A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Metaficção



O LIVRO DA METAFICÇÃO

Carlos Nascimento Silva

 

Querido amigo,

Ainda me faltam dez páginas (já não faltam) de seu O livro da metaficção que logo terminarei. Mas eu quero ir deixando minhas impressões para o que interesse a você, dentre concordâncias e discordâncias.

Penso que a primeira coisa que qualquer pessoa nota em seus livros é o aspecto didático. A preocupação que o acompanha, do início ao fim, de ser bem entendido, nunca esquecendo de quem está lendo seu texto. Você escreve para seus alunos aquilo que ensina a eles; eles, sua preocupação constante. Às vezes, isso nos deixa a sensação de que você “explica a piada”, “traduz a metáfora do poema”, o que não se deveria fazer... a menos que nossa preocupação não seja a piada ou o poema, e sim a compreensão do receptor, seu entendimento da matéria exposta: acima de tudo, a formação de seus alunos.

Acho isso admirável, Gustavo, em meio a todo esse mar de professores de comportamento sistematicamente egótico, no qual me incluo muitas vezes. Isso, acima de tudo, me parece admirável: um comportamento excepcionalmente ético. É um despojamento que dificilmente se poderá exigir de qualquer ser humano nesse pobre estágio da humanidade. Parabéns, meu amigo. Não sei de onde você tirou isto, mas é absolutamente admirável – tão fantástico que jamais conheci outra pessoa, em toda minha vida, com tal grau de honestidade intelectual, com tal despojamento de um orgulho que, afinal de contas, você mereceria muito mais do que tantos outros, pelo que fez de você mesmo! Isso me traz, até a mim, Gustavo, muito orgulho de sempre ter sido seu amigo, de ter sempre reconhecido suas qualidades intelectuais e morais, desde o início de sua juventude.

Dito o que precisava ser dito, por indispensável honestidade, vamos prosseguir mais colados aos temas do livro. E sabe por que quero fazer isto? Porque sinto falta do diálogo que se deveria ter sobre um livro que se termina. Não a resenha laudatória ou de crítica apressada e ignara, mas uma conversa mais lenta, mais reflexiva, sobre aquilo que achamos e pensamos da matéria ali tratada. Pouco importa se concordamos ou discordamos em algumas matérias. Isso acontecerá sempre. Mas importa para que vejamos melhor ao outro e a cada um de nós mesmos, muito aquém da incognoscível multiplicidade do real.

Vamos lá... Não sei, fico com a impressão de que você colocou em causa o real, a realidade VS a ficção quando não seria bem isso a ser colocado em pauta. Afinal, seria a negação da existência da realidade a intenção do autor? A negação do conhecimento dela, da realidade, sim, desde que o conceito de “conhecer” (ou mesmo de ciência) seja visto de uma determinada forma. Mas isto é verdadeiramente filosofia, que eu não teria como discutir com você. Posso, quando muito, achar interessantes certas formas de entender o mundo, certas assertivas, como a de Badiou, por exemplo, embora não consiga concordar com elas.

“Atestar o real”? “Desempenhar o papel de real”? Afinal, não se trata de negar o real, mas de mostrar a dificuldade de entendê-lo, de verbalizá-lo, de conceituá-lo; não de negar sua existência, já que qualquer conotação niilista foi inicialmente afastada do livro. Em caso contrário, estaríamos opondo um discurso ficcional, não a um discurso ensaístico ou mesmo a um discurso científico (matemático, por exemplo: biunívoco), mas a uma “realidade objetiva”, como você a chamou, e aí teríamos comparações impossíveis de se pretender. Então, o que me parece é que não fica clara a oposição pretendida, o seu par de opostos: ora a da ficção, no sentido de “relações imaginativas”, ora a da ficção como um discurso ficcional; ora a realidade é a “realidade objetiva”, ora ela se apresenta como a estética realista. E, por isso, muitas vezes somos tentados a discordar, tomando uma coisa por outra. Para mim, portanto, me parece indispensável definir melhor de que oposição se trata, a seleção de seu par de opostos a serem trabalhados.

Por outro lado, há vezes em que me perco. Quando você cita Flusser, “a língua cria a realidade” (p. 25), você concorda com ele? A língua cria, mesmo, a realidade ou cria uma forma de humano entendimento dessa realidade? Porque, no primeiro caso, é no momento em que nomeio a “pedra” que ela é criada e aparece no mundo, no universo, é disso que ele está dizendo?  Ou, tão somente, ela é “apartada do mundo”, dos demais inumeráveis objetos do mundo, por nossa parca capacidade de compreensão humana, até o momento de sua primeira designação? Porque, neste segundo caso não podemos, com propriedade, dizer que “a língua cria a realidade”, não é mesmo? Porque, embora eu não conheça exemplos de memória, suponho que a filosofia tenha resolvido este problema ainda no tempo dos gregos. Em outras palavras, a pedra não se “cria” no momento em que a nomeio, ou quando a vejo, mas sim que ali já estava, mesmo quando ainda não a tinha visto eu, certo?

Desculpe, Gustavo, estou apenas pensando alto, já que isto nunca foi matéria de meu interesse especial. Assim, se estiver dizendo um enorme absurdo, por favor, aponte-o, assim como o texto onde eu poderia me esclarecer (caso você se lembre de memória: não perca tempo, meu amigo). Se eu estiver certo, Flusser apenas se utilizou de um procedimento metafórico, ao expressar-se daquela forma, é isso? Então, a rigor, pelo mesmo processo devo entender a sua frase a seguir: “A chamada natureza existe, é claro: pedras, estrelas chuva, árvores, fome, são fenômenos reais, sim – exatamente porque são palavras.” Significa que antes do homo sapiens designar os objetos eles não habitavam o Universo? Penso que não foi isto que você quis dizer. Ou foi e não percebo o sentido dado à frase? Bem, que a poesia crie a língua (linguagem?), nem vou tentar discutir, antes de entender minhas dúvidas anteriores. Por isso eu disse: se for filosofia, provavelmente não poderei acompanhá-lo.

Ainda na p. 25, você volta a se valer do mesmo filósofo para definir a verdade como meta inalcançável. Não parece a você que complicaremos mais o problema se largarmos a realidade, o real e abraçarmos, também, o conceito de verdade, neste momento? Ao que se acrescenta: “A própria vida humana é um fazer ‘como se’ para ver ‘como é’ – em uma palavra, arte.” Estaríamos falando em um processo de tentativa e erro, é isso? Mas nem somente a arte faz caminho errático deste tipo, não é verdade? Além disto, me ocorre que a fórmula “como” é sempre comparativa. Mas comparativa a quê? Com o que o homem compara suas teorias científicas, suas experiências de laboratório, sua arte acadêmica ou tradicional, seus objetos, fruto de design, e até seus comportamentos agressivos ou carinhosos ou brincalhões ou, ainda, quando são fruto de medo e cautela? Nós os inventamos sem qualquer modelo existente na natureza, como pretende a modernosa pintura não-figurativa, por exemplo? Ou, nós, parte dessa natureza que somos, agimos de forma adaptada, na maior parte das vezes, a comportamentos animais preexistentes no mundo?

Portanto, em vez de dizer que “criamos a própria realidade”, não seria uma expressão mais própria dizer que criamos uma interpretação humana da realidade? Porque, afinal, cada espécie animal, a partir de suas capacidades sensórias, não estaria criando para si, também, outras interpretações da realidade? Enfim, Gustavo, não conheço teorias filosóficas que provavelmente devem ter criado diferentes respostas a esses problemas. Apenas, como disse anteriormente, levanto hipóteses que me parecem lógicas, embora possam não o ser.

Que tal se encerrarmos as citações referentes ao “Prólogo” com sua frase que assenta sobre o final da página 27, início da p. 28? “Por toda vida, tenho me dividido entre a ficção e o estudo da ficção, como se minha mão esquerda se dedicasse a escrever romances e a minha mão direita, ensaios. Essas mão se encontram e desencontram periodicamente, ao ponto de tantas vezes uma atrapalhar a outra – mas já me habituei a isso.” Através do que, você volta a se referir ao enigma de Escher. Penso, Gustavo, que aqui você toca, de forma inclusive vivencial, um problema fulcral em sua literatura. Assim como nos enigmas de Escher que tanto prendem sua atenção, não estaria uma falta de decisão, de opção, entre fixar seu olhar sobre a ficção ou privilegiar o ensaio, criando uma ficção-ensaística, no sentido de, ao trabalhar cada um, você manter, esfumada que seja, a imagem do outro como uma forma contrapontística?

Lembra-se de que uma vez em que, em uma resenha feita ao romance Desengano, você comentou que o autor “levava muito a sério seus personagens”? (cito de memória). Veja como isto seria, talvez, o outro polo da forma contrapontística que detecto em alguns de seus textos. Quase como se você trabalhasse com dois papéis transparentes nos quais, em um, se desenrolasse um texto ficcional, enquanto, no outro, o traçado de uma análise crítica modificaria, através de seus comentários, o desenho original. E aqui tocamos no conceito de metaficção, como o entendo. Ao serem superpostas, teríamos uma linha dobrada, como as dúplices helicóides de DNA, que nem sempre permitiriam, ao leitor, viver uma história nova e verossimilhante, já que a metaficção, mesmo dependente da ficção, a confronta, desmascara-a em pleno palco, acende todos os spot-lights, desfazendo a encenação cuidadosamente criada. Claro, é diferente da figura de Escher, mas talvez leve a você, em forma pictórica, a frase com que tão bem você definiu o fenômeno e que começa com “Por toda vida...”

E aí? O Carlos não gostou do livro, não concorda com meu gosto estético e só quer contraditar tudo o que digo? Nada disso. Que pensamos diferentemente porque sentimos diferentemente, é óbvio. Mas esta mesma frase que acabo de escrever dá, a você, boa margem de razão contra nossa capacidade de apreender o real, ou seja, meus sentimentos estéticos influem em minhas hipóteses teóricas. Claro que sim, os corpúsculos sub-atômicos, como você lembrou, já demonstraram isso. Mas isto não significa dizer que nossos sentidos não permitam, por alguma forma, um approach humano desse real. E, mesmo em termos de verdade, esse primeiro conhecimento não teria valor algum? Bem, se tem, como me parece, então existe um conhecimento humano da realidade, assim como um conhecimento animal dessa mesma realidade, mesmo que seja um conhecimento meramente pragmático. Antes disso, vou citar alguns trechos de um texto, embora só vá dar a conhecer sua autoria e época de edição após a última das citações. Afinal, como você, eu entendo que a presença do observador, assim como qualquer forma de preconceito, nos impede o trato com uma razão mais clara. Procure lê-los de mente aberta, como eu nem sempre consegui me aproximar de alguns tópicos de seu livro.
 

“Mas o grande perigo da crítica é um dedutivismo ingênuo que, partindo de uma prenoção, acha no seu campo de pesquisas apenas aquilo que procura. Veja-se, por exemplo, o caso de Taine. Já Edmond Schérer, num de seus “estudos” mais felizes, apontava os lados fracos da interpretação tainiana da arte ou da história literária. Em vez de proceder por indução, Taine deduz de uma idéia forçosamente preconcebida as componentes que deverão formar o caráter de uma época ou o espírito de uma literatura.

“Sem dúvida, o crítico não pode prescindir de uma hipótese, como o cientista, para abrir uma picada no mato virgem dos fatos. Mas também não deve esquecer que, além da clareira mensurável, começa a exuberância das probabilidades, como uma floresta de interrogações. Respeitar o outro lado provável das coisas, admitir em tudo a parte do indeterminado é uma boa tática para quem não gosta de tropeçar nas surpresas irônicas.

“Através de alguns aspectos da obra de Machado de Assis, tentei traçar o seu retrato psicológico, sem espírito prevenido. Está claro, porém, que esse homem era uma colônia de almas contraditórias, como toda personalidade complexa: o niilista feroz foi um funcionário exemplar, o cético fundou a Academia de Letras, o cínico deliciava-se mentalmente na companhia da pérfida Capitu, porém amou a “meiga Carolina” – e o humorista (este então, nem se fala!) era a consciência de todos esses contrastes, o espectador que sacode a cabeça, desenganado, sorrindo, sem esperança alguma de poder harmonizar a família desunida. Sem esperança? Mas ter consciência da própria diversidade já é uma tendência para a unidade, desejo de conciliar os contrastes numa síntese pessoal que os domine.

“O humorista sente com viva ironia os caprichos volúveis do eu que se forma e se deforma, afirma e tropeça logo num desmentido cômico, mito em andamento, cancha de contradições, arlequinada moral, porém, como diz Aldous Huxley no seu admirável ensaio sobre Pascal: ‘The colony of our souls is rooted in the stem of a single life’.”

“A ironia, então, provém de uma consciência aguda e quase dolorosa da unidade moral, constantemente desmentida pelas suas quebras reais.”     

 

É evidente, Gustavo, que não podemos comentar todos os tópicos do livro, dado seu grande número. No entanto, vou tentar opor, a fim de nos fazer pensar, algumas matérias ali tratadas, principalmente aquelas que mais me interessam, do ponto de vista da literatura.

O problema da ironia em Machado vem sendo apontado há muito tempo, por seus analistas, assim como por você mesmo que, em mais de um passo, faz referência a ele, principalmente em sua função metaficcional. Com a mesma função, à p. 90, você nos chama a atenção para outro quadro de Magritte, intitulado “Les deux misteres”, e comenta: “A ironia toma nova forma com a capa que o pintor fez para o número 1 do London Gallery Bulletin, publicado em 1938: um personagem fuma um cachimbo que, antropomorfizado, fuma um cachimbo menor, o qual, por sua vez, também fuma um cachimbo menor ainda que, por seu turno, fuma outro cachimbo ainda menor, assim, ad infinitum, numa variação sagaz do mote meta e intraficcional da boneca dentro da boneca dentro da boneca.”

Não há porque discordar de seu comentário, Gustavo, exceto pelo fato de que Magritte era tão interessado em paradoxos que fixava-se neles, esquecendo, comumente, a pintura. Afinal, não podemos esquecer que uma boa idéia, une trouvaille, como ele mesmo diria, é apenas e tão somente uma boa idéia, não necessariamente uma obra de arte. E é disso, de arte, que estamos tratando aqui, não é? E para evitar a “unanimidade burra” de que falava o nosso amigo Nelson Rodrigues (no que tinha, me parece, toda a razão), continuemos a acompanhar, um pouco mais o nosso autor não nomeado:

 
“Em todo esse dar de ombros que é a obra de Machado, há um espectador que julga, mas se compraz na vaidade do espetáculo. Sem espetáculo, acabou-se o vício gostoso da ironia. Quem humoriza tem de certo modo a ilusão do camarote, pensa que está acima dos outros, pobres diabos lá da plateia. É verdade que o humour envolve uma forma de auto-ironia, como se tratasse de evitar o ridículo dessa ilusão. Mas o humorista depende do seu espetáculo e afirma o direito de julgar. O mundo é absurdo, a vida é uma farsa, diz ele. Traçou, portanto, na exuberância da realidade uma perspectiva singular e, pelo determinismo do ponto de vista, tornou-se o escravo de sua visão.

“O homem do camarote, com toda a sua ‘visión binocular del cosmos’, também dogmatiza, também inventa uma tábua de valores. Tudo é absurdo, menos eu – para poder afirmar isto. Pois quem é que não usa antolhos como os burros de carroça, quem é que não afirma ou julga? Tratemos o humour com mais humour e com menos teorias. A lágrima que sorri, o riso que chora, todo um cocktail de definições engenhosas chocalhadas inutilmente... Porém cada humorista enxerga o mundo através de si mesmo.

Machado de Assis só sabia olhar a vida sub specie mortis. Mundo das almas mortas. O homem, autônomo irresponsável, movido a frio pelo egoísmo e pela estratégia dos instintos, girando sempre em torno de si mesmo. A cegueira do jogo se repete mecanicamente, monotonamente. Sempre o “caso de vara”, sempre o “caso da borboleta”, sempre o mesmo solilóquio do homem que masca e remasca as mesmas idéias sobre os mesmos fatos – por não poder sair de si mesmo. E Machado de Assis não pode “sair de si mesmo” porque só sabe ironizar.

O que também explica o fato de não poder criar uma personagem que nos dê a ilusão da vida individual, sem cordas de fantoche e intervenções do autor. As personagens dele se movem como fantasmas num ambiente irrespirável de pura análise. O autor nunca lhes dá um momento de folga para que possam viver a sua vida. Falta-lhe, portanto, o imprevisto psicológico e a reticência íntima, o sentido singular, interior e incomunicável do eu.

“A ironia corta pela raiz qualquer movimento de espontaneidade emotiva que procura ligar o indivíduo ao mundo dos outros. Sempre reservada e reticente, não vai na onda. Implica um recuo do espírito diante das próprias emoções e uma distância respeitável entre a ação e a reação interior, espaço livre onde o eu proclama a sua independência. É o desvão recatado, a liberdade desdenhosa de Brás Cubas. Ora, o eu irônico, no seu movimento de recuo permanente, não quer depender nem de si mesmo e se olha no espelho sorrindo, mas a ironia pouco a pouco vai se tornando para ele uma necessidade imperiosa e, automatizada pelo hábito, transforma-se afinal num verdadeiro vício do espírito. Começa então o automatismo da ironia, a necessidade do espetáculo vão que é o alimento dessa voracidade mórbida. Humanitas precisa comer e para isso é capaz de cair na pura autofagia.

“(...) É assim que ele chega a ser, à luz da ironia, a personagem mais interessante de sua obra: Machado de Assis, um velhote meticuloso, funcionário exemplar, bom marido, tímido, muito discreto, animal de hábitos moderados mas que também tem a sua cachaça: faz ironia. Fabrica o seu azedume estilizado como Sofia brinca de seduzir o mineiro e Capitu engana o marido, como Aires escreve as memórias e Brás Cubas deixa a vida correr – por desfastio, por hábito, por vício, movido pelo deslanchar dum mecanismo íntimo.

“Fantoches todos nós, bonecos de engonço, trapos de vida. Até a veia cômica, remédio amargo e divertimento, enferrujada por tantos anos de riso, se gasta como um cacaréu imprestável (...) A velhice de Machado... Não há nada para dar a impressão do vazio, vazio terrível da vida e da morte, como as últimas cartas ou o Memorial...”

[Machado de Assis 1935-1958, Ensaios “Mas...” e “Sombra”, Augusto Meyer).

 

Bem, Gustavo, posso imaginar o pH de sua saliva, ao terminar de ler essa análise sobre um autor de reconhecimento unânime. No entanto, eu não poderia deixar de citá-lo, uma vez que não conseguiria dizer o que penso de forma melhor, não por sua análise psicológica, que me diz muito pouco, mas por este pequeno início de parágrafo que marquei a negrito e que termina com “ao mundo dos outros”. Meyer diz de outro modo, por outras palavras, o que tentei expressar com a imagem de um teatro escuro, com spots que só iluminam os personagens sobre o palco, nunca a plateia, para que não a tire daquele estado de espírito sonambúlico, talvez mediúnico, de quem sai de si e entra em um mundo de ficção. Nesse momento, Gustavo, para mim, só me interessa esse outro mundo, pouco me importando a decifração de sua máquina lógica ou psicológica. Isso, essa preocupação, deixo para quando discuto com um amigo meu, dado a desentranhar segredos paradoxais de uma realidade da qual mal diviso sua parte mais brilhante.

Espero não tê-lo magoado com esta visão tão chã, tão simplista que, confesso, me deixa à boca o sabor de uma bala Juquinha dos tempos da minha infância. Porém, ao lado de seu reconhecido simplismo, é tão forte a impressão de que o mundo rola entre a língua e o céu da boca, que o não poder prová-lo racionalmente não muda o fato de que o provo, agudamente, em seu sabor de infância revivida. E ela é tão forte, Gustavo, que não pode deixar de ser real. Entendo suas objeções, só não quero crer nelas.

Um abração do seu amigo de sempre,

Carlos,

Copacabana, 17 de fevereiro de 2010

 

P.S. Por outro lado, estou pronto a confessar nossa igualdade de pontos de vista, através de seu argumento à p. 234. Realmente, Grace Kelly foi o mais belo rosto que a natureza criou. E, dizem, o príncipe Charles jamais perdoou a mãe por não tê-lo posto no mundo alguns anos antes... 

 


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