A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Metaficção



O LIVRO DA METAFICÇÃO

Jason Manuel Carreiro

 

Caro Gustavo, olá!

Eu pensei em escrever uma resenha sobre o seu “O livro da metaficção”, mas acabei achando que uma resenha formal limitaria o relato da maneira pessoal como me relaciono com sua obra.

É curioso como sua obra tem uma influência tão pessoal no meu cotidiano, na minha escrita e no meu desenvolvimento profissional. De você mesmo, sei pouco. Encontramo-nos apenas duas vezes: a primeira, quando você esteve na PUC Minas em 2004 para falar sobre "A ficção cética". A segunda, quando você foi fazer o seu estágio de pós-doutoramento em Filosofia, na UFMG. Mesmo distantes (deixei Belo Horizonte, fui para os Estados Unidos e retornei para o Canadá), sempre procurei manter contato com você, no Rio de Janeiro, e você sempre me deu toda a atenção do mundo.

Digo para todos os meus amigos, sem hesitar: os meus autores contemporâneos favoritos são os americanos David Foster Wallace e Lewis Hyde, a inglesa Zadie Smith, o português António Lobo Antunes e você. E olha que não sou lá muito de autores – sempre preferi os livros. Bem, mas é por ser um fã declarado que passo a fazer alguns comentários estritamente pessoais em público, nesta carta aberta que escrevo para você e para o seu fantástico caderno/banco de textos, o Dubito ergo sum.

Bem, acho que o seu livro vem num momento muitíssimo oportuno e lamento que ele não tenha sido lançado também diretamente em inglês. Aqui na América do Norte, foi lançado há pouco mais de um mês um livro chamado "Reality hunger: a manifesto" [Fome de realidade: um manifesto, em tradução livre]. O autor, David Shields, é algo como uma espécie de arauto contemporâneo do realismo. Professor de literatura e ex-romancista, faz uma defesa ardorosa (como sói ser nos manifestos) dos gêneros considerados não-ficção. Ele também sustenta que a ficção está finalmente ultrapassada.

Estivesse o seu livro em inglês, acho que haveria um debate muito interessante frente ao livro de Shields, e "O livro da metaficção" seria automaticamente colocado como o contraponto perfeito ao livro do professor americano. Falo isso para destacar a importância do seu livro no horizonte crítico contemporâneo.

Se a arte está ultrapassada e as pessoas têm fome de realidade, cabe perguntar: por que haveria então uma imensa indústria cultural que movimenta milhões em uma cultura “mastigada” e de fácil digestão, que ainda induz os consumidores a literalmente, se entupirem? Ora, analisemos de perto: se há uma necessidade intrínseca de ficção por parte do homem, e essa ficção inerentemente tenta organizar a “dança jubilosa” da realidade colocando-a sob suspeita, a ficção possui um imbricado caráter subversivo. E como uma tecné que faz movimentar o pensamento, cabe então pasteurizá-la para eliminar o seu caráter subversivo.

O seu livro é um elogio a esse caráter subversivo da arte. Ele é uma amostra, em sete capítulos, de que a arte não acabou, que a ficção não está ultrapassada, e que a realidade é boa – o realismo é que não presta para nada.

Sempre achei que a forma e o conteúdo fossem um casal que tinham que estar em perfeita harmonia para que um livro fosse de agradável leitura. Em "O livro da metaficção", nota-se o seu cuidadoso didatismo. (É engraçado pensar como a palavra didatismo é tão usada pejorativamente nos dias de hoje, não é? Terá algo a ver com a desvalorização da docência? Será que a relação ensino-aprendizagem está fadada a cair no ridículo?) O seu livro é claramente estruturado como um convite ao pensar. 

Sei que alguns criticarão esse caráter didático do livro. Eu gosto e acho necessário que você analise de maneira exaustiva os livros, os quadros, os filmes. Digo isso porque o modo como você analisa mostra os desafios e as provocações dos objetos da sua análise, sem a pretensão de encerrar as questões. Você consegue mostrar como a arte protege, subversivamente, a dúvida, e você mesmo a protege. Suas próprias análises são meta-análises.

Muitos irão achar chato o fato de você sempre citar o texto original ao lado da tradução em português. O ensino anda tão falido, que virou alvo de chacota: se você cita o original, dizem que é preciosimo. Se você cita latim e grego clássico então, ainda pior! Dizem que você é exibicionista. Citar autores então virou pecado! Virou moda dizer que você faz namedropping vazio e que só cita tantos nomes para se exibir.

Não sei se a academia faliu, ou se há uma preguiça generalizada no ar, decorrente da pressa do cotidiano e do hábito de escrever em 140 caracteres numa mensagem ao celular. O seu livro é um livro contra a pressa. É um livro feito pra ler devagar. Melhor: com vagar. Lendo e relendo. E refletindo. E anotando. E suspeitando. E nos aninhando nas reviravoltas do pensamento.

Ao contrário da “moçada”, eu penso que se você cita o texto no original, especialmente se não conheço a língua, você convida ao espanto e à beleza frente aos diferentes modos de se tentar dizer uma mesma coisa. A cada “trecho duplo”, onde figura o texto original ao lado da tradução em português, eu parava para ler o original antes, para só depois ler a tradução na “nossa” língua. E eu fazia isso mesmo diante do alemão e do francês – línguas que ignoro. Mas era um exercício gostoso tentar decifrar, tentar compreender um mínimo de uma língua que desconheço – e ainda ficar comparando com o português depois. Veja que não digo que é assim que se deve ler, tampouco digo que esse fosse o seu objetivo. É apenas a forma como me relacionei com o seu texto. Desde o início, eu me comprometi a passear por ele, sem pressa e sem pretensões. Apenas me entregando à aventura livre do pensar.

Se a “moçada” é contra nomes (costumam alegar que nunca ouviram falar de tais ou tais autores), eu acho que mesmo que eu não conheça dado escritor ou cineasta, mesmo que eu não tenha lido tal livro ou visto tal filme, a simples citação é um convite para que eu me aprofunde: tendo a referência no livro, basta correr atrás e ler o autor, ver o filme. Ah, mas ninguém tem tempo nem curiosidade pra isso mais, não é? Sei...

Foi bom ler suas novas análises sobre o Dom Quixote e também sobre Machado de Assis, que é o meu autor favorito entre todos do mundo. Inclusive, a sua afirmação à página 122, de que Machado talvez seja o melhor escritor do Ocidente me fez sorrir. Sempre achei o Machado o maior de todos, pelo simples fato de ele ter sido o melhor emulador dos maiores escritores do Ocidente. Não é tarefa fácil alinhar-se ao lado dos mestres. O capítulo sobre o Quixote me levou a adquirir o filme de Orson Welles que eu não conhecia, e a ler o texto de Giorgio Agamben.

O capítulo em que você fala sobre as aparições de Hitchcock como personagem dos seus filmes me levou a finalmente entender o gênio do insuperável Ingmar Bergman – veja só! Sempre fiquei intrigado pelo fato do escritor e diretor sueco aparecer em alguns de seus filmes. Me lembrei muito do maravilhoso "A paixão de Anna", onde Bergman não somente aparece dirigindo o filme como se nada mais estivesse acontecendo ao redor (e como se isso fosse a coisa mais normal do mundo), mas os atores aparecem falando sobre os personagens que eles interpretam, no meio do filme (como se isso não fosse nem um pouco anormal). Fazendo uma brincadeira aqui, talvez possamos chamar isso de ultrametaficção!

O final do seu ensaio é antológico, Gustavo. E me lembrou muito o último capítulo de "A ficção cética". Ambos os livros terminam de maneira muito similar, remetendo à morte, à impossibilidade, e à necessidade de permanecermos criando sentido até o momento em que nos dobraremos e nos aceitaremos.

Aqui, Gustavo, vou pedir licença para dar um palpite sem qualquer pretensão de que você o aceite. Mas quando escrevi sobre "A filha do escritor", eu disse que eu tinha a sensação de que você ainda escreveria um livro onde o indizível mostraria a sua face. Dois anos depois, gostaria de esclarecer o que eu disse: eu acho que você vai acabar escrevendo sobre a morte. Não sei qual será sua abordagem, nem como fará, mas eu às vezes sinto que se você permitir à sua mão de ficcionista intrometer no que escreve a mão do professor, e se a mão do professor entrar na roda e se divertir com a mão do ficcionista, você vai acabar escrevendo algo na tradição do que fizeram Maurice Blanchot ou Pierre Klossowski.

Gostaria de dizer também que o projeto gráfico do livro é primoroso. Um projeto gráfico tão belo aliado a um texto tão claro e bem-escrito merece, além de ser lido com atenção, ser indicado a todos os prêmios dados a livros sobre crítica literária e cultural.

Enfim, Gustavo, acho que a intenção do David Shields é apenas polemizar. "O livro da metaficção" mais do que demonstra a força da ficção: afirma a necessidade antropológica de fazer ficção.

Numa entrevista dada há alguns anos, David Foster Wallace disse que houve um período da vida dele em que ele estudava demais, até que percebeu que as pessoas eram mais interessantes do que os livros. Costumo brincar com os meus amigos, botando banca de carrancudo, que eu discordo completamente: os livros são muito mais interessantes do que as pessoas.

Ponho a brincadeira de lado, agora, porque afinal não sou tão mal-humorado assim. Mas é fato que os livros, os filmes, a música, a pintura, a arte, enfim, são essenciais para questionarmos o mundo e as pessoas. Para questionarmos a vida, enfim. E por desdobramento, vamos tentando compreender o mistério. Apenas tentando. No fim das contas, um não é mais interessante que o outro. E fica a aventura de viver e o que construímos a partir dela. Fica a criação, o gênio inventivo – fica a arte!

Por mais que o David Shields diga o contrário.

Receba o meu abraço.

Vancouver, 13/04/2010


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