A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Metaficção



A SEGUNDA NATUREZA

Manuel da Costa Pinto

 

"A LITERATURA nasce da literatura; cada obra nova é uma continuação, por consentimento ou contestação, das obras anteriores, dos gêneros e temas já existentes" - a formulação de Leyla Perrone-Moisés, em "Flores da Escrivaninha", define algo nem sempre claro para os leitores, mas evidente para qualquer escritor com domínio sobre seus meios: se a linguagem nomeia e representa os objetos do mundo, a própria linguagem está entre tais objetos - e, quando se trata da arte da palavra, a tradição literária é a "segunda natureza" em que o escritor, além de representar, acrescenta algo ao existente.

Nesse sentido, toda linguagem é, em maior ou menor grau, "metalinguagem", linguagem que se percebe como linguagem -e toda literatura é "metaliteratura", como sintetizado num célebre fragmento de Fernando Pessoa: "Deve haver, no mais pequeno poema de um poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu Homero".

O que acontece, porém, quando um escritor ou artista toma não o passado da literatura e da arte como moldura, mas introduz o procedimento inventivo em sua própria invenção? É esse o tema de "O Livro da Metaficção", de Gustavo Bernardo.

O Dom Quixote discutindo a narrativa de suas aventuras (e, portanto, consciente de que é personagem de Cervantes). O leitor do conto "Continuidade dos Parques", de Julio Cortázar, lendo uma história de adultério e assassinato do qual ele mesmo será vítima enquanto lê.

Ou, indo para o campo das artes visuais, o desenho de Escher em que duas mãos se desenham mutuamente, bem como a imagem da fotógrafa Cindy Sherman se autorretratando no momento em que se olha no espelho.

São exemplos de obras que explicitam sua ficcionalidade e a partir das quais o ensaísta discute a quebra do "contrato de ilusão entre o autor e o leitor" - ou seja, o acordo tácito de que aquilo não aconteceu, mas bem poderia ter ocorrido, sendo portanto "verossímil".

O tema não é novo e Gustavo Bernardo não o apresenta como tal. Mas sua escrita deliciosamente informal e ao mesmo tempo erudita consegue associar temas complexos como o ceticismo filosófico às ironias do pintor belga René Magritte, ao humor do quadrinista argentino Quino (criador da Mafalda) e aos "jogos de cena" do documentarista Eduardo Coutinho.

Sem se limitar aos jogos metatextuais, meio desgastados, da arte pós-moderna, esse estudioso do pensador tcheco Vilém Flusser mostra que a linguagem nos afasta das coisas às quais deveria dar acesso - mas que essas desilusões alimentam a busca "agônica" de novas verdades, mesmo que sejam as verdades provisórias da ficção. 

Folha de São Paulo, 20/03/2010


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