura se torna cada vez mais forte: não por que ela nos tranquilize e nos diga quem somos, mas porque ela nos agita e nos estimula a escolher.

Não devemos confundir as ficções com os espelhos. Lembro da agitação que me provocou, na juventude, a leitura de “Casa de pensão”, o romance de Aluísio de Azevedo. Durante algum tempo, julguei que tinha descoberto um instrumento – a literatura – que enquadrava o mundo e que me permitia manejá-lo. Foi preciso, mais tarde, chegar a Kafka, a Joyce, a Pessoa, para entender que a literatura não se define por sua eficácia, mas pelos desarranjos que produz. Para usar uma expressão precisa de João Gilberto Noll: mais que um espelho, a literatura é uma máquina de ser.

Você pensa que vê o todo, e só vê um pequeno pedaço. Pensa que controla, e não tem controle algum. O Eu se fortalece, para logo depois desabar. A literatura se derrama sobre o mundo. Os livros que li não me explicam, simplesmente me levaram a ser.

 O Globo, 20/03/2010


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